Saúde

Psicólogos atuam em abrigos e lidam com traumas de vítimas de inundações no RS

Bárbara Paulon Puerari, 29, é uma das psicólogas que atendem população abrigada na escola Rainha do Brasil, em Porto Alegre (RS). Especializada no atendimento de crianças e adolescentes, a profissional se viu desafiada diante da catástrofe vivida no Rio Grande do Sul, e, assim, passou a ser voluntária. Longe do consultório, aprende na prática que o atendimento em situações como essa exige rapidez.

Entender as demandas de cada vítima, enquanto se oferece acolhimento humanizado que respeite as particularidades, se tornou matéria urgente.

“No meu primeiro dia de trabalho eu estava em outro abrigo. Lá eu vivi duas situações que me marcaram. A de uma criança que me pediu para ajudar a sua mãe que não tinha ficado feliz por andar de barco. E de um pai e seu filho me disseram que não conseguiam esquecer do som dos corpos que batiam no barco que os levava para uma área segura”, conta Puerari.

“Nisso eu me dei conta que a situação exigiria de mim um pensamento rápido. Em clínica, a gente tá ali sentada, ouvindo e anotando, para depois ir pra casa e analisar tudo. Não que aqui eu não faça isso, mas a urgência torna tudo muito mais acelerado.”

As chuvas no Rio Grande do Sul atingiram 1,9 milhão de pessoas no estado, deixando mais de 300 mil desalojados e 116 mortos. Escolas e universidades se transformaram em abrigos para alojar o grande número de pessoas que foram obrigadas a deixar suas casas.

Puerari explica que um dos muitos desafios no atendimento às vítimas desse evento climático extremo é fazer com elas superem os medos. “Eles estão com medo de dormir e acordar embaixo d’água. Já recebi ligações durante à noite para correr para o abrigo e atender pessoas que não conseguiam dormir, como o caso de uma senhora que ficava andando pelo ginásio, com medo”, conta.

“Eles esquecem quem são eles em algum momento. O que eles falam muito é ‘eu perdi minhas memórias’, porque não ficou só a casa objeto. Embaixo d’água ficou foto, documento, o registro do teste do pezinho da criança, a certidão de nascimento. Eles estão sentindo falta dessa parte também.”

A psicóloga Terezinha Laggazio faz parte do grupo de voluntários que deram o pontapé inicial na abertura do abrigo no colégio estadual Júlio de Castilhos, que teve início no último fim de semana, também em Porto Alegre. “A gente chegou aqui só com a chave da escola na mão. E começamos a pedir doações e as pessoas ajudaram”, diz ela.

Com a estrutura ganhando forma, o abrigo passou a construir uma rede de profissionais de saúde para atender os abrigados. Para os cuidados com a saúde mental, o local conta com seis a oito psicólogos voluntários disponíveis diariamente para fazer o acolhimento destas pessoas.

“O que fazemos inicialmente é perguntar para eles coisas básicas na triagem, como nome, cidade, se estão feridos, se tomam alguma medicação controlada. Enfim, tentamos entender, mesmo com toda limitação que temos, o que eles precisam para viver bem na escola. O primeiro de tudo é o acolhimento, para que eles possam depois olhar para as suas feridas. Uma vez acolhidos, ajudamos com as demandas que vem depois como choro, falta de sono, retraimento, falta de apetite, e outros tantos sintomas”, conta Laggazio.

Na Júlio de Castilhos, os abrigados podem levar seus pets. O que, para Laggazio, é um jeito de garantir o bem-estar das pessoas que perderam tudo o que tinham. Para isso, foi criado no abrigo um espaço para que os animais possam ficar.

“É fundamental esse animal ali. Talvez ele seja tudo o que restou para a pessoa. Este pet não é terapia, é terapêutico. O animalzinho faz toda a diferença”, explica.

O abrigo agora busca outras frentes de atuação terapêutica, como eventos culturais e promoção de atividades físicas, e busca voluntários para isso. No entendimento das psicólogas do local, proporcionar um ambiente acolhedor e saudável para as pessoas também é proteção à saúde mental.

“Elas vêm de um desastre. Chegar num lugar desorganizado, insalubre, que não tem nenhuma proteção de vida também, só agravaria mais o caso de saúde mental. Organizar um ambiente vivo com propostas de acolhimento, de produção, de vida, de cultura, é essencial para a mudança e bem-estar de todos”, afirmou uma das psicólogas, que preferiu não se identificar.

Informação

Folha de São Paulo

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