Esporte

Tostão e Dorrit, a Terra é uma bola

No domingo (10) Tostāo escreveu mais uma coluna marcante nesta Folha: “Eu não acredito”, o título.

Dos maiores craques da História, melhor colunista de futebol na imprensa mundial, o doutor Eduardo Gonçalves de Andrade é, antes de tudo, um humanista.

Como tal, está mais cético que de costume. Preocupante e digno de acender todas as luzes amarelas, embora as vermelhas estejam piscando não é de hoje.

No mesmo dia, em “O Globo”, Dorrit Harazim, há décadas melhor jornalista brasileira, escreveu “Dores do Mundo“, onde recomenda que se veja o vídeo abaixo, 90 segundos terríveis sobre o genocídio na Faixa de Gaza. “Não fazê-lo seria silenciar o horror”, escreve a também extraordinária humanista, da cabeça aos pés.

A tabelinha entre Dorrit e Eduardo revela o quanto o ser humano perdeu o contato com a humanidade: “Eu não acredito em países com tanta violência urbana, cada vez maior, que deixa os cidadãos em pânico. Eu não acredito em países que, há décadas, não tentam resolver para valer os gravíssimos problemas da educação e da falta de saneamento básico. Eu não acredito nas trocas promíscuas de favores que sempre ocorreram no futebol e na política brasileira”, escreveu ele, que também não acredita nos árbitros, nos gramados sintéticos ou esburacados, no exagero das bolas longas, no calendário que pisoteia a qualidade dos jogos.

E escreveu ela: “Neste fim de 2023, os tempos são de desnorteamento e dor — uma dor, ora individual, ora coletiva, que não usa máscara. De qualquer ângulo que se olhe, o que se vê é um vácuo — vácuo de compaixão, excesso de certezas vazias. Tomar conta deste mundo dá trabalho e exige paciência, já sabia Clarice Lispector”.

Espantosa mania essa, a dos humanistas quererem cuidar do mundo que calou na Inquisição; nas guerras por dinheiro e poder; nos assédios em Hollywood e na pedofilia na Igreja; na corrupção desenfreada; nos crimes cometidos em nome da justiça social ou da defesa da falsa democracia, assim como, nos dias que correm, chama de antissemitismo a denúncia do genocídio.

Desesperar jamais, pregam Vitor Martins e Ivan Lins.

Sim, sempre! Mas, como?

A descrença de Tostāo, que clama pela formação no Brasil “de um cracaço meio-campista, do nível dos melhores do mundo, que se destaca de uma intermediária à outra”, está longe de ser desistência, assim como Dorrit mantém acesa a chama da esperança ao recomendar o site do australiano Nick Cave para manter vivas a resiliência e a empatia.

A Terra é uma bola incandescente à espera que prevaleça a voz da sensatez.

Ter esperança não é esperar, é esperançar como ensinou Paulo Freire, “juntar-se com outros para fazer de outro modo” — e perdoem a rara leitora e o raro leitor por tantas citações, porque é preciso o socorro dos mais sábios.

Com 308 gols e 514 jogos em dez anos de vitoriosa carreira, Tostāo segue na busca da excelência a cada coluna e ultrapassa o milionésimo tento.

Dorrit atingiu a santidade, faz o impossível a cada domingo ao superar o insuperável —pois se há uma coisa que desconhece é exatamente a existência das impossibilidades.

Dorrit Harazim bem que poderia assumir a presidência do mundo, com Tostāo de vice.

Ou vice-versa.

Seria um golaço da humanidade.

Aceitamos adesões.

Ao fundo, Imagine, de John Lennon.


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Folha de São Paulo

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