Esporte

Que tipo de corredor você é?

“O quão rápido você precisa correr para se classificar por tempo para a maratona de Londres?” Vi a manchete em um site de corrida e fui ler.

Organizadores atualizaram os tempos de corte por faixa etária e sexo para quem vai tentar vaga em uma das provas mais desejadas do planeta. Para 2025, homens entre 18 e 39 anos precisam ter corrido uma maratona em 2h55m, cinco minutos menos que antes, o que significa estar muitíssimo bem treinado. Mulheres nessa faixa etária, em 3h40m; antes era em 3h45m. Nem assim é garantido. São 6.000 lugares. Os mais velozes levam.

O diretor da prova explicou que os “super tênis” estão fazendo a diferença. Quenianos dominam as maratonas. Graças à tecnologia, nós, mortais, também estamos mais rápidos.

Então, se eu não comprar o tênis de placa de última geração, o suplemento do momento, vou ficar para trás? Um esporte tão democrático se tornou elitista? Ou dá para ser feliz correndo sem tantas regras?

Comecei a correr há uns 15 anos. Fiz algumas meias maratonas e em duas semanas vou correr a maratona de Londres, a segunda da vida. Quanta coisa mudou comparado à primeira, há 12 anos. É incrível o avanço da tecnologia esportiva. Ao mesmo tempo, parece consultório de cirurgião plástico: se você entra nele, pode acabar achando algo para retocar, mudar, mesmo que nem precise.

A indústria nos seduz com produtos que prometem melhor performance. Terminar a prova bem e, de quebra, mais rápido, é tentador. Por isso, às vezes me pergunto que tipo de corredora sou, se me cobro demais, como não deixar o lado disciplinado sufocar o prazer que a corrida traz.

É fato que maratona exige preparação diferente. São meses de dedicação, esforço imenso para o corpo. O que se come, bebe e como se treina salva ou estraga a prova.

Antes de o ciclo começar, fiz exames médicos. Tenho uma treinadora incrível, que me ajuda a subir os degraus dessa preparação intensa; fui à nutricionista. Sem elas não teria chegado até aqui, me sentindo forte e sem lesão.

Vejo o restante como investimento, equilibrando ganho para a saúde e motivação com gasto consciente. Bem no início, quando não sabia qual tênis escolher, um amigo maratonista disse que “a melhor marca é a que você se sente bem usando”. Verdade. E não gosto de uma palavra da moda: dizer que um tênis é “responsivo”.

Meias e calças de compressão custam mais, mas vejo que valem cada centavo, porque me deixam com menos dores. Uma amiga que vai correr maratona me disse que só usa top e calça “de uma feirinha do Rio, e que está tudo certo”. Um amigo falou que outro dia só comeu uma banana depois de correr por 2h, enquanto eu cronometro a hora do gel de carboidrato e da água. Hoje, enquanto tomava café da manhã antes do treino –um mingau de aveia com a quantidade “ideal” de proteína e carboidrato– pensei: quem está certo, eles ou eu?

Acho que não existe resposta. Somos diferentes. Adoro rotina, aprender sobre alimentação, hidratação, sinto claramente a diferença. Mas se quero comer uma pizza, me dou o direito. Uso a tecnologia a meu favor, o que não tira o mérito do meu esforço. É dele que depende o resultado.

Para quem está começando ou não quer muita regra, coloque um bom par de tênis e seja feliz! Com o tempo, cada um descobre o que funciona para si. Fundamental é ter em mente a própria motivação. Vou precisar lembrar por que amo esse esporte lá no fim da prova, quando o corpo começar a doer.


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Folha de São Paulo

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