Política

Seria Lula, como se diz no futebol, um ex-craque em atividade?

Em quase cinquenta anos de carreira pública, o presidente Lula construiu a reputação de animal político, encantador de serpentes e craque na arte da negociação — tanto para construir alianças quanto para fugir de problemas. Gilberto Carvalho, seu ex-chefe de gabinete, costumava compará-lo ao rei do futebol. “Nosso Pelé não pode ficar no banco de reservas”, dizia Gilbertinho, numa tentativa de justificar as sucessivas candidaturas do líder petista.

A fama não foi construída apenas pelos bajuladores de sempre. Lula é o único brasileiro a conquistar três vezes a Presidência da República pelo voto direto. Preso pela Operação Lava Jato, recuperou a liberdade, os direitos políticos e conquistou a redenção nas urnas em 2022. Em seus mandatos passados, tinha canais de diálogo com a oposição, o mercado financeiro e o empresariado. Era festejado como “o cara” — como disse o então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama — tanto fora como dentro do país, onde chegou a desfrutar de mais de 80% de aprovação.

Mas, como ensina a sabedoria popular, águas passadas não movem moinhos. Em sua terceira passagem pelo Palácio do Planalto, Lula se mostrou cansado da rotina da burocracia, deixou de lado a negociação política, o que resultou na relação turbulenta com o Congresso, não arbitrou as disputas internas entre seus ministros e, de quebra, ainda teve de lidar com um país dividido. Seu governo e sua pessoa física são rejeitados por metade da população.

O petista adora terceirizar a culpa pelos problemas, mas a responsabilidade pelas dificuldades, inclusive na campanha à reeleição, é dele. O craque parece fora de forma. Suas jogadas já não encantam como antes, como dá prova a queda de sua popularidade entre os beneficiários do Bolsa Família. Seu tempo de resposta e seu raciocínio já não são tão afiados como no passado.

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O futebol, de que Lula tanto gosta, exige que o craque apareça e sobressaia nos momentos decisivos. A prova de fogo do presidente está em curso, com uma campanha acirrada e uma crise no Supremo Tribunal Federal que parece beneficiar o rival Flávio Bolsonaro. O campo desfavorável e a arquibancada dividida desafiam o presidente a mostrar se ainda consegue fazer a diferença. Ele está tentando.

Encurralado pela turbulência no STF, com quem manteve uma parceria estratégica desde que voltou ao governo, Lula declarou platitudes como “ninguém está acima da lei” e “todos devem ser investigados, doa a quem doer”. Por enquanto, o petista não prestou solidariedade nem jogou aos leões o ministro Alexandre de Moraes, que pode ser investigado pelos colegas em razão de suas relações impróprias com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

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O “por enquanto”, no caso, é necessário, já que, em sua longa carreira, Lula sacrificou aliados e colegas de elenco para satisfazer a torcida e conquistar seus títulos. Dependendo dos obstáculos e dos objetivos, os craques nem sempre jogam de forma leal.

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