Economia

Pesquisar preço antes do real era desafio para institutos que apuram inflação

O período de inflação acelerada no Brasil foi desafiador para a população, mas não menos difícil para as instituições que apuram os índices de preços.

Após o Plano Cruzado, em 1986, o setor produtivo aprendeu a driblar as exigências impostas nos planos, principalmente nos períodos de congelamento, dificultando a apuração real dos preços.

Heron do Carmo, que participou por 25 anos do IPC (Índice de Preços ao Consumidor) da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), instituição que divulga toda semana um índice de inflação referente a São Paulo, viveu o período mais agudo dessa aceleração inflacionária no país.

Economista mais procurado naquele período para falar sobre o comportamento dos preços, Heron afirma que a inflação mudou não apenas o comportamento dos consumidores, mas também o das indústrias e o do próprio governo naqueles anos.

Maquiagem de produtos, ágio sobre preços tabelados, lançamento de itens novos com poucos detalhes de diferença em relação aos existentes, redução de embalagens, remédios novos com mínimas alterações nos princípios ativos e impostos compulsórios desafiavam os institutos de pesquisas a chegar a uma apuração real da inflação.

Como lidar com isso?, pergunta o economista. A dificuldade nas comparações de preços de produtos com algum tipo de alteração para fugir do tabelamento tornava a pesquisa ainda mais complexa e até menos precisa se não fossem tomados cuidados adequados.

O óleo de soja teve redução de embalagem, os carros passaram a ter mudanças mínimas, as carnes tinham ágio. Tudo isso dificultava a pesquisa, diz o economista.

Os índices de inflação começaram a apontar essas mudanças nos produtos e a alertar os consumidores. O resultado foi uma enxurrada de reclamações das indústrias sobre os índices, que, para se protegerem, passaram a adquirir os produtos alterados como prova do que estava ocorrendo.

Os tempos mais difíceis eram a passagem do período de safra para a entressafra agrícola e o de mudança de estação no setor de vestuário.

Na safra, com a oferta maior de alimentos, principalmente de hortifrútis, os preços caíam, e o governo elogiava a metodologia dos índices. No período de entressafra, de menor oferta e alta de preços, o governo atribuía a aceleração da inflação à metodologia dos índices.

Um dos cuidados dos coordenadores de índice de inflação era com o vazamento das informações. Por isso, a Fipe antecipava ao máximo possível a divulgação dos resultados para que as informações não ficassem paradas na gaveta. Afinal, uma antecipação dos dados por uma instituição financeira rendia milhões.

Heron diz que essa pressão por antecipação da informação vinha de governos, repórteres, empresas e sistema financeiro. Todos estavam de olho nos números. Telefonemas, convites para almoços e troca de ideias eram constantes.

Daí a Fipe divulgar os dados da inflação logo no dia seguinte ao do final da apuração. “Um número vazado e antecipado por alguma instituição do mercado financeiro renderia muito para eles”, afirma o ex-coordenador do índice.

A responsabilidade era grande, diz Heron. Os números mexiam com toda a economia, principalmente porque a Fipe era sempre a primeira a divulgar a taxa de inflação.

O ex-coordenador diz que nos dias de divulgação sua rotina de preparação começava logo cedo. Revia os pontos mais sensíveis destacados pelo índice na semana porque, com certeza, seriam os principais questionamentos da dezena de jornalistas que estariam à sua espera na coletiva semanal.

O perigo eram as “manchetes terroristas”, vindas principalmente de jornalistas não muito familiarizados com o índice, afirma ele.

O tomate e o chuchu estavam sempre na berlinda. Suscetíveis a seca e chuva e a períodos de safra e entressafra, levavam toda a culpa pela inflação em períodos de alta de preços.

Heron afirma que a escalada inflacionária no país afetou todo o comportamento da sociedade. Os consumidores faziam dos supermercados a sua melhor aplicação financeira, antecipando as compras.

As indústrias aumentaram significativamente as vendas de freezers, devido à necessidade de formação de estoques de carnes e de outros produtos congelados para o consumo mensal.

Até a construção civil foi afetada, afirma ele. Os apartamentos passaram a incorporar uma despensa para a estocagem dos alimentos que seriam consumidos durante todo o mês.

O governo não ficou atrás e passou a adotar medidas para minimizar os efeitos da inflação. Uma delas foi a criação de impostos compulsórios. O do combustível obrigava o consumidor a guardar um ticket que seria resgatado anos depois, o que mascarava os índices de inflação do momento.

Foi o período em que surgiram as grandes redes de varejo. Supermercados e hipermercados colocando todo tipo de produto à venda.

Com a economia fechada e pouca concorrência de produtos externos, o varejo podia aplicar margens maiores, segundo o economista.

Já os consumidores, em um período em que muitos não tinham conta bancária, eram obrigados a fazer estoques de produtos.

“Com a chegada do Plano Real, se fala menos de inflação, e isso é positivo porque se aborda outros assuntos econômicos também importantes”, afirma o ex-coordenador do índice da Fipe.

Folha de São Paulo

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