Esporte

Público que for aos Jogos Olímpicos encontrará Paris transformada

No metrô lotado em plena manhã de sábado em Paris, uma passageira irritada desabafa: “Imagine aux JO”. “JO” (pronuncia-se “giô”) é como os franceses chamam os Jogos Olímpicos, que serão oficialmente abertos no dia 26 de julho. Esse “imagina nos Jogos” é a versão local do clássico “imagina na Copa” repetido à exaustão pelos brasileiros dez anos atrás.

Notórios pelo mau humor, os parisienses encaram a proximidade dos Jogos com um misto de orgulho e terror. Segundo pesquisa feita no mês passado pela Ipsos, 47% dos moradores pretendem fugir da cidade durante o evento.

Entre os transtornos mais temidos está o QR Code necessário para circular nas zonas restritas, como no auge dos “lockdowns” da Covid-19. O governo promete colocar trens extras nos horários de pico. Por via das dúvidas, lançou o site “Anticiper les Jeux” (“Antecipar os Jogos”), onde a população pode se programar para fugir dos engarrafamentos.

Quem for aos Jogos Olímpicos e Paralímpicos vai encontrar uma cidade transformada. Linhas de metrô novas e mais modernas, mais acessibilidade, novas áreas verdes e centenas de quilômetros de ciclovias aguardam os 15 milhões de visitantes previstos para o período de competição.

“Não transformamos a cidade apenas para organizar uma competição. Pensamos no pós-Olimpíada. Estamos ansiosos para acolher os turistas estrangeiros, para mostrar a eles esse conceito de transformar Paris e região em uma grande praça de esportes. É, de certa forma, a assinatura destes Jogos”, disse à Folha Tony Estanguet, presidente do Comitê Organizador de Paris-2024.

Desde o dossiê de candidatura, um dos trunfos de Paris foi o plano de usar os Jogos como vitrine para os monumentos mundialmente conhecidos da cidade: vôlei de praia aos pés da torre Eiffel; skate na praça de La Concorde; equitação em Versalhes.

Essas estruturas, hoje em construção, serão provisórias, mas outros legados serão permanentes. Haverá sete hectares de novos espaços verdes. A Vila Olímpica ocupa uma antiga área degradada à beira do rio Sena, transformada em um bairro moderno e arborizado, com 2.800 novas residências e, segundo os construtores, exatas 8.876 árvores e arbustos.

Uma das transformações mais evidentes, para o estrangeiro, será o prolongamento de uma linha de trem, duas de metrô e quatro de bonde. A linha 14 do metrô, já em operação, atravessa a cidade no eixo norte-sul, ligando diretamente Orly, segundo maior aeroporto internacional de Paris (onde pousam voos da Azul procedentes de Viracopos), ao Stade de France, principal estádio dos Jogos. Linhas antigas foram totalmente renovadas e automatizadas, como a 4, que interliga diversas estações de trem da cidade.

Será possível chegar de bicicleta a qualquer local de competição. Serão 415 quilômetros de ciclovias, que custaram quase 30 milhões de euros (cerca de R$ 165 milhões). Mais de 2.000 bicicletas elétricas serão disponibilizadas. A prioridade ao pedal é um orgulho parisiense: nesta semana, a prefeita Anne Hidalgo anunciou que pela primeira vez a bicicleta suplantou o carro como meio de transporte mais usado na capital.

Com promessa de temperaturas altas, o governo promete distribuir água gratuitamente por toda a cidade. No verão de 2022, os termômetros atingiram 40 graus em Paris.

Vários monumentos foram reformados. O vetusto Grand Palais, perto dos Champs-Elysées, um dos museus mais conhecidos de Paris por sua cúpula de vidro, passou por três anos de obra. Depois de abrigar as competições de esgrima e taekwondo, será reaberto ao público inteiramente renovado.

Outro grande monumento, porém, não ficará pronto a tempo dos Jogos. A reinauguração da catedral de Notre-Dame, cinco anos depois de um incêndio que quase a destruiu completamente, está marcada para 8 de dezembro, dia da Imaculada Conceição. Porém será possível ver por fora a igreja em seu esplendor, inclusive com a recém-instalada agulha de 96 metros de altura.

Outra dúvida está relacionada à despoluição do rio Sena. O plano inicial era que a população pudesse tomar banho no rio já neste verão, algo proibido há um século devido à má qualidade da água. Mas o trabalho de despoluição ainda não deu o resultado esperado. A ministra dos Esportes, Amélie Oudéa-Castéra, já fala em 2025 como prazo para a liberação do banho de rio.

Passagem cara

Um ponto que certamente vai desagradar muitos turistas estrangeiros nos Jogos é o preço das passagens de metrô. A presidente do Conselho Regional da região parisiense (uma espécie de governadora de estado), Valérie Pécresse, decidiu quase duplicar o preço do bilhete unitário, de 2,15 euros para 4 euros (de R$ 12 para R$ 22, aproximadamente), apenas durante o período dos Jogos.

É possível driblar o aumento de duas formas: pedindo a algum conhecido em Paris que carregue um cartão magnético antes dos Jogos, ao preço antigo; ou comprar um passe semanal de 70 euros (R$ 380), que permite viagens ilimitadas, mas só vale a pena se o turista faz pelo menos quatro trajetos diários.

A Folha questionou Pécresse sobre o valor elevado da passagem. “Para os turistas, brasileiros ou não, francamente, não há dúvida: a racionalidade manda comprar o passe. O preço é regressivo, muito mais prático, inclui o acesso ao aeroporto e ainda pode ser comprado online”, respondeu ela.

Segundo Pécresse, o objetivo do preço, que ela mesma define como “proibitivo”, é desestimular filas nos guichês durante os Jogos. Os críticos apontam que em outros grandes eventos, como a Copa do Mundo do Qatar em 2022, o transporte público era gratuito para os detentores de ingressos.


Folha Esporte

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