Renascença psicodélica recicla misticismo ultrapassado

Já transpareceu aqui, mais de uma vez, certa implicância com o misticismo entremeado na pesquisa clínica psicodélica. Incomodados também com isso, Torsten Passie e Michiel van Elk publicaram levantamento que abala alguns mitos dessa linha e reafirma a precedência da psicoterapia sobre a farmacologia.
Um de seus alvos é a visão de que ensaios clínicos anteriores ao tal de renascimento psicodélico eram metodologicamente falhos. Passie, da Universidade de Hannover (Alemanha), e van Elk, de Leiden (Holanda), se debruçaram sobre 11 estudos de 1965 a 1977 e concluíram que as diferenças com os atuais não são tão grandes.
Os anos escolhidos importam porque correspondem ao período em que a voga proibicionista se firmou para contra-arrestar arroubos antissistema da contracultura nos Estados Unidos. A partir de 1962, o governo ergueu sucessivas barreiras administrativas para substâncias como o LSD, até que, em 1971 Richard Nixon declarou guerra às drogas e criou a DEA (Administração de Repressão às Drogas) em 1973.
Em 1965, o laboratório Sandoz interrompeu a distribuição do LSD (Delysid) e em 1968 o ácido foi proibido em nível federal. Diante da reação conservadora e da crescente adoção de testes randomizados de tipo duplo-cego controlados por placebo (RCTs) em pesquisa clínica, cientistas psicodélicos aumentaram o rigor metodológico de seus ensaios.
Passie e van Elk (PvE, para simplificar) selecionaram oito estudos focados em indivíduos com transtorno por abuso de álcool, dois em dependência de outros narcóticos e um em pacientes neuróticos crônicos. A predominância de estudos sobre álcool decorre de bons resultados obtidos por Humphry Osmond e Abram Hoffer em meados dos anos 1950 no Canadá.
A primeira constatação da dupla PvE foi que os autores de então tinham consciência das mesmas dificuldades que hoje atormentam pesquisadores, como a virtual impossibilidade de manter o cegamento sobre quem recebe placebo ou psicodélico, dado seu efeito subjetivo óbvio. E já buscavam contornar isso com recursos metodológicos, como placebos ativos.
Cai por terra, assim, a visão convencional de que antes da retomada de estudos no século 21 se empregavam padrões deficientes de pesquisa. Mas PeV detectaram algo mais: era geral nos ensaios de 1965-1977 a constatação de que os benefícios obtidos com psicodélicos, como a remissão do abuso de álcool, não se sustentavam bem além de três meses, certamente não após seis meses.
Eles atribuem essa limitação, ainda hoje pouco transparente na repercussão de terapias psicodélicas, em primeiro lugar à seleção de pacientes com condições crônicas graves. São transtornos com muitas causas e comorbidades, bem difíceis de curar.
Em segundo lugar, vigorava na época —e em grande medida ainda prevalece— uma fé desmedida nas experiências de pico desencadeadas por altas doses de LSD, MDMA ou psilocibina. O paradigma presume que essas vivências de ordem mística proporcionariam um profundo sentimento de conexão e uma melhor autoestima, capaz de reduzir sintomas e facilitar a mudança de comportamento.
O busílis, diagnosticam PeV, está na ênfase unilateral conferida à experiência mística como mecanismo primário de ação dos psicodélicos. E foi precisamente essa a moldura —mais que teórica, ideológica— que enquadrou os estudos pioneiros de Roland Griffiths contra depressão e ansiedade na Universidade Johns Hopkins.
Na sua avaliação, essa visão estreita e os resultados módicos obtidos estariam na raiz da decepção com psicodélicos que se seguiu ao entusiasmo injustificado e teria levado em 2024 à rejeição, pela agência de fármacos FDA, do MDMA para tratar estresse pós-traumático. Não por acaso, reguladores implicaram com o componente psicoterapêutico do protocolo submetido pela empresa Lykos.
PeV entendem que psicoterapia é crucial para obter resultados duradouros com tratamentos psicodélicos, na direção oposta da fé farmacológica a que se converteram recentemente Donald Trump & Cia.
“A abordagem centrada na droga, que figura no cerne do paradigma da terapia psicodélica (tanto no passado quanto na atualidade) —ao focar nos efeitos neurobiológicos e psicológicos agudos e subagudos da substância—, pode basear-se em uma premissa equivocada sobre a forma de utilizar psicodélicos terapeuticamente e sobre seus mecanismos de ação”, concluem.
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Informação
Folha de São Paulo



