Saúde

Trend sobre suicídio nas redes sociais pode banalizar tema, dizem especialistas

No Tiktok, uma menina chorando grava um vídeo e escreve que “realmente está quase virando camiseta de saudade”, mas continua vivendo porque a irmã está prestando vestibular e ela não gostaria de desestabilizá-la. “Virar camiseta de saudade” é um dos termos utilizados nas redes sociais para falar sobre suicídio, porém, especialistas temem banalização do tema.

Camisetas da saudade são aquelas que amigos e familiares costumam usar com a estampa de uma foto de um ente querido que já morreu.

Os usuários de redes sociais utilizam termos diferentes porque, ao escrever palavras como “suicídio”, a plataforma redireciona a pessoa para uma página com o contato do CVV (Centro de Valorização da Vida), que presta serviço voluntário e gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio.

O vídeo da menina chorando faz parte de uma trend, ou seja, diversas outras pessoas gravaram vídeos parecidos, com a mesma música. Essa tendência, presente no Instagram e no Tiktok, utiliza um trecho da música “Cigarra Antropofágica”, de Airam Capuani, que fala sobre suicídio. Na gravação, ao final do vídeo, a irmã que vai prestar vestibular abraça a menina que se gravou chorando. O vídeo tem mais de 4,5 milhões de visualizações.

A psicóloga Karen Scavacini, CEO, idealizadora e cofundadora do Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio, diz que a trend tem aspectos positivos. “No vídeo, por exemplo, essa moça vai e dá um abraço na irmã, ela toma uma atitude que é para diminuir o seu sofrimento. Neste aspecto, é positivo. Ela vai em busca de alívio desse sofrimento e isso ajuda as pessoas a pensarem como ela, em ir ao alívio dos seus. Não estou falando resolução do sofrimento, e sim alívio, isso é o que a gente chama de efeito positivo”, observa.

Scavacini considera a trend interessante, já que as pessoas postam os motivos que fazem com que elas continuem vivendo, como “uma pessoa que ainda quer ver crescer, porque tem um irmão que adora. Se isso for um fator de proteção, é válido. Também é muito bom ver as pessoas falando o que faz com que elas fiquem”.

No entanto, a psicóloga ressalta que os conteúdos podem ser um alerta de sofrimento da pessoa para os familiares e amigos. “Se não é um pedido de ajuda explícito, é a comunicação de que existe um sofrimento. Quando tem a comunicação de um sofrimento, a gente sempre precisa levar isso a sério. Os vídeos também dão para as pessoas próximas a possibilidade de saber que tem alguém próximo a elas que não está bem, porque muitas pessoas não dão essa chance para ninguém, elas não avisam, elas não falam nada”, destaca.

Segundo Scavacini , pode ser que alguns vídeos sejam gatilho para as pessoas que assistem “vai depender do vídeo em si. Agora, se a outra pessoa está muito vulnerável, e você nunca sabe como está do outro lado, pode ter uma série de conteúdos que mexem com o emocional. Pode ter, para algumas pessoas, um efeito gatilho, mas pode ter também um efeito protetor. Do que eu vi, eu acredito que ela é muito mais uma trend com uma vibe positiva do que uma possibilidade de ser gatilho”, comenta.

Dayse Miranda, socióloga, doutora em Ciência Política pela USP (Universidade de São Paulo) e presidente do Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (IPPES), entende que a publicação de vídeos como os da trend não é recomendável, já que eles podem trazer acolhimento ou ser um gatilho.

“Eu não posso dizer qual efeito vai acontecer, mas existem as duas possibilidades. Pode ser que quem está do outro lado, vendo o TikTok, esteja em uma situação de vulnerabilidade menor, olhe isso e ache interessante, como um incentivo para que as pessoas não busquem o suicídio. Por outro lado, a gente já aprendeu em estudos sobre comportamento autodestrutivo que usar uma rede social, como Instagram e Tiktok, para expressar um desejo de se matar pode gerar efeito contágio. Esse efeito contágio vai depender de quem está do outro lado”, ressalta.

