Quanto capital pode entrar na Bolsa se rali continuar? Morgan vê até R$ 945 bi

Depois da forte disparada da Bolsa brasileira após o primeiro turno das eleições, uma das principais questões para a continuidade do rali passa a ser de onde virá o dinheiro capaz de sustentar uma nova etapa da valorização.
Nas contas do Morgan Stanley, o potencial é significativo, estimando que apenas uma retomada da alocação dos fundos locais em ações poderia direcionar R$ 176 bilhões, R$ 615 bilhões ou até R$ 945 bilhões para a renda variável brasileira, dependendo de quanto a participação das ações no patrimônio da indústria volte a crescer.
O Itaú BBA, por sua vez, chega a R$ 270,2 bilhões de entrada potencial ao combinar estrangeiros e investidores brasileiros em um cenário no qual ambos simplesmente retornem às suas alocações médias históricas.

As duas análises partem de metodologias diferentes e, portanto, seus números não são diretamente comparáveis. Mas ambas chegam à conclusão de que, depois de um primeiro movimento puxado fortemente pela reprecificação dos ativos, a próxima perna do rali pode ganhar combustível da recomposição das carteiras, principalmente se a queda dos juros reduzir a atratividade relativa da renda fixa.
Para o Morgan Stanley, essa migração faz parte do que a instituição chama de “Great Rebalancing”, um processo de vários anos de transferência de capital da dívida para ações e investimentos, cuja condição central é a consolidação fiscal. Apesar da alta de aproximadamente 13% das ações brasileiras no pregão analisado, o banco ainda vê potencial de 15% a 20% ou mais até o fim de 2026 e espaço adicional em direção ao seu cenário mais otimista de 250 mil pontos para o Ibovespa.
Até R$ 945 bilhões só de dinheiro local
O grande reservatório de recursos identificado pelo Morgan Stanley está dentro do próprio Brasil. Os fundos de ações representam atualmente apenas 6% do patrimônio total da indústria, segundo a análise. Essa participação já atingiu 15% em 2007 e 12% em 2009.
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É a partir desses níveis que o banco monta três cenários para uma eventual volta do investidor local:
- Participação sobe para 8%: entrada potencial de R$ 176 bilhões.
- Participação sobe para 12%: entrada potencial de R$ 615 bilhões.
- Participação retorna a 15%: entrada potencial de R$ 945 bilhões.
No cenário extremo de 15%, o volume representaria aproximadamente 25% da capitalização do MSCI Brazil e 38% de seu free float, segundo a análise.
A tese é que os juros elevados afastaram o investidor doméstico da renda variável e, com uma eventual normalização das taxas reais e redução da vantagem relativa da renda fixa, uma parcela desse capital poderia retornar a ativos de risco.
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O posicionamento local é descrito pelo banco como especialmente baixo. Em outra medida apresentada no relatório, a alocação local em ações aparece em cerca de 5%, pouco acima da mínima histórica de 4,6%, contra média histórica de 8,5% e máximo de 15%.
O fluxo potencial não termina no investidor brasileiro já que, na análise mais ampla de demanda, o Morgan Stanley estima que o mercado brasileiro tenha aproximadamente US$ 500 bilhões de free float e vê possibilidade de demanda adicional de US$ 30 bilhões a US$ 40 bilhões de investidores locais, US$ 10 bilhões a US$ 20 bilhões de gestores de emergentes e US$ 30 bilhões a US$ 40 bilhões de fundos globais.
Em sua análise de sensibilidade, a instituição detalha diversos cenários para cada grupo. Entre os fundos globais de mercados emergentes, por exemplo, uma posição de 3 pontos percentuais acima do benchmark, levando o peso total do Brasil a 6,9%, representaria aproximadamente US$ 49,2 bilhões de alocação adicional diante da referência atual usada no estudo. Com 2,5 pontos de overweight (exposição acima da média do mercado, equivalente à compra), seriam US$ 29,2 bilhões; com 2 pontos, US$ 9,1 bilhões.
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Entre fundos globais, uma posição de 5 pontos percentuais acima do benchmark, equivalente a peso total do Brasil de 0,96%, corresponderia a US$ 105,4 bilhões adicionais ante a referência utilizada. Com 4 pontos, seriam US$ 85,8 bilhões; com 3 pontos, US$ 66,2 bilhões; com 2 pontos, US$ 46,6 bilhões; e com 1 ponto, US$ 27 bilhões.
Vale ressaltar que o posicionamento estrangeiro já é muito mais elevado que o doméstico. Assim, o Morgan Stanley afirma que o Brasil está simultaneamente muito comprado pelos gestores de emergentes e pouco comprado pelos investidores locais. Entre os gestores GEM (de mercados emergentes globais), a posição brasileira está na parte superior da faixa observada nos últimos 20 anos. Por isso, o potencial de recomposição doméstica é particularmente relevante.
BBA vê R$ 270 bilhões de fluxo adicional
O Itaú BBA, por sua vez, calcula R$ 270,2 bilhões de fluxo adicional caso estrangeiros e investidores locais simplesmente retornem às suas médias históricas de exposição à Bolsa.
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Dos recursos, R$ 123,1 bilhões poderiam vir dos estrangeiros, caso o peso brasileiro no MSCI Emerging Markets subisse dos atuais 4,03% para sua média histórica de 5,58%. Pelos cálculos do BBA, cada ponto percentual adicional no peso do Brasil corresponderia a cerca de R$ 79,3 bilhões.
Outros R$ 147,1 bilhões poderiam vir dos investidores domésticos caso os fundos de ações passassem dos atuais 7,6% do patrimônio da indústria para a média histórica de 8,9%. Cada ponto percentual a mais de alocação equivaleria a aproximadamente R$ 113,2 bilhões.
