Esporte

Sem Kelvin Kiptum, maratonas ficam mais tristes e sub-2h mais distante

Por que quenianos são tão incríveis em provas de longa distância como a maratona? Estudos científicos mostram que é uma combinação de fatores: genética, nutrição, condições geográficas como altitude e estilo de vida —se o Brasil é o país do futebol, o Quênia é o da corrida.

Nos últimos 20 anos, seis quenianos e um etíope quebraram recordes mundiais de maratonas no masculino. Um ponto que fascina quem gosta de corrida é pensar quando uma marca mágica que faria um atleta alcançar a imortalidade esportiva será batida: completar uma maratona abaixo de duas horas. O desafio insano significa percorrer 42.195 metros em ritmo médio de 2min50/km, algo que a maioria de nós, mortais, sustenta por pouquíssimos minutos.

Ué, mas em 2019 Eliud Kipchoge não se tornou o primeiro do planeta a conseguir o feito? Sim. A lenda queniana percorreu a distância em 1h59min40. Mas como não foi em prova oficial e sim em um projeto feito para a quebra da marca —com tênis personalizado, rodízio de coelhos (atletas que ditam o ritmo), carro com laser projetando o pace—, apesar de surpreendente, não contou como recorde para a World Athletics, federação internacional do esporte.

Por anos, Kipchoge foi o favorito a conseguir a façanha em uma prova. Chegou perto em 2022, com o recorde mundial de 2h01min09. Recentemente, havia surgido outro candidato, desses fenômenos que aparecem uma vez por geração: o compatriota Kelvin Kiptum.

No domingo (11), a notícia de que Kiptum, de 24 anos, morreu em um acidente de carro no Quênia que vitimou também o treinador, chocou. Em menos de um ano, Kiptum venceu as três maratonas que disputou. Em 2022, se tornou o estreante mais rápido da história, com o tempo de 2h01min53, em Valência. No ano passado, bateu o recorde do percurso de Londres em 2h01min25. Em Chicago, o recorde mundial em 2h00min35, tirando impressionantes 34s da marca de Kipchoge. Fez todo mundo sonhar. Seria ele o primeiro a conseguir o sub-2h?

Muitos acreditavam que sim. Ele negativou maratonas, que no jargão da corrida é fazer a segunda parte mais rápido do que a primeira. Tinha a estratégia de treinar muito, passando às vezes de 300km por semana, volume gigantesco até para a elite. Um amador treinando para maratona corre algo entre 50km e 100km semanais, dependendo do condicionamento e objetivo.

Com esses resultados de Kiptum, cientistas refizeram cálculos que previam que o sub-2h viria por volta de 2032. Em condições perfeitas, quem sabe já em abril, quando correria em Roterdã, mesmo não sendo a mais visada para recordes, como Berlim. Ou, talvez, nos próximos três anos.

Agora, a expectativa fica em suspenso. Se olharmos os 50 primeiros no ranking mundial, os únicos com tempo abaixo de 2h03min são Kipchoge, Kiptum e o etíope Sisay Lemma. Recordes foram baixando alguns segundos ao longo dos anos.

De quando o brasileiro Ronaldo da Costa foi o mais rápido do mundo, em Berlim, em 1998, com 2h06min05, até o atual recorde de Kiptum, foram 25 anos para cortar 5min30. A evolução esportiva ajuda —tênis, nutrição, treino físico e mental. Mas, como a preparação leva meses, os melhores do mundo normalmente disputam só duas provas por ano.

Aos 39, Kipchoge fará a maratona de Tóquio, no dia 3, com o mundo da corrida atento a seu desempenho. Daquela terra fértil em talentos sairão fenômenos do nível dele e de Kiptum.

Mas é triste a partida precoce do queniano e imaginar o tamanho dos feitos que poderia alcançar.


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Folha de São Paulo

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