Quando uma alergia pode ser fatal? Saiba como evitar riscos

Lucas Cerqueira, 27, lembra com pesar da viagem dos sonhos que fez junto com o marido, Erivelton Gomes, em maio. “Era um momento de felicidade para a gente. Era a primeira vez dele na praia”, diz.
O casal, que morava em Várzea Grande (MT), viajou para Alagoas para descansar, após dias intensos de trabalho no salão de cabeleireiro que haviam aberto juntos. No quinto dia da viagem, Gomes, que tinha 34 anos, quis experimentar siri e caranguejo. “Desde o primeiro dia em que a gente foi na praia, ele queria provar, mas tinha receio”, conta Cerqueira.
O receio de Gomes tinha um motivo: ele sabia que era alérgico a camarão. Anos antes, ele já havia tido uma reação alérgica ao alimento, o que acendeu um alerta sobre possível reação semelhante com outros frutos do mar. “Mas nesse dia, ele criou coragem e resolveu arriscar.”
Logo após comer os crustáceos, Gomes levantou incomodado e foi ao chuveiro da praia. “Ele voltou reclamando que o ouvido estava coçando, mas achou que fosse alguma reação normal, uma coceirinha leve”, diz Cerqueira.
A situação logo piorou e Gomes teve dificuldades para respirar. “Ele começou a ficar roxo e a gente se desesperou e foi atrás de socorro. Foi tudo muito rápido, cerca de dez minutos entre ele comer e começar a passar muito mal”, diz Cerqueira.
Gomes foi resgatado por uma ambulância e seguiu para um hospital da região. O marido dele estima que Gomes morreu menos de uma hora após comer os crustáceos. “Foi desesperador. Nunca imaginei que uma alergia pudesse ser daquela forma”, afirma Cerqueira.
O caso de Gomes não foi a única reação fatal a uma alergia neste ano. De janeiro a junho foram 40 mortes por essa causa no país, segundo o Ministério da Saúde. De 2022 para cá, já foram 499 óbitos ao todo, conforme a pasta.
Os atendimentos no SUS relacionados a alergias têm aumentado. Em 2022 foram 30,9 milhões, enquanto no ano passado foram 44,5 milhões. Os números crescem a cada ano e só na primeira metade de 2026 já foram registrados 24 milhões.
A OMS aponta que atualmente cerca de 30% da população mundial tem algum tipo de alergia. A entidade estima que os casos vão aumentar cada vez mais e devem atingir 50% da população até 2050.
“Nos últimos anos, a ciência tem documentado um aumento do número de pessoas com alergias. Isso tem a ver com mudanças do estilo de vida, estresse, poluição, enfim, fatores que funcionam como gatilhos que podem desregular o sistema imunológico”, afirma a alergista e imunologista Marina Takao, do Hospital das Clínicas da Unicamp.
Como surge uma alergia
A alergia é uma reação exagerada do sistema imunológico a substâncias consideradas inofensivas, como alimentos, ácaros, pelos de animais ou remédios. Os sintomas podem ser desde vermelhidão no corpo a quadros mais graves, que demandam atendimento médico imediato.
“Há pessoas que vêm geneticamente predispostas a um determinado tipo de alergia”, diz a alergista e imunologista Chayanne Andrade, do Departamento Científico de Anafilaxia da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai).
Esse problema pode surgir na infância ou aparecer somente na vida adulta, dizem especialistas. “É possível desenvolver alergias em qualquer momento da vida. Há uma série de fatores, como por exemplo, o estilo de vida, exposição ambiental e predisposição genética”, afirma Andrade.
A descoberta de uma alergia ocorre principalmente quando a pessoa se expõe àquilo que faz mal. “É preciso haver um histórico sugestivo. Muita gente pensa que vai descobrir qualquer tipo de alergia se fizer uma série de exames. Mas não é bem assim. Geralmente, a pessoa tem algum episódio e a partir disso existe a investigação”, explica Chayanne.
Os exames para investigar possíveis alergias vão desde coleta de sangue a teste cutâneo. Há também um teste de provocação oral supervisionado, considerado o melhor método para diagnóstico.