Em seu cenário extremo, no qual a participação local retornaria à máxima histórica de 13,1%, o BBA estima R$ 622,4 bilhões de fluxo doméstico potencial, embora ressalte que essa migração dependeria de taxas nominais inferiores a 12%.
A diferença entre as estimativas do BBA e do Morgan Stanley reflete bases, premissas e níveis de alocação distintos. Assim, R$ 270 bilhões, R$ 622 bilhões e R$ 945 bilhões devem ser entendidos como cenários diferentes, e não previsões concorrentes para um mesmo fluxo.
Quais ações poderiam receber mais capital?
Se o dinheiro local voltar, ele não necessariamente se distribuirá igualmente pela Bolsa. O Morgan Stanley simula um cenário em que um investidor doméstico replica o Ibovespa e destaca que cerca de 90% do índice local é composto por ações que também fazem parte do MSCI Brazil. A diferença relevante está na composição setorial: utilities representam 15% do Ibovespa, contra 11% do MSCI Brazil, enquanto bancos e financeiras chegam a quase 40% do índice internacional e 27% do Ibovespa.
Quando o banco mede o fluxo potencial em relação à liquidez diária de cada papel, aparecem alguns nomes capazes de sentir de maneira mais relevante uma eventual migração.
Entre as ações com recomendação overweight (exposição acima da média, equivalente à compra) do Morgan Stanley, os destaques são Smart Fit (SMFT3), Vibra (VBBR3) e BTG Pactual (BPAC11), com fluxo mensal potencial equivalente a aproximadamente 0,50, 0,44 e 0,43 dia de volume médio negociado, respectivamente.
Também aparecem Equatorial (EQTL3), Energisa (ENGI11) e B3 (B3SA3), todas ao redor de 0,42 a 0,43 dia de volume, e Sabesp (SBSP3), com 0,40 dia.
Quatro ações que ainda não acompanharam o rali
Embora veja espaço para entrada de dinheiro, o BBA considera que uma parcela relevante da melhora fiscal já entrou nos preços. Por isso, o banco procura ações de qualidade que não acompanharam plenamente a primeira perna da alta.
Financeiras responderam por 48,1% dos pontos ganhos pelo Ibovespa no movimento analisado pelo BBA; utilities responderam por outros 20% e energia, por 13,8%. Juntos, os três blocos explicaram cerca de 82% do avanço.
Itaú (ITUB4), B3 (B3SA3), Petrobras (PETR4), BTG Pactual (BPAC11) e Bradesco (BBDC4), sozinhos, responderam por 46% dos pontos conquistados pelo índice.
Nesse contexto, o BBA destaca Equatorial (EQTL3), Rede D’Or (RDOR3), Localiza (RENT3) e Sabesp (SBSP3) entre as ações domésticas de qualidade que ficaram atrás do Ibovespa e fazem parte de sua carteira recomendada.
A Rede D’Or (RDOR3) apresenta a maior defasagem: ficou 19,3 pontos percentuais atrás do Ibovespa no ano, enquanto seu P/L negocia com desconto de 20,9% em relação ao histórico. O ROE médio estimado pelo BBA para 2026 a 2028 é de 24,5%.
A Localiza (RENT3) ficou 9,1 pontos atrás do índice e apresenta desconto de 14,1% em seu múltiplo histórico, além de ROE médio projetado de 16,9%.
Sabesp (SBSP3) e Equatorial (EQTL3) ficaram, respectivamente, 9,7 e 4,5 pontos percentuais atrás do Ibovespa.
A combinação é particularmente interessante em Equatorial e Sabesp, porque as duas aparecem tanto na lista de ações atrasadas do BBA quanto entre os papéis overweight do Morgan Stanley potencialmente beneficiados pelos fluxos domésticos.
Morgan prefere financeiras
O Morgan Stanley também considera serviços financeiros um dos melhores veículos para capturar o rebalanceamento brasileiro e reforçou posições em B3 (B3SA3), XP e BTG Pactual (BPAC11), além de aumentar Nubank e incluir Vamos (VAMO3) em sua carteira.
A lógica é que a migração da renda fixa para ações beneficia diretamente gestoras, plataformas de investimento e a própria infraestrutura do mercado de capitais. O banco prefere ações que possam capturar juros menores também nos resultados operacionais, em vez de empresas muito alavancadas que apenas tenham seus valuations favorecidos por uma redução das taxas.
Para uma mudança estrutural da economia de consumo para investimento, o banco também relaciona Nubank (ROXO34), XP (XPBR31), BTG, B3, Petrobras (PETR4), Banco do Brasil (BBAS3), Axia Energia (AXIA3), Equatorial (EQTL3), Energisa (ENGI11), Rumo (RAIL3), Cyrela (CYRE3), Motiva (MOTV3), Vibra (VBBR3) e Vivara (VIVA3), entre outros nomes.
O fluxo depende dos juros e do fiscal
Os números elevados dos cenários de entrada de recursos não significam que o dinheiro necessariamente chegará à Bolsa, conforme destaca a tese do Morgan Stanley. O elemento essencial continua sendo a consolidação fiscal, necessária para sustentar um custo de capital menor. A casa considera que juros mais baixos poderiam promover simultaneamente expansão de múltiplos e migração de recursos da renda fixa para ações.
Os estrategistas do banco lembram a experiência da Colômbia, onde a expectativa de mudança política inicialmente provocou uma forte compressão do custo da dívida, mas parte do prêmio voltou posteriormente diante das dúvidas sobre a efetiva execução do ajuste fiscal.
A lógica para o Brasil é semelhante: a melhora das expectativas abre a porta para o fluxo, mas um plano fiscal crível será necessário para manter o movimento.
Infomoney



