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Thiago Soares celebra volta às raízes e nova fase: ‘É muito emocionante poder impulsionar outros artistas’

Depois de construir uma carreira nos maiores palcos do mundo, Thiago Soares (45) vive hoje um retorno ao Rio de Janeiro que vai além da geografia.

Com 25 anos de trajetória internacional, ele volta à cidade não apenas como bailarino, mas também como criador, diretor e à frente da Cia. de Dança Thiago Soares, inaugurada em dezembro de 2025 e criada para desenvolver novas obras, formar artistas e ampliar o diálogo da dança produzida no Rio com outros palcos.

À CARAS, ele admite que a dimensão dessa transformação ainda o emociona, mesmo depois de quase um ano convivendo diariamente com esse novo papel.

Tem momentos em que eu me acostumo, porque isso tem sido meu dia a dia já há um ano, né? Mas é emocionante. Eu acho que é emocionante poder criar a dança que outras artistas dançam hoje e também liderar a cultura de um espaço onde se fomenta trabalhos, cria oportunidade e aproxima tantos artistas”, observa.

Mais do que assinar obras, ele acompanha de perto a evolução daqueles que chegam à companhia e vê nesse processo uma nova forma de realização profissional. “É algo muito emocionante poder liderar um projeto assim, poder ver que alguns artistas vão crescendo de uma forma muito bonita, muito rápida.

O corpo como grande tecnologia

Se o lugar de Thiago dentro da dança mudou, sua relação com o corpo continua baseada no mesmo princípio que acompanhou toda a carreira: disciplina.

Depois de décadas usando o físico como instrumento de trabalho, ele evita tratar a idade como uma ruptura e prefere falar em continuidade e cuidado. “Eu acho que o corpo é a grande máquina, é a grande tecnologia.

Para ele, a longevidade no palco depende de um compromisso que não se limita às horas de ensaio. “Eu acho que, quando se usa o corpo como seu instrumento de trabalho, existe um ritual ali de disciplina e um pacto com o que você se propôs, que você leva para a vida.

Esse pacto também exige renúncias pessoais. “Às vezes, é dificultoso, porque você acaba pagando um preço de não poder se aventurar na sua vida social e pessoal das formas que você talvez quisesse.

Ainda assim, Thiago considera que o corpo responde quando recebe o cuidado necessário ao longo do tempo. “Se você faz o seu processo, o trabalho de casa, se cuida e tem um pacto com o que você se propôs, essa máquina é muito generosa. Ela traz as respostas, traz a longevidade e traz uma resposta de que é possível você ultrapassar as gerações, você conquistar, você rodar o mundo, voltar pra casa e trabalhar com essa mesma máquina para protagonizar e também incentivar outros.

Sasha De Sola e as muitas Carmens

Nas novas apresentações de Carmem, nos dias 17 e 19 de setembro, no Teatro Multiplan, Thiago recebe Sasha De Sola (37), principal do San Francisco Ballet, que fará sua estreia nos palcos brasileiros e se torna a primeira convidada internacional da companhia.

A relação entre os dois, no entanto, não começa agora. “A Sasha é uma artista que sempre esteve no meu radar. Ela já fez obras minhas fora, em outro país, eu como coreógrafo.

A escolha também dialoga com uma característica que Thiago vem construindo dentro da própria montagem: a possibilidade de a personagem passar por diferentes intérpretes e ganhar novas camadas a cada encontro.

Eu tenho uma bailarina da casa que faz lindamente, que é a Gabriela Mendes, representa a companhia, representa a obra. Eu já tive uma convidada nacional, a bailarina Nathália Antunes. E essa é uma obra que ela é de muitas Carmens. Então a Sasha é a convidada da vez.

Mais do que o prestígio de uma estrela internacional, Thiago aponta a postura profissional de Sasha como um dos elementos decisivos para o convite. “A Sasha é uma estrela internacional, mas ela é uma trabalhadora da arte. É uma artista que está mergulhada dentro dos seus processos de evolução. Tem um olhar sensível para toda a gama de trabalhadores que colaboram para que um espetáculo dessa magnitude aconteça, e ela é um exemplo.

Para ele, a presença da bailarina também amplia o processo de formação dos jovens que convivem diariamente na companhia. “Eu sinto que a ideia de trazer uma artista é também que seja uma troca para esses jovens, para que eles possam interagir com ela, aprender com ela e também para que ela possa ver o que estamos fazendo.

O menino de Vila Isabel ainda está presente

Entre o garoto que começou nas danças urbanas no Rio de Janeiro e o artista que chegou ao posto de primeiro bailarino do Royal Ballet, existe uma trajetória que atravessou mais de 30 países.

Thiago, porém, acredita que parte daquele olhar inicial precisa continuar presente em suas escolhas. “Com certeza, em algum lugar esse menino está presente.

A diferença é que, hoje, aquele impulso aparece acompanhado pela experiência de uma carreira de 25 anos e por uma responsabilidade que vai além de si mesmo. “Eu acho que é muito importante não perder o olhar daquele menino, porque foi aquele menino lá que me levou a rodar mais de 30 países.

Se antes o objetivo estava concentrado em construir o próprio caminho, agora Thiago reconhece que uma parte importante de sua função é abrir espaço para que outros também possam encontrar o deles. “Eu acho que muito do meu caminho hoje é também abrir caminho para outros.

Mesmo assim, ele procura preservar a mesma capacidade de acreditar que existia no início da trajetória. “Eu tento não perder o brilho quando vou fazer escolhas, eu penso em não deixar de acreditar, de lembrar de que é possível. E eu acho que quem lembrava sempre isso era aquele menino lá de Vila Isabel.

Um protagonismo que agora passa pelo outro

Thiago não esconde que ainda existe prazer em subir ao palco e continuar exercendo o ofício que construiu sua vida. Mas admite que, hoje, a realização também aparece quando vê sua experiência reverberar no trabalho de outros bailarinos. “O meu coração fica dividido, mas, obviamente, a minha função protagonista hoje, no meu dia a dia, é facilitar para outros.

O artista define essa transmissão como uma espécie de continuidade de sua própria identidade. “Eu acho que esse ecoar do meu DNA, que segue em outros corpos, segue em outras formas de dançar, me dá muito orgulho e é algo muito emocionante.

Isso não significa abandonar a dimensão íntima da performance. Thiago continua treinando e cuidando do corpo para preservar o lugar que o palco ocupa em sua vida. “Subir ao palco, fazer o que eu fiz a minha vida inteira e o que eu gosto de fazer, é algo muito especial para mim e eu tento preservar isso. Eu tento me cuidar, fazer minhas aulas, me dedicar.

Hoje, porém, ele entende que as duas experiências podem coexistir: seguir dançando e, ao mesmo tempo, transformar a própria trajetória em impulso para quem está começando. “É uma grande emoção poder impulsionar outros artistas.

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