Quando a esquerda não radicaliza, fica mais fácil para a extrema direita conquistar apoio popular, diz Valter Pomar

A recente ascensão em todo o planeta da extrema direita, além de lembrar o clima que antecedeu a Segunda Guerra Mundial, é resultado majoritariamente de um esforço capitalista para manterem o poder. Essa é a opinião de Valter Pomar, acadêmico e dirigente do Partido dos Trabalhadores.
Participante da conferência Saída Pela Esquerda, ocorrida em maio e organizada pela Fundação Rosa Luxemburgo, ele conversou com o Brasil de Fato. Apesar de ser obra maior do sistema econômico liberal, a esquerda tem certa responsabilidade no avanço da ultradireita, segundo ele.
“O crescimento da extrema direita decorre da acomodação de uma parte da esquerda, aquela que não percebe que, em tempos de crise e guerra, é preciso mudar a chave, é preciso radicalizar”, afirma à reportagem.
Além do diagnóstico, Pomar aposta na saída política, na esperança para vencer a eleição presidencial de outubro próximo. “Numa batalha existencial, o mais importante não é o que passou, é o que virá”, afirma. Leia a entrevista completa abaixo:
Brasil de Fato: Como você vê o avanço da extrema direita no mundo? Quais as causas desse fenômeno?
Valter Pomar: Dias 8 e 9 de maio comemoramos a vitória contra o nazifascismo na Segunda Guerra. Foi o desfecho de uma crise de 30 anos, iniciada em 1914. Aquela crise tem várias semelhanças com a crise atual, e uma destas semelhanças é a presença da extrema-direita.
O crescimento da extrema direita decorre, em primeiro, segundo e terceiro lugar, do esforço que os capitalistas fazem para manter o poder em uma situação de crise. Em quarto lugar, o crescimento da extrema direita decorre da acomodação de uma parte da esquerda, aquela que não percebe que, em tempos de crise e guerra, é preciso mudar a chave, é preciso radicalizar.
Onde a esquerda não faz isso, a extrema direita tem mais facilidade para conquistar o apoio de setores populares.
Há lições que o campo progressista pode aprender com o sucesso conseguido pela direita?
Eu não acho que a direita esteja em condições de nos dar lições. Não tenho por que aceitar lições de genocidas. Prefiro aprender lições com a esquerda que veio antes de nós.
Uma delas é que a esquerda ganha quando se apresenta como esquerda. Esta mania de falar em “campo progressista” traz consigo o rebaixamento do programa e a moderação, o que, na atual conjuntura, é meio caminho andado para uma derrota.
Há exemplos internacionais bem-sucedidos de enfrentamento da direita que podem servir de modelo?
Há. Aqui na América Latina, nós já derrotamos a direita várias vezes. Não ganhamos todas, mas quem é que consegue ganhar todas?
Mas é preciso sempre tomar cuidado com “exemplos” internacionais. Como vimos nos últimos meses, nem tudo é como parece ser.
Por que o governo Lula apresenta bons resultados, mas vem derrapando em termos de popularidade?
Em parte, o problema está no que entendemos por “bons resultados”. Estamos numa luta política existencial, na qual “bom resultado” é aquilo que anima nosso povo e desanima a classe dominante.
Por exemplo: desde 2016 até 2022, foram 7 anos de situação econômica e social muito ruim. Aliás, a coisa começou a piorar bastante já em 2015, quando nosso governo, erradamente, adotou uma política econômica ortodoxa.
Mais de sete anos piorando, menos de quatro anos melhorando: quem disse que a melhora estatística apaga o sofrimento passado? Além disso, numa batalha existencial, o mais importante não é o que passou, é o que virá.
E aí está o problema principal, na minha opinião: focamos demais na reconstrução e deixamos de lado a transformação. Quem pagou o pato? O futuro.
Sem futuro, sem esperança, não há como derrotar a extrema-direita . A turma do medo é a deles; a nossa é a turma da esperança.
Qual o papel que a economia — pensando num segundo semestre em que vão ainda ser sentidos os efeitos da crise no Oriente Médio — deve desempenhar no pleito?
Por conta do Marco Fiscal, do Banco Central, da sabotagem da classe dominante e da guerra, a economia vai nos atrapalhar mais do que nos ajudar. O que vai nos fazer vencer é a política.



