Quem vai ver a Copa no estádio de Toronto?

A Copa do Mundo de 2026 promete transformar Toronto em uma das capitais do futebol. Porém o assunto que mais desperta comentários entre torcedores e moradores da cidade não é a seleção canadense nem a expectativa de receber o maior evento esportivo do planeta. É o preço dos ingressos.
Bilhetes disponíveis no mercado chegam a custar 1.300 dólares canadenses, o equivalente a cerca de R$ 4.000. Em uma cidade marcada pela diversidade e por grandes comunidades de imigrantes apaixonadas por futebol, os valores alimentam uma discussão incômoda: quem conseguirá, de fato, viver a Copa das arquibancadas?
Primeira cidade canadense a receber partidas de um Mundial masculino, Toronto se prepara para um momento histórico —pena que a festa ainda pareça distante para boa parte dos torcedores. Em conversas em bares, restaurantes e redes sociais, a percepção é a de que acompanhar os jogos dentro do estádio se tornou um privilégio reservado a poucos.
A questão financeira se soma a uma característica peculiar da cidade. Diferentemente do que acontece em países como Brasil e Argentina, onde uma Copa do Mundo costuma monopolizar as atenções, em Toronto o futebol terá de dividir espaço com outras paixões esportivas.
A coincidência do calendário é simbólica. A estreia do Canadá está marcada para o mesmo horário de uma partida do Toronto Blue Jays, equipe de beisebol que mobiliza milhares de torcedores e ocupa um lugar central na vida esportiva da cidade. O Rogers Centre, casa do time, recebe regularmente mais de 40 mil pessoas e faz parte da rotina de verão dos moradores.
O cenário seria difícil de imaginar em países tradicionalmente ligados ao futebol. No Canadá, porém, a Copa chega a um ambiente esportivo já consolidado. O hóquei no gelo continua sendo o principal símbolo nacional, enquanto beisebol e basquete mantêm públicos fiéis ao longo do ano.
Isso não significa falta de entusiasmo pelo Mundial.
Toronto é uma das cidades mais multiculturais do mundo e abriga comunidades que vivem intensamente o futebol. Portugueses, italianos, brasileiros, argentinos, colombianos, croatas, marroquinos e indianos prometem transformar ruas e bares em arquibancadas improvisadas.
A diversidade talvez seja justamente a principal marca da cidade durante o torneio. Em vez de uma única torcida dominante, serão dezenas delas dividindo espaços e tradições. A Copa em Toronto tende a ser menos uniforme e mais parecida com a própria cidade: uma mistura de idiomas, culturas e diferentes maneiras de viver o esporte.
Mas a discussão sobre os preços permanece. A Fifa vende a edição de 2026 da Copa do Mundo como a maior e mais inclusiva da história, com 48 seleções e jogos espalhados por três países. Em Toronto, no entanto, muitos torcedores começam a se perguntar se a grandiosidade do evento não acabou criando uma distância entre o espetáculo e o público que sempre lhe deu sentido.
Porque, em uma cidade onde a estreia da seleção canadense dividirá as atenções com uma partida do Blue Jays, a disputa por espaço talvez não seja o maior desafio.
A questão mais importante parece ser outra: em uma Copa cada vez mais cara, quem ainda pode se dar ao luxo de estar presente?
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Esporte / Folha de São Paulo



