Temos bons critérios para escolher alguém?

O Bumble, um dos maiores aplicativos de relacionamento, anunciou que vai abandonar o modelo de escolha rápida entre perfis e passar a usar inteligência artificial para recomendar possíveis parceiros. A decisão é uma resposta ao cansaço: 78% dos usuários americanos disseram se sentir esgotados ao utilizar o app. Em outro levantamento, 62% dos solteiros que buscavam relacionamento sério afirmaram que namorar ficou mais difícil do que dez anos antes. Embora os dados sejam americanos, a queixa soa familiar também no Brasil.
A reclamação sobre cansaço reflete a sensação de abundância de pessoas disponíveis ao mesmo tempo em que a maioria dos contatos não avança. Para virar compromisso, a outra pessoa, além de ser desejável, precisa demonstrar interesse, aceitar sair, gostar de você ao vivo e desejar algo minimamente compatível. Esse caminho entre a vitrine e a relação almejada quase sempre é percorrido com pouca informação e bastante adivinhação.
Nesse tipo de contexto, organizar parâmetros ajuda na primeira triagem: economiza tempo, reduz o risco e evita escolhas perigosas. Contudo, filtrar por tamanho, cor ou categoria em uma compra online faz sentido porque o objeto já existe. Na busca por relacionamento, a peneira tenta antecipar a dinâmica entre duas pessoas antes que ela exista. Assim, buscamos sinais de confiança, intimidade, lealdade, paixão, atração e estabilidade, dimensões que aparecem nos estudos de Garth Fletcher e outros pesquisadores sobre ideais de parceiro e de relacionamento.
Entretanto, essa régua não funciona do mesmo modo antes e depois do contato ao vivo. Perfis compatíveis com as preferências declaradas despertavam mais interesse, mas, depois de uma breve interação presencial, o interesse decrescia, de acordo com experimentos de Paul Eastwick e Eli Finkel. O encontro não fazia as pessoas esquecerem o que queriam, mas mudava a percepção que tinham. Um adjetivo como “ambicioso” pode soar interessante no papel, mas parecer frio e egoísta numa conversa em que a pessoa não faz perguntas sobre o outro. Também pode ganhar charme se vier acompanhado de curiosidade e gentileza.
A qualidade de um vínculo está mais associada à dinâmica entre duas pessoas do que a atributos isolados. Compromisso percebido do parceiro, apreciação mútua, satisfação sexual e nível de conflito são mais informativos do que as características da pessoa ideal. Essa é a direção dos resultados de Samantha Joel, Paul Eastwick e outros pesquisadores, em uma análise que reuniu dados de 43 estudos sobre 11.196 casais.
Além disso, o perfil de quem escolhe tem grande peso na percepção da dinâmica. Pessoas mais satisfeitas com a própria vida, menos tomadas por emoções negativas e menos inclinadas a viver intimidade com ansiedade ou afastamento tendem a enxergar as próprias relações como melhores. O filtro que aplicamos ao outro também passa pela maneira como enxergamos intimidade, frustração e até nós mesmos.
Logo, vale usar os critérios como hipóteses a serem testadas. Uma lista pode ajudar a decidir se vale abrir a porta e, então, confrontá-la com o vínculo que se constrói. Delegar parte dessa escolha à inteligência artificial, ainda que ela fosse eficiente em ordenar perfis, não resolveria o principal: as informações que importam para avaliar uma relação aparecem no contato, não antes dele. Consigo ser franca com essa pessoa? Há curiosidade em ambos os lados? Os desencontros viram conversa ou ansiedade? Talvez fazer esse tipo de pergunta seja melhor do que tentar aperfeiçoar o filtro ao mínimo detalhe. Sobretudo, é importante compreender não apenas quais qualidades e defeitos o outro tem, mas que tipo de pessoa ambos se tornam no processo.
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Folha de São Paulo