“Nesse teste de provocação, o alérgeno é administrado em doses progressivas em ambiente hospitalar equipado, confirmando ou descartando em definitivo a hipersensibilidade”, explica a alergista e imunologista Flavia Anísio, do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz).
Os casos mais recorrentes de alergia, segundo especialistas, estão relacionados à rinite, que provoca nariz entupido e dificuldade para respirar; à asma, que causa falta de ar; à dermatite atópica, doença inflamatória da pele que causa ressecamento e vermelhidão; e à urticária, que provoca irritação na pele, com lesões avermelhadas e coceira.
As alergias alimentares também são comuns. De acordo com os estudos, leite de vaca, ovos, amendoim, castanhas ou nozes, trigo, soja, peixes, crustáceos e gergelim são responsáveis por mais de 90% das reações causadas por alimentos. Além dessas, há também as alergias a picadas de insetos ou a medicamentos.
O tipo mais grave de alergia
Os riscos da alergia, segundo especialistas, variam conforme a reação que o organismo apresenta. A maioria das reações é leve ou moderada e costuma evoluir bem quando a causa do problema é evitada.
Já as reações graves e imediatas, como no caso de Gomes, são chamadas de anafilaxia. Entre as principais causas desse quadro estão alimentos, medicamentos e venenos de insetos. Nesses casos, múltiplos sistemas do corpo são afetados e pode evoluir para a morte.
Para evitar um quadro desses, a recomendação básica é não consumir o que pode causar a reação. “Costumo dizer que o melhor tratamento para alergia é não ter contato com o alérgeno”, diz Andrade. “Muita gente pensa que só um pouquinho não vai fazer mal. Mas é a memória imunológica que vai reconhecer aquele alimento. Então, tanto faz ser um pouquinho ou muito. É necessário evitar completamente a causa da alergia.”
Na anafilaxia, ocorre a liberação descontrolada de mediadores inflamatórios, o que pode provocar estreitamento das vias aéreas, inchaço da laringe, queda brusca da pressão arterial e choque. “Sem a administração imediata de adrenalina, a obstrução respiratória pode se instalar em minutos e levar ao óbito”, afirma Anísio.
Essa adrenalina é a principal forma de contornar um quadro grave. Ela pode ser usada por meio de uma caneta, que pressionada contra a coxa libera uma dose de adrenalina sintética que interrompe a crise. O ideal, segundo os médicos, é que todo paciente alérgico sempre ande com o remédio.
No entanto, o medicamento não é produzido no país, por isso precisa ser importado. Os custos, dizem os médicos, chegam a R$ 2 mil a cada duas canetas –a orientação é sempre que o paciente tenha mais de uma. No SUS, a adrenalina é disponibilizada para atendimento de emergência, na forma de solução injetável em ampola, aplicada por profissionais de saúde.
No Brasil, estimativas epidemiológicas apontam que a anafilaxia é responsável por até 0,26% do total de internações clínicas gerais na rede hospitalar. Mas especialistas afirmam que há muitos casos que não são notificados. “O diagnóstico precoce e o acesso democrático a médicos especialistas representam os pilares fundamentais para mitigar desfechos fatais”, diz Anísio.
Como evitar riscos
Os especialistas orientam que as pessoas com alergia alimentar criem o hábito de sempre ler os rótulos dos produtos, mesmo quando já conhecem determinado alimento. “Às vezes, a composição pode ser alterada pelo fabricante”, diz Andrade.
Os cuidados também devem ser redobrados em refeições fora de casa para evitar a chamada contaminação cruzada, que ocorre quando microrganismos nocivos, como bactérias e vírus, são transferidos de alimentos crus ou de superfícies contaminadas para a comida.
Nesses casos, é importante informar à equipe do estabelecimento sobre a alergia e perguntar sobre o preparo da comida. Quem tem alergia a peixe, por exemplo, deve verificar se os alimentos feitos no estabelecimento compartilham do mesmo óleo, se talheres ou outros utensílios foram higienizados corretamente e se há separação adequada no preparo.
Quando houver dúvidas sobre algo que pode causar alergia, a melhor alternativa é não consumir.
Informação
Folha de São Paulo



