Saúde

Por que flertar com estranhos pode ser bom para sua relação

Em um bar lotado numa noite de sexta-feira, uma pessoa se senta sozinha e fica esperando um amigo chegar.

O garçom, observando a pessoa solitária, começa a conversar, perguntando como foi seu dia e fazendo com que ela se sinta à vontade.

Em pouco tempo, os dois começam a se dar bem, o tempo voa e a espera pelo convidado atrasado cai no esquecimento.

O garçom é charmoso e a conversa em tom de flerte do encontro casual faz a pessoa se sentir em casa. Ela está gostando da atenção –e por que não gostaria?

“Quando alguém flerta com você, você se sente valorizado e a percepção da sua capacidade de atrair o desejo do outro aumenta”, afirma a professora de psicologia Gurit Birnbaum, da Universidade Reichman, em Israel.

Em outras palavras, ser paquerado é bom. Mas pode ser bom também para quem paquera?

Birnbaum destaca que, mesmo para alguém que está em um relacionamento, flertar com outras pessoas é algo esperado. “Com o tempo, as pessoas tendem a fantasiar com outras pessoas. Isso é normal –e não significa nada de ruim sobre o relacionamento.”

No cenário do bar, o nosso garçom não sabe se a pessoa sentada à mesa já está em um relacionamento. Mas existe algo mais estranho nessa interação que surge no bar.

Embora esse tipo de interação possa estar acontecendo neste momento em algum lugar do mundo, neste caso específico, o garçom é gerado por computador e toda a interação acontece em realidade virtual. Ela ocorre em um mundo idealizado por Birnbaum.

Ao refletir sobre a ideia de que as pessoas começam a fantasiar com outras mesmo tendo relacionamentos de longo prazo, Birnbaum imaginou se as fantasias poderiam ser usadas para ajudar a regular nossos desejos mais destrutivos.

Ela se perguntou se flertar com um garçom virtual aumentaria ou não a propensão de flertar na vida real, para uma pessoa comprometida.

“Achei que este espaço seguro [a realidade virtual] poderia ajudar as pessoas a controlar os seus desejos e manter seus relacionamentos atuais”, explica ela. “Posso pensar o que quiser e estou satisfeita. E não preciso agir com base nessas fantasias.”

O garçom virtual parece um tanto estranho. Seus movimentos são rígidos e sua aparência é um tanto assustadora.

“A realidade virtual é muito mais imersiva do que se pode ver no vídeo –não fique decepcionado”, alerta Birnbaum ao me enviar uma gravação.

Com certeza, é impossível confundir o garçom com uma pessoa real. Mas a fala é realista e, após cinco minutos de interação, a conversa flui de forma bastante autêntica.

Depois de retirar os fones de ouvido, as pessoas que participavam do experimento de Birnbaum foram apresentadas a um entrevistador ou a um completo estranho, ambos atraentes. Na verdade, era um pesquisador se fazendo passar por alguém que precisava de ajuda.

Os participantes do estudo que flertaram com o garçom virtual acharam o entrevistador menos atraente e passaram menos tempo ajudando o estranho do que as pessoas que tiveram uma conversa que não tinha tom de paquera.

Para Birnbaum, é como se flertar no bar virtual tivesse vacinado as pessoas contra a tentação da vida real. E as pessoas também disseram que desejavam mais seus parceiros reais depois do flerte na interação do bar.

Birnbaum indica que flertar com estranhos quando se está em um relacionamento pode fortalecer a ligação entre os parceiros. Mas ela alerta que este pode ser um caminho perigoso.

É fundamental ter forte consciência dos limites do flerte, seus e do seu parceiro, destaca ela. E existem motivos sutis que podem levar as pessoas de um flerte inocente para a traição.

“Quando as pessoas são expostas a normas de infidelidade –por exemplo, quando você sabe que os seus colegas traem seus parceiros– você fica mais propenso a fazer o mesmo”, explica ela. Este fenômeno é chamado de “infidelidade contagiosa”.

Birnbaum destaca que existe uma “infinidade de características de personalidade” que tornam as pessoas mais resistentes ou propensas à infidelidade. Pessoas mais narcisistas ou com problemas de apego inseguro, por exemplo, são mais propensas a trair do que as demais.

“Precisamos levar em consideração muitos fatores para prever quais experiências de sedução levariam à infidelidade”, segundo Birnbaum.

Aprendendo a paquerar

Flertar com cuidado pode ser bom, mas muitas pessoas se consideram inaptas nessa prática.

Uma pesquisa entre quase 7 mil homens usuários da plataforma Reddit concluiu que não saber paquerar era a quinta razão mais comum, entre 43 mencionadas pelos homens para justificar por que estão solteiros.

Mas, felizmente para essas pessoas, talvez seja possível aprender a paquerar melhor.

Depois de três horas de treinamento, que envolveram o aprendizado de técnicas para parecer mais confiante ao falar, um grupo de participantes adultos apresentou maior extroversão e melhor habilidade para flertar.

E existem outras técnicas de flerte que também podem ser aprendidas.

A postura expansiva do corpo –como adotar uma postura mais ampla, olhar diretamente para o seu interlocutor e levantar a cabeça– aumenta o interesse amoroso de homens e mulheres. Isso talvez ocorra porque associamos a ocupação de espaço à dominância, expansividade e abertura (mas ser desagradavelmente expansivo –o chamado “manspreading”– pode indignar outras pessoas).

