‘Tradwife’ nas urnas: mulheres antifeministas conquistam votações recordes e fortalecem direita

A eleição de 2026 colocou mulheres de discurso conservador entre alguns dos principais destaques das urnas. Em São Paulo, Eduarda Campopiano (PL), que se apresenta como “a maior inimiga das feministas”, foi a candidata mais votada para a Assembleia Legislativa, com 1.956.238 votos. No Rio de Janeiro, Índia Armelau (PL) liderou a disputa pela Alerj, com 248.504 votos, após fazer da restrição ao uso de banheiros femininos por mulheres trans uma de suas principais bandeiras parlamentares.
Campopiano, de 23 anos, afirma que pretende manter no mandato o enfrentamento ao feminismo. Entre suas posições estão a oposição à criminalização da misoginia e ao aborto, e a defesa do porte de armas como instrumento de proteção das mulheres. Após a eleição, declarou que a “guerra” contra as feministas estava apenas começando.
O protagonismo feminino da direita também chegou ao Senado. Das 54 vagas em disputa, 12 foram conquistadas por mulheres, o maior número em uma única eleição desde a redemocratização. Entre elas estão Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, ambas do PL pelo Distrito Federal, Carol de Toni (PL-SC) e Gracinha Caiado (União-GO). No DF, Michelle e Bia se juntarão a Damares Alves (Republicanos), formando a primeira bancada estadual integralmente feminina da história do Senado.
A representação de mulheres de esquerda também cresceu, mas ainda sem fazer sombra ao conservadorismo. Mulheres de direita são a maioria das representantes, e homens brancos de direita, a maioria esmagadora do Congresso.
Em geral, o resultado desta eleição ampliou a presença feminina nos espaços de poder, mas evidenciou uma disputa sobre o significado dessa representação. “Existe uma diferença profunda entre ocupar uma cadeira e usar essa cadeira para enfrentar as desigualdades”, afirma a senadora eleita Marília Arraes (PDT-PE) ao Brasil de Fato.
Para ela, a presença de mulheres não implica, por si só, compromisso com políticas de igualdade. “Precisamos olhar para o que cada parlamentar defende, para os seus votos e para as consequências de suas propostas”, diz.
Uma direita que aprendeu a falar com as mulheres
A cientista política Irina Frari, mestre em administração pública e diretora de Advocacy do Instituto Levante Mulheres Vivas, avalia que o crescimento das candidaturas conservadoras é resultado também de um processo organizado de formação de lideranças femininas.
“O protagonismo das candidaturas femininas conservadoras não surgiu espontaneamente. Houve, nos últimos anos, um investimento muito claro na construção de lideranças femininas de direita, especialmente por meio de redes religiosas, movimentos conservadores, redes sociais e estruturas partidárias”, afirma.
Irina cita a atuação de Michelle Bolsonaro e Damares Alves na mobilização de mulheres conservadoras. Segundo ela, essas lideranças conseguem abordar temas presentes no cotidiano feminino, como maternidade, família, violência, cuidado e segurança, a partir de respostas políticas distintas das defendidas pelos movimentos feministas.
“Quando uma liderança fala sobre medo, filhos, violência, família, cuidado e insegurança, ela está falando de problemas que essas mulheres reconhecem como reais em suas vidas. A divergência está muitas vezes na explicação para esses problemas e nas soluções apresentadas”, analisa.
A deputada estadual eleita Sofia Favero (Psol-SP) tem outra leitura sobre parte dessa estratégia. Para ela, a extrema direita transforma questões relacionadas a gênero em ameaças capazes de mobilizar medo e ressentimento. “É uma estratégia de demonização que transforma minorias em inimigos para esconder problemas muito maiores”, afirma.
Favero cita, entre os exemplos, a exploração política de debates sobre o uso de banheiros por pessoas trans, identidade de gênero e participação no esporte.
“A extrema direita insiste em transformar banheiro, pronome neutro e esporte em grandes debates nacionais, enquanto as pessoas enfrentam dificuldade para comprar uma casa, se aposentar ou ter acesso a serviços públicos de qualidade”, diz.
Do universo tradwife à política
A ascensão dessas candidaturas ocorre em paralelo à difusão internacional de discursos que retomam papéis tradicionais de gênero. Um dos fenômenos mais visíveis nas redes sociais é o das chamadas tradwives (abreviação de traditional wives, ou “esposas tradicionais”), que valorizam a dedicação ao lar, à maternidade e ao marido e apresentam esse modelo como escolha pessoal e ideal de feminilidade.
A socióloga Jacqueline Pitanguy, fundadora e coordenadora executiva da Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação (Cepia), destaca a influência do crescimento de movimentos religiosos e políticos que exaltam mulheres como donas de casa, complementares aos maridos e inseridas em estruturas familiares hierarquizadas.
