Economia

Será que os aplicativos de namoro são a versão digital das casamenteiras?

Eu sempre gostei de casamentos. Assisti inúmeras vezes ao filme “Um Violinista no Telhado”, baseado no conto do escritor de origem russa e judaica Sholem Aleichem (1859 – 1916), que conta a história de uma família judia que vivia numa pequena cidade da Rússia um pouco antes da Revolução Russa e se divide entre sua sobrevivência e o medo dos pogroms.(perseguição deliberada e crimes praticados contra os judeus, na Rússia czarista).

Tevye, personagem principal, é um simples leiteiro e pai de cinco meninas. O casamento das três filhas mais velhas permeia todo o filme. Enquanto o pai, utilizando a ajuda da casamenteira da vila, busca um noivo para a filha mais velha que lhe proporcione uma vida financeira estável, a filha, por outro lado, quer se casar por amor.

O casamento, no fim, traz a quebra de tradições em que o papel da casamenteira deixa de ser central. Esse tipo de trabalho caiu em desuso durante o século passado. Porém, a casamenteira é uma das personagens que mais gosto. Talvez por representar uma forma (antiquada) de otimizar a formação de casais a partir de uma lista de preferências. Claro que se essas listas refletem mais as preferências dos pais dos noivos do que as dos próprios noivos, dificilmente representarão a melhor opção para os filhos.

Hoje, em vários países as pessoas passaram a usar os aplicativos de namoro. Esses aplicativos permitem que, dadas as preferências individuais a partir de características observáveis, as pessoas escolham seus pares mesmo antes de conhecê-los. Assim, a internet, por meio desses aplicativos, mudou comportamentos e ditou uma nova forma de encontros, provocando uma alteração do mercado de casamento. Esses aplicativos parecem ser as casamenteiras desse século, com os benefícios de que seus algoritmos procuram otimizar as escolhas e preferências dos próprios indivíduos.

Podemos dividir essas mudanças de comportamento entre os encontros antes dos aplicativos (AP) e depois dos aplicativos (DP). No AP, as pessoas dependiam da indicação de um conhecido, de circularem em baladas, de se conhecerem no trabalho ou na escola. No DP, a partir de características pré-selecionadas, as possibilidades divulgadas pelo algoritmo do aplicativo sugerem rostos que vão circulando nas telas do celular, e as escolhas dependem de cliques e likes. Assim, as pessoas já saem para o encontro presencial conhecendo seu par virtualmente.

Um dos algoritmos que poderia ser usado pelos aplicativos é o de David Gale & Lloyd Shapley (1962), esse último Nobel de economia em 2012. Esse modelo matemático foi aplicado para a formação de pares (ou grupos) em diferentes mercados como de trabalho, alocação entre estudantes de medicina (residentes) e hospitais e casamento. No caso dos encontros, a partir da lista de preferências dos candidatos, o algoritmo permite formar os casais que juntos estarão melhores do que em qualquer outra parceria, ou seja, um resultado ótimo. Esse modelo iniciou a literatura de teoria dos jogos cooperativos, em particular, os modelos de matching. No Brasil, a professora Marilda Sotomayor foi a grande responsável por disseminar essa área no país. Ela contribuiu ativamente com Gale no desenvolvimento da área.

Há uma literatura recente que tenta entender a formação de casais por meio dos aplicativos e se esses relacionamentos são mais ou menos estáveis comparados aos formados sem o uso de tecnologia. O artigo Matching and Sorting in Online Dating (2010) analisa o mercado americano de encontros e usa o algoritmo de Gale & Shapley para simular o que seria um resultado ótimo comparado ao observado no aplicativo. Surpreendentemente, o resultado é similar ao do algoritmo. Outros estudos apontam que os casamentos ocorridos por encontros via aplicativos levam menos tempo para se materializar, mas não necessariamente são mais duradouros. Se os aplicativos são eficientes é razoável esperar que o resultado seja positivo. As possibilidades de encontros são maiores? Parece que sim. Assim, entramos numa nova era para a formação de família com um leve déjà-vu revivendo o trabalho das casamenteiras.

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Folha de São Paulo

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