Este efeito pode ser verificado tanto nos encontros da vida real quanto nos aplicativos de encontros online.

Considerando que um rápido encontro ou uma passada por uma fotografia pode criar ou destruir a possibilidade de alguém ter sucesso na paquera, maximizar o espaço pode aumentar as chances de um romance bem sucedido.

A maximização do espaço não é algo que fazemos sempre de forma necessariamente consciente, afirma o professor de psicologia T. Joel Wade, da Universidade Bucknell, nos Estados Unidos. “Não é como, oh, lá está alguém bonito, vou me exibir. É apenas um comportamento natural”, explica o professor.

Esta exibição não verbal de dominância pode assumir a forma de expandir o corpo ou espalhar os pertences para mostrar conforto e pertencimento a um espaço, segundo Wade.

O flerte geralmente é um ato declarado, mas pode também ser dissimulado –ações que você não relaciona necessariamente à paquera, explica a professora de psicologia Maryanne Fisher, da Universidade St. Mary’s, no Canadá.

As pessoas paqueram principalmente com sinais não verbais, como acariciando os próprios cabelos. Esse comportamento é chamado de “autopreparação”, segundo ela. “É a ideia de me deixar mais atraente para você.”

E as diferenças das técnicas de flerte persistem independentemente da orientação sexual.

Os homens, pessoas que descrevem sua identidade como “masculina” e pessoas que adotam papéis de gênero “masculinos”, por exemplo, são mais propensos a flertar abertamente com o que dizem e fazem, independentemente da pessoa que os atraiu.

Já as mulheres, pessoas que se identificam como “femininas” e pessoas que descrevem seu papel de gênero como “feminino” são mais propensas a flertar dissimuladamente, de forma não verbal.

Se a orientação sexual não determina os estilos de paquera, as pesquisas existentes, concentradas em grande parte em papéis tradicionais de sexo e gênero, podem ser “adequadas para capturar as experiências de comportamento de flerte entre indivíduos de minorias sexuais”, escrevem Jenn Clark, da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, Flora Oswald, da Universidade Estadual da Pensilvânia, nos Estados Unidos, e Cory L. Pedersen, da Universidade Politécnica Kwantlen, no Canadá.

“Existem pesquisas que indicam que pode haver leves diferenças entre as várias orientações sexuais, mas, no geral, a tendência é que haja muita universalidade [entre o estilo de flerte e o gênero]”, concorda Wade.

Outros exemplos de flerte dissimulado são os “sinais de vínculo”. Eles podem variar desde iniciar o contato visual, abraçar e sorrir para as brincadeiras até algo mais íntimo, como compartilhar a comida –algo que normalmente não fazemos com estranhos.

Fora do contexto da paquera, assumir o sobrenome do parceiro na hora do casamento ou usar aliança seriam símbolos de vínculo com outra pessoa.

“Os sinais de vínculo, muitas vezes, são realizados na ausência do parceiro para indicar que você está comprometido”, afirma Fisher. E esses sinais podem também ser utilizados para mostrar que a outra pessoa não está disponível.

“Se você quiser indicar que seu parceiro está comprometido, a forma mais fácil é partir para a ação”, explica Fisher. “É mais fácil colocar um dos braços em volta dele do que dizer a alguém que se afaste.”

Mas, se os sinais de vínculo da paquera forem rejeitados ou não forem muito bem recebidos, estes são sinais que falam ao potencial interessado sobre o nível de compromisso do seu relacionamento amoroso atual e definem se ele tem chance ou não.

E, é claro, não demonstrar interesse exclusivo é um dos comportamentos de paquera que mais afastam as pessoas, talvez porque gostamos de ter a atenção exclusiva dos nossos parceiros.

Wade destaca que exemplos sutis de paquera podem ser úteis, já que a pessoa que pratica o flerte também pode encerrar rapidamente a interação se for preciso, negando de forma plausível qualquer interesse amoroso de sua parte.

Geralmente, os homens superestimam o interesse amoroso, talvez confundindo cordialidade com atração. Já as mulheres o subestimam, o que pode ter gerado a noção de “zona de amizade”.

“O nível do chamado falso positivo é muito diferente entre homens heterossexuais e mulheres heterossexuais”, explica Fisher.

“Sorrir, pelo menos na cultura canadense, é o padrão, certo? É uma forma de amenizar as situações e aumentar sua percepção de cordialidade. Mas os homens heterossexuais observam as mulheres sorrindo e pensam ‘oh, ela está interessada em mim’.”

Algumas empresas aproveitaram a percepção excessiva do flerte, segundo Fisher. Elas usam mulheres na linha de frente, como as recepcionistas dos restaurantes.

“Tem havido ações judiciais nos Estados Unidos, com mulheres dizendo que estão sendo assediadas porque são instruídas a sorrir e iniciar essa interação forçada, que está sendo percebida de forma sexual”, ela conta. E as mulheres são desproporcionalmente mais afetadas do que os homens.

Por isso, vale a pena perguntar: será que o garçom virtual estava realmente interessado na pessoa sentada sozinha ou estava apenas fazendo seu trabalho?

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Future

Este texto foi publicado aqui

Informação

Folha de São Paulo

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