“Há, de fato, uma estratégia concatenada, uma estratégia articulada”, afirma. Segundo ela, essas ideias encontram repercussão no Brasil e se conectam a discursos que questionam a igualdade entre homens e mulheres.
“Essa ideia patriarcal e arcaica ressurge hoje no discurso de mulheres da extrema direita”, afirma.
A socióloga recorre à história para dimensionar esse movimento. Ela lembra que o Código Civil de 1916 classificava mulheres casadas como relativamente incapazes para determinados atos da vida civil e vê nos discursos contemporâneos de subordinação feminina a retomada de concepções patriarcais que o direito brasileiro abandonou ao longo do século passado.
Antifeministas graças a conquistas feministas
Para Pitanguy, há uma contradição histórica na ascensão política de mulheres que se apresentam como adversárias do feminismo. “Elas só estão aí porque as sufragistas lutaram pelo direito ao voto”, afirma.
A socióloga lembra que movimentos feministas também participaram, ao longo das últimas décadas, de campanhas pela ampliação da presença feminina nos espaços de decisão e contra a violência política de gênero.
Na avaliação dela, o próprio esforço das novas lideranças conservadoras para marcar distância do feminismo revela o peso adquirido pelo movimento. “O discurso delas não me surpreende. O que me surpreende imensamente é que, a partir desse discurso, tenham um apoio tão grande na sociedade”, diz.
A questão, para Pitanguy, é compreender por que posições que defendem relações mais hierarquizadas entre homens e mulheres conseguem mobilizar apoio eleitoral em uma sociedade na qual as mulheres ampliaram sua participação no mercado de trabalho, na educação superior e na chefia das famílias.
Reação aos avanços feministas
Para Estefane Maria, militante da Marcha Mundial das Mulheres no Rio Grande do Norte, o crescimento eleitoral de candidaturas antifeministas faz parte de uma reação mais ampla aos avanços conquistados pelas mulheres.
Ela relaciona o fenômeno à expansão de movimentos misóginos nas redes, como grupos identificados com o universo red pill, e à violência dirigida contra mulheres que ocupam posições de liderança política.
Na avaliação de Maria, candidaturas conservadoras colocam em disputa não apenas a representação feminina, mas direitos já incorporados à legislação e às políticas públicas.
“Não adianta somente eleger mulheres”, afirma. Para ela, parlamentares identificadas com projetos antifeministas podem atuar para restringir conquistas relacionadas à igualdade de gênero, ao enfrentamento da violência e aos direitos reprodutivos.
A própria Campopiano declarou que pretende atuar contra propostas associadas ao movimento feminista e fazer da disputa ideológica uma das marcas de seu mandato.
“A eleição de mulheres, de candidaturas da extrema direita, pautadas em discursos antifeministas que colocam a mulher sempre de volta para esse lugar privado, é o retrato da reorganização do fascismo e do bolsonarismo aqui no Brasil”, analisa Maria.
Autocrítica e disputa pelo eleitorado feminino
Irina Frari pondera que explicar o crescimento das conservadoras apenas como consequência da ofensiva da direita é insuficiente. “O campo feminista e progressista precisa ter coragem de fazer uma autocrítica”, afirma.
Segundo a cientista política, setores progressistas nem sempre conseguiram acolher mulheres que compartilham algumas reivindicações por igualdade, mas divergem em temas comportamentais, de segurança pública ou identidade de gênero.
“Se queremos representar mais mulheres, não basta dizer a elas quais deveriam ser suas prioridades. Precisamos ouvi-las, compreender suas experiências concretas”, diz.
A senadora eleita Marília Arraes acredita que a presença feminina no Congresso só produz mudança quando se traduz em políticas de igualdade, proteção e autonomia.
“Ser mulher, por si só, não garante compromisso com os direitos das mulheres”, afirma. “Quando uma mulher chega ao poder e atua contra a igualdade, a autonomia feminina ou as políticas de proteção, sua presença não assegura avanços para as demais.”
Arraes cita como prioridades de seu mandato o enfrentamento à violência, a autonomia econômica, a ampliação das creches e a saúde feminina. “Nossa presença precisa ter consequência na vida das brasileiras”, diz.
Essa autonomia, na avaliação de Estefane Maria, também depende de mudanças nas condições materiais da vida das mulheres. Ela aponta a divisão desigual do trabalho de cuidado e a organização da jornada como obstáculos à independência econômica.
“A gente precisa também falar sobre os papéis de gênero na sociedade, quem é que está se responsabilizando por fazer a economia girar, pelo trabalho de cuidado, que é o que sustenta o nosso povo, que é o que sustenta o nosso país”, afirma.



