Simone Bittencourt fala sobre cuidado e futuro na ortopedia pediátrica

Dizer a uma família o que uma criança poderá ou não alcançar pode ser mais difícil do que enfrentar uma cirurgia complexa. Essa percepção acompanha Simone Bittencourt ao longo de uma trajetória dedicada à ortopedia pediátrica, especialmente ao atendimento de crianças com alterações neurológicas e deformidades musculoesqueléticas. Para a médica, conhecimento técnico e cuidado na comunicação caminham juntos, já que a maneira como diagnósticos, possibilidades e limitações são apresentados pode marcar profundamente quem os recebe.
Nascida em Volta Redonda, no Rio de Janeiro, Simone conta que falava em ser médica desde pequena, embora não tivesse uma especialidade definida. Durante a graduação, chegou a considerar a pediatria, mas foi ao acompanhar voluntariamente a rotina hospitalar que a ortopedia começou a ganhar espaço em seus planos.
Ela seguiu para São Paulo, onde realizou residência em Ortopedia no Hospital Nossa Senhora do Pari. Inicialmente, imaginava dedicar-se à cirurgia da mão, até que uma experiência durante a própria formação mudou seu caminho.
Uma escolha durante a formação
No terceiro ano da residência, um estágio em ortopedia pediátrica na AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente) apresentou Simone a uma rotina voltada às pessoas com deficiência e baseada na integração entre diferentes áreas da reabilitação.
“Eu cheguei pensando em seguir cirurgia da mão e saí daquele estágio sabendo que queria a ortopedia pediátrica. Percebi que, nos casos complexos, ninguém trabalha sozinho. A criança precisa ser compreendida de forma integral, e a família faz parte das decisões”, relembra.
Após a especialização, Simone integrou o corpo clínico da AACD por 13 anos. Nesse período, aprofundou sua experiência no tratamento de alterações neuromusculares, paralisia cerebral, mielomeningocele, pé torto congênito e outras deformidades ortopédicas. Segundo a médica, foram mais de 9 mil cirurgias realizadas ao longo dessa etapa.
A experiência também consolidou uma percepção que passou a orientar sua atuação: para crianças com deficiência, a cirurgia representa muitas vezes apenas uma parte de um cuidado que envolve reabilitação, acompanhamento contínuo e participação ativa da família.
O cuidado também está nas palavras
Entre as perguntas mais delicadas que chegam ao consultório está a possibilidade de uma criança caminhar. Em algumas situações, parâmetros clínicos ajudam a estimar o prognóstico; em outras, principalmente nos primeiros anos de desenvolvimento, é preciso acompanhar diferentes etapas antes de chegar a uma conclusão.
“Tenho muito cuidado antes de dizer a uma família que uma criança não vai andar. Existem parâmetros que orientam o prognóstico, mas precisamos ser honestos sobre as limitações sem afirmar como definitivo aquilo que ainda não podemos saber”, explica.
Simone recorda o caso de uma menina com paralisia cerebral cuja mãe havia ouvido que a filha nunca caminharia. Quando chegaram ao consultório, a criança já ensaiava os primeiros passos. Ao perguntar se a filha conseguiria andar, a mãe ouviu que, de certa forma, aquilo já estava começando a acontecer. Ela chorou.
Para a ortopedista, o episódio demonstra a dimensão que uma frase pode assumir na vida de uma família, sem significar que a mesma evolução possa ser esperada para outras crianças.
“Conversar sobre diagnóstico e prognóstico, muitas vezes, é mais difícil do que a parte técnica. A família chega com medo, dúvidas e expectativas. É preciso dizer a verdade, mas também reconhecer os limites daquilo que podemos prever.”
Essa percepção ganhou outra dimensão quando Simone passou a conviver com a deficiência dentro da própria família. O pai e o irmão ficaram com sequelas de AVC, experiência que também a colocou no lugar de familiar de pacientes.
“Quando estamos do outro lado, percebemos barreiras que nem sempre aparecem durante uma consulta. Isso reforçou em mim a importância de lembrar que conhecemos apenas uma parte da história de quem está diante de nós.”
Da cirurgia à reabilitação
Questões familiares levaram Simone a deixar São Paulo e retornar a Volta Redonda. Durante os cinco anos em que permaneceu na cidade, continuou atendendo crianças com deficiência, mas sentia falta de uma estrutura especializada que permitisse acompanhar de maneira mais integrada a reabilitação após determinados procedimentos.
Em 2020, uma oportunidade profissional a levou a Florianópolis. Depois de atuar no Hospital Infantil, aproximou-se do projeto que daria origem ao Instituto de Reabilitação Integrada (IRIN). Atualmente, Simone trabalha no instituto em parceria com a fisiatra Cristiane Carqueja e equipes terapêuticas. Em determinados casos, as duas realizam consultas integradas, compartilhando avaliações para construir condutas que considerem aspectos clínicos, funcionais e familiares.
“Nem sempre o principal objetivo será fazer a criança andar. Para um paciente, o ganho pode estar na marcha; para outro, em conseguir se posicionar com conforto, participar das atividades escolares ou ajudar em uma transferência. Precisamos compreender o que terá impacto real na vida daquela criança.”
Sua atuação também envolve condições como mielomeningocele, pé torto congênito e outras alterações ortopédicas da infância. No consultório, Simone busca orientar as famílias sobre o que pode fazer parte do desenvolvimento e o que merece investigação, procurando evitar tanto atrasos em tratamentos necessários quanto intervenções sem indicação.
Um projeto para o futuro
A experiência com crianças com paralisia cerebral também orienta um dos próximos projetos da médica. Durante um MBA em Gestão Inovadora em Saúde, ela desenvolveu um trabalho sobre o uso da telemedicina na vigilância do quadril desses pacientes. A proposta busca facilitar o acompanhamento de crianças que vivem longe de centros especializados e favorecer a identificação precoce de alterações.
Simone e Cristiane já realizam capacitações sobre o tema para equipes terapêuticas em Santa Catarina, com a expectativa de que o modelo possa futuramente alcançar também a rede pública.
O projeto acompanha uma preocupação presente em sua trajetória: pensar não apenas na criança de hoje, mas também no adulto que ela poderá se tornar. Depois de décadas convivendo com pacientes e familiares, Simone afirma que a especialidade transformou sua maneira de compreender autonomia, limites e diferenças.
“Aprendi a ter cuidado com as palavras, a não julgar e a lembrar que existe uma história inteira por trás de cada pessoa. Um diagnóstico não define quem uma criança será. Nosso papel é reconhecer suas possibilidades, pensar no futuro e buscar a melhor qualidade de vida possível dentro de sua realidade.”
Simone Bittencourt — Ortopedia e Traumatologia | CRM/SC 28566 | RQE 19846
Instagram: @simoneortopedista
Site: www.drasimonebittencourt.com.br

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