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Polêmico e visionário, Petraglia pode batizar estádio do Athletico-PR no centenário

Maior artilheiro do Athletico-PR na Libertadores, ao lado dos atacantes Lima e Marco Rúben, o ex-lateral-direito Luisinho Netto conta ter aprendido ainda no vestiário do estádio Santa Cruz, em Ribeirão Preto, o real significado do “modo Petraglia”.

O termo que ouvira falar anos antes da chegada ao clube paranaense, em 1997, passou a fazer sentido para ele após uma derrota por 2 a 1 para o Botafogo-SP, na penúltima rodada do Campeonato Brasileiro daquele ano. O tropeço pôs fim às chances da equipe de classificação às quartas de final da competição. Petraglia subiu o tom, disse que ninguém estragaria o sonho dele de fazer do clube um dos grandes do país.

“Ele falou: ‘Quero que fique claro que ninguém vai estragar o meu sonho. Não custa nada mandar todos embora e fazer um time novo no ano que vem. Preciso que acreditem de uma vez por todas que o Athletico será muito maior do que é hoje’”, disse Luisinho à Folha.

Descrito por quem o conhece como um visionário de difícil trato, o advogado gaúcho de Cruzeiro do Sul (a 120 km de Porto Alegre) e criado em Curitiba carrega tanto respeito quanto posicionamentos polêmicos.

O mais recente episódio envolve a mudança do nome oficial da Ligga Arena (assim chamada devido aos naming rights), de Joaquim Américo Magalhães para o seu, Mário Celso Petraglia. Uma reunião extraordinária no Conselho Deliberativo nesta segunda-feira (26) selará a decisão.

“Fomos pegos de surpresa e, claro, não reagimos bem. Não concordamos com a ideia de tirar a homenagem feita a um ícone da história do esporte paranaense que foi o idealizador do estádio. Meu bisavô vendeu cavalos do seu haras para criar essa estrutura”, disse Flávio Guimarães à Folha.

Magalhães foi o fundador do Internacional Foot-Ball Club, que, há cem anos, deu origem ao Club Atlético Paranaense. O estádio carrega o nome dele desde 1933.

“O presidente do conselho [Aguinaldo Coelho de Farias] já nos falou que todos estão convencidos em aprovar a ideia, eles chamaram a família para avisar. Sugeriram fazer memoriais e tentar nos homenagear de outra forma. É uma pena. No ano centenário do Athletico, apagar a história. O Petraglia merece muito uma homenagem, mas não assim”, diz Flávio.

Por se tratar de um espaço privado, o caso é diferente do projeto de lei de 2019 que visava mudar o nome do estádio Rei Pelé, em Maceió, para Rainha Marta. A ação naufragou porque áreas pertencentes à União não podem ser atribuídas a pessoas ainda em vida.

O ex-volante Cocito conta ter vivido, de fato, o surgimento do novo Athletico —pela mão e com todas as digitais de Petraglia. Chegou ao clube em 1998, vindo do Botafogo-SP, e permaneceu até 2003, em sua primeira passagem.

“De fato ele era um visionário. Primeiramente pensou na estrutura física. O que viam como custo, ele entendia ser investimento. Sempre estava insatisfeito”, relata.

“Quando voltei ao clube a convite dele, em 2017, para coordenar a base, parecia que nada estava bom. E já estava muito bom. Queria melhorar tudo: novos aparelhos de ponta para performance e escola para os garotos da base dentro do CT”.

O relacionamento entre cartola e clube se intensificou a partir de 16 de abril de 1995, quando liderou o movimento conhecido na agremiação como a “revolução de 1995”.

Incomodado com uma goleada por 5 a 1 sofrida para o arquirrival Coritiba no estadual daquele ano, além de R$ 6 milhões em dívidas, ele propôs que o então presidente Hussein Zraika renunciasse ao cargo. Assumiu o clube ao lado dos empresários Ademir Adur e Enio Fornea semanas depois.

Logo na primeira temporada, conquistou a Série B com o ataque formado por Paulo Rink e Oséas. Em 1996, foi ao mata-mata do Brasileirão. Em 1999, inaugurou o centro de treinamento do Caju, um dos mais respeitados e modernos do país, e reformou a Arena da Baixada —o apelido mais comum do estádio. Em 2000, o time disputou pela primeira vez a Libertadores.

A venda de nomes como Kleberson, Lucas, Jadson, Fernandinho, Hernani, Bruno Guimarães, Renan Lodi, Rony Léo Pereira e, recentemente, Vítor Roque, por € 74 milhões —entre valores fixos, bônus e impostos— impulsionou as receitas.

Os relacionamentos, porém, sempre foram conturbados. Adur e Fornea deixaram o clube sete anos depois da “revolução”. Petraglia disse em 2005, ano da primeira final da Libertadores, que “não havia absolutamente nada concluído” e que o projeto estava só “no meio do caminho”.

“Quando voltei de empréstimo do Grêmio, em 2004, tinha uma proposta do Sporting Braga, de Portugal. Ele falou que não, que eu ficaria para vencermos a Libertadores de 2005. Chegamos à final, faltou pouco. Após isso, me liberou”, lembra Cocito.

Petraglia foi desafeto de Eurico Miranda, antigo dirigente do Vasco. Chegou a dizer em entrevista à Fox Sports, em 2015, que quase o agrediu em uma reunião do Clube dos 13 por não lhe conceder a fala.

Por diversas vezes, disparou contra a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e foi banido do esporte em 1997 por envolvimento em um escândalo de arbitragem com Ivens Mendes, ex-presidente da extinta Conaf (Comissão Nacional de Arbitragens do Futebol), e Alberto Dualib, do Corinthians.

Na ocasião, disse à Folha que seus desafetos aproveitaram a situação para podar sua atuação no Clube dos 13. A pena foi derrubada pelo TJD (Tribunal de Justiça Desportiva) quase um ano depois.

Ficou fora da presidência somente entre 2009 e 2011, ano em que o clube foi rebaixado.

Em junho passado, Petraglia pediu afastamento por prazo indeterminado “para tratamento de saúde e por recomendação médica”, pouco depois de passar por uma cirurgia reparadora no intestino e no abdômen.

Reassumiu em outubro falando em transformar o Athletico em uma SAF (Sociedade Anônima do Futebol) como uma possível última missão à frente do clube, classificando o modelo associativo, utilizado pela maior parte dos times, como “fracassado”.

Campeão do Brasileiro (2001), da Copa do Brasil (2019) e da Sul-Americana (2021), pode ser imortalizado, também com a arena, no ano centenário do Furacão.

Folha de São Paulo

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