Saúde

Tentar restringir minha alimentação a ‘comidas saudáveis’ me adoeceu

Na semana passada, relatamos aqui no blog como a criação de “regrinhas” para alimentação pode afetar nossa relação com a comida e causar sofrimento, além de dificultar o tratamento de transtornos alimentares.

Assim como a maioria das pessoas que sofrem com T.A., eu também estabeleci algumas normas para mim mesma. Durante muito tempo eu só comi alimentos “saudáveis”. Frutas, legumes e verduras in natura, arroz integral, tudo com o mínimo de preparo e, muitas vezes, de sabor.

Como eu já contei em um outro texto, sempre fui chata pra comer. A exceção eram frutas: há pouquíssimas com as quais não me empolgo. Meus pais logo perceberam e aproveitaram a “brecha” para garantir que eu comesse pelo menos alguma coisa.

Era assim que durante o Ensino Médio, depois de passar horas trancada no quarto me descabelando por provas de vestibular, meu pai batia na porta com um prato de frutas cortadas e granola. Eu sempre respondia que tinha esquecido de comer (mesmo quando eu na verdade tinha muita consciência da quantidade de calorias ingeridas até o momento e estava tentando manter o número mais baixo possível) e consumia sempre apenas metade do que me era oferecido.

Alguns transtornos alimentares podem estar associados com o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), como é o meu caso. Isso se reflete numa série de regrinhas não ditas que eu tenho pra mim mesma e que causam ainda mais sofrimento caso sejam desrespeitadas. Desde o tamanho do prato em que vou comer, passando pelos macronutrientes presentes na porção até o tempo gasto para me alimentar. Lembro-me de quando era criança ler em algum lugar que era preciso mastigar ao menos 20 vezes antes de engolir e estabelecer para mim que precisava mastigar 37, para ter uma “margem de segurança”.

Quando saí da casa dos meus pais para cursar faculdade em outra cidade, percebi que as demais pessoas não tinham uma relação tão conturbada com a comida. A família de um ex-namorado me ensinou que o momento da refeição deveria ser leve, alegre, de reunião entre os queridos e que tinha muito menos a ver com a série de contas que eu fazia na minha cabeça. Isso não fez com que a lista de regras e obrigações mentais diminuísse, mas fez da manutenção delas um pouco mais complicada.

1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 mastigadas. Responda o que estava sendo perguntado. Onde é que eu estava mesmo? 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14. Não posso falar de boca cheia. 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21… Estão reparando que tem pouca comida no meu prato. 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28. “É que eu não tô com fome, tomei um café da manhã reforçado”. 29, 30, 31, 32, 33, 34, 35… “Imagina, pode ficar com esse pedaço”. 36, 37… “Estava uma delícia, estou satisfeita”.

Atualmente, tento me distrair durante as refeições para evitar que a calculadora mental dispare. Estar acompanhada facilita o processo, desde que a pessoa ao lado não comente sobre a porção ou a qualidade do conteúdo do prato. Poucas coisas cortam tanto o apetite quanto ter alguém analisando o quanto vai engordar após ingerir determinados alimentos, ou sobre como vai “compensar” a refeição na academia mais tarde.

Começar o tratamento para a anorexia me fez perceber o quanto o comer disfuncional é presente no nosso cotidiano. Em um mundo de suplementos, influenciadores digitais remodelados em cadeira cirúrgica e ultraprocessados “fit”, talvez a verdadeira “revolução da alimentação” seja tentar encontrar alegria em um prato feito sem subdividi-lo em mastigadas, calorias, carboidratos, proteínas e gorduras.


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Informação

Folha de São Paulo

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