Saúde

Pesquisadores iniciam estudo de longo prazo sobre câncer em mulheres negras

A Sociedade Americana do Câncer iniciou um estudo ambicioso e abrangente focado em uma população que há muito tempo tem sido negligenciada, apesar das altas taxas de câncer e mortes relacionadas ao câncer: as mulheres negras.

Acredita-se que iniciativa, chamada Voices of Black Women, seja o primeiro estudo populacional de longo prazo e grande dimensão a focar especificamente nos fatores que impulsionam a prevalência do câncer e as mortes entre as mulheres negras.

Os pesquisadores planejam inscrever 100 mil mulheres negras sem câncer e com idades entre 25 e 55 anos de Washington, D.C. e outros 20 estados onde a maioria do grupo reside. As participantes serão entrevistadas duas vezes por ano sobre seus comportamentos, exposições ambientais e experiências de vida, e seguidas por 30 anos. Nesse período, quaisquer cânceres que possam desenvolver serão rastreados.

Estudos semelhantes realizados pela Sociedade Americana do Câncer no passado forneceram lições sobre o que causa o câncer — por exemplo, identificando o tabagismo como uma causa de câncer de pulmão e ligando o consumo de carne vermelha e processada a um aumento do risco de câncer de cólon.

Embora alguns estudos anteriores tenham incluído um grande número de mulheres negras, a pesquisa não foi capaz de “focar nos impulsionadores específicos do câncer nessa população”, diz Alpa Patel, vice-presidente sênior de ciência populacional da sociedade e co-investigadora principal do estudo Voices, juntamente com Lauren McCullough.

“Em estudos populacionais em geral, tendemos a fazer perguntas que serão aplicáveis à maioria da população”, afirma. “Portanto, aprofundar-se nas experiências vividas de discriminação, preconceito, questões sistêmicas, influências ambientais e aspectos culturais dos comportamentos relacionados à saúde, e como as narrativas em torno deles são moldadas em diferentes populações —esses tipos de aspectos únicos para entender o que contribui para o câncer em uma população não estavam sendo questionados.”

As mulheres serão entrevistadas sobre o uso de produtos de cuidados pessoais, por exemplo, incluindo alisadores químicos para o cabelo, que foram implicados em alguns cânceres. Os pesquisadores rastrearão estressores relacionados ao ambiente físico, e fatores como a capacidade de caminhar no bairro, crime, poluição do ar, acesso a alimentos saudáveis e proximidade de lojas de bebidas alcoólicas e estabelecimentos que vendem cigarros.

As mulheres negras têm as maiores taxas de mortalidade e as menores taxas de sobrevivência para muitos cânceres se comparadas a qualquer grupo racial ou étnico. Negros em geral têm taxas mais altas de câncer colorretal do que os americanos brancos, por exemplo. A taxa de mortalidade por câncer de útero é o dobro em mulheres negras em relação às brancas, e elas têm o dobro de probabilidade de receberem o diagnóstico de câncer de estômago e mais de duas vezes a probabilidade de morrer em decorrência dele. Elas também têm 40% mais chances de morrer de câncer de mama.

As taxas persistentemente altas de mortalidade entre as pacientes negras com câncer de mama foram uma das razões citadas pelo Grupo de Serviços Preventivos dos EUA para reduzir a idade de triagem mamográfica de 50 para 40 anos.

As disparidades raciais na sobrevivência ao câncer de mama são relativamente novas. Até a década de 1970, não havia disparidade racial nos resultados do câncer de mama entre mulheres negras e brancas, diz Patel.

“Agora sabemos que existem tumores mais agressivos, especialmente em idades mais jovens em mulheres negras em comparação com mulheres brancas, e não entendemos completamente o porquê”, afirma ela.

O recrutamento para o estudo começou no final do ano passado com um lançamento piloto em Atlanta e Hampton Roads, Virgínia, e a inscrição foi expandida para Washington D.C. e outros estados. Os participantes elegíveis devem se identificar como negros, ser designados como mulheres ao nascer ou se identificar como mulheres, não ter histórico de câncer (exceto cânceres de pele basocelular ou espinocelular comuns) e ter entre 25 e 55 anos. Nenhuma medicação, teste clínico, tratamento ou mudanças de estilo de vida são necessários no estudo.

Breana Berry, 30, que trabalha em saúde pública perto de Atlanta, se inscreveu, assim como sua mãe, Jacquelyn Berry, 53, que é cuidadora de uma amiga com câncer de mama e perdeu o marido para o câncer de pâncreas há três anos, quando ele tinha 53 anos.

“Meu marido reclamou de problemas de estômago por dois anos, e foi diagnosticado erroneamente”, diz ela. Ele morreu logo após receber o diagnóstico correto, que era câncer de pâncreas avançado.

“Estou interessada nos porquês”, afirma. “Por que existem disparidades tão grandes? Este não é um estudo de uma noite; você tem que acompanhar as pessoas por muito tempo. É um compromisso enorme, mas estou dentro. Eu sei que nossas vozes farão a diferença — para meus bisnetos.”

Informação

Folha de São Paulo

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