Saúde

Por que tenho tanto assunto para uma coluna sobre alcoolismo

Quando essa coluna ia fazer um ano, decidi criar um espaço, o Papo de Alcoólatra, em que entrevistaria outros dependentes em recuperação. Pensei no Ruy Castro e em nomes como Nando Reis, Barbara Gancia e Casagrande. O projeto não foi adiante porque tive meu surto na viagem em que também comemoraria o aniversário da coluna. O episódio retardou muitas decisões. Foi preciso aceitar que minha vida tinha tomado outro rumo.

Há pouco, resgatei minhas conversas e, em um papo, Ruy Castro me perguntou como eu tinha tanto assunto para esse espaço. Apenas sorri. Aqui trato dos assuntos que me afligem enquanto alcoólatra e de tudo o que a recuperação trouxe para minha vida. Encarar a vida sóbria é maravilhoso, mas também muito desafiador. Conto como enfrento os obstáculos e o que aprendi nesta jornada, apoiada pelos Alcoólicos Anônimos.

Assunto é que não falta. Há meses, li que chegaram à conclusão de que não existe dose segura para beber. Qualquer quantidade é prejudicial ao organismo. Papo chato para quem gosta de uma bebidinha uma vez ou outra.

Mas aqui falo daqueles que exageram, que sofrem de alcoolismo e para quem um gole nunca basta. Lembro que, na ativa, ficava segurando um copo e o virava em minutos. Isso é doença, é insaciedade. Movimentos como Janeiro Seco e Sóbrio Curioso ajudam aqueles que exageram, mas, no meu caso, não houve meio-termo nem curiosidade em ficar sóbria, e sim necessidade. As atrocidades que cometi só foram brecadas depois das internações e do meu ingresso em AA.

Não foi só o Ruy Castro que questionou quanto assunto eu teria, mas também os editores do jornal. Minha resposta é uma só: vivo 24 horas por vez. Cada obstáculo mais aflitivo, como frustração, falta de dinheiro ou medo, só é vencido sem o álcool por causa do AA, da minha boa vontade e de escrever aqui. Cada texto é um depoimento sobre como consigo não sucumbir ao primeiro gole.

Agora são nove horas da manhã. Se estivesse na ativa, já teria consumido uma latinha de cerveja para acalmar os ânimos. A primeira dose me dava tranquilidade, mas o efeito logo passava. Então, o que eu fiz? Bebia mais. Eu me entorpecia e levava a vida aos trancos e barrancos.

Não tenho uma fórmula de como me livrei do álcool, mas viver sem ele é um desafio constante. Justamente por isso tenho tanto assunto. Se algo mexe com meu emocional, como faço para enfrentá-lo em sobriedade? A primeira coisa que me vem à cabeça é que não adianta beber. Eu não posso, é uma doença. Encarar todos os desafios da vida em abstinência é um processo que não veio da noite para o dia, e sim com o tempo.

Eu falei para o Ruy e para os demais que esta coluna também é uma forma de ajudar quem teve a vida interrompida pela bebida. Em menos de duas semanas, perdi dois companheiros de sala que se afastaram e, fatalmente, tiveram a vida interrompida pela doença.

É triste. Poderia ser comigo. Mas eu sigo forte, talvez pelos encontros dos Alcoólicos Anônimos, talvez por esta coluna, que não me deixa tirar a esperança de quem quer parar de beber. Minhas experiências podem ajudar os que ainda não se livraram do álcool. Enquanto eu puder, estarei aqui para ajudar e ser ajudada nesta longa e perigosa vida longe da bebida.


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Informação

Folha de São Paulo

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