“Para mim, que estudo o tema, é assustador, porque ali você não tem uma orientação, você tem um julgamento: ‘Olha só não se mate porque você tem isso e isso para fazer, porque tem mais vida além do seu desejo’. Isso pode soar um julgamento e, em vez de gerar um acolhimento, criar mais pressão, mais angústia e, aí sim, pode ter esse efeito de gatilho. Mas vai depender quem estará no outro lado assistindo”, diz Miranda.

Para Eduardo Humes, médico psiquiatra, chefe do Grupo de Assistência Psicológica ao Aluno (Grapal-FMUSP) e professor colaborador do Departamento de Psiquiatria da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), a trend preocupa porque tem um potencial de banalizar o tema. O médico afirma que é preciso se atentar à maneira como se fala de suicídio.

“O ideal seria não falar dessa maneira banal, fazendo trends. As pessoas podem falar de uma maneira que pode negativamente diminuir o impacto e banalizar aquilo. Falar sobre suicídio tem que ser feito acoplado à fala da necessidade de buscar ajuda em saúde mental”, ressalta.



O ideal seria não falar dessa maneira banal, fazendo trends. As pessoas podem falar de uma maneira que pode negativamente diminuir o impacto e banalizar aquilo. Falar sobre suicídio tem que ser feito acoplado à fala da necessidade de buscar ajuda em saúde mental

Humes entende que, de maneira geral, é positivo quando uma pessoa que está pensando em suicídio se sente acolhida. “Só que é importante que você seja acolhido e parte do acolhimento não é dar um like, é você ajudar a pessoa a sair daquela situação, é você, de fato, ajudá-la a passar por esse sofrimento”, observa.

“Um vídeo desses pode ser, sim, um chamado para ajuda, só que quando você vai fazer um chamado para ajuda, você não vai, de maneira geral, fazer isso em uma trend, ela vai funcionar muito mais para as pessoas falarem sobre uma situação.”

Segundo o psiquiatra, o tempo de uso das redes sociais, por si só, pode piorar os sintomas de isolamento, de depressão e de ansiedade. “E, ainda por cima, você coloca conteúdos que podem ser negativos para pessoas que estão vulneráveis, vai juntando elementos de risco”, alerta.

Miranda ressalta que “não basta só colocar lá, busque ajuda no CVV. Qual o compromisso do profissional que constrói e promove esse impulsionamento, essa possibilidade desse conteúdo chegar em qualquer lugar, em uma rede como essa? Essas ferramentas podem ampliar o alcance desse tipo de conteúdo, que não é adequado, e que vai chegar a milhões de pessoas em forma segundos”.

A Folha procurou a assessoria de imprensa do Tiktok, que afirmou que está avaliando os vídeos dessa trend para entender se eles ferem as diretrizes da comunidade.

ONDE BUSCAR AJUDA

A recomendação dos psiquiatras é que a pessoa busque qualquer serviço médico disponível

CVV (Centro de Valorização da Vida)

Voluntários atendem ligações gratuitas 24h por dia no número 188, por chat, via email ou diretamente em um posto de atendimento físico.

NPV (Núcleo de Prevenção à Violência)

Os NPVs são constituídos por ao menos quatro profissionais dentro das UBSs (Unidades Básicas de Saúde) e de outros equipamentos da rede municipal. Para acolher e resguardar as vítimas, os núcleos atuam em parceria com o Ministério Público, a Defensoria Pública, o Conselho Tutelar, a Secretaria Municipal de Educação e a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social.

Pronto-Socorro Psiquiátrico

Ideação suicida é emergência médica. Caso pense em tirar a própria vida, procure um hospital psiquiátrico e verifique se ele tem pronto-socorro. Na cidade de São Paulo, há opções como o Pronto Socorro Municipal Prof. João Catarin Mezomo, o Caism (Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental) e o Hospital Municipal Dr. Arthur Ribeiro de Saboya.

Mapa da Saúde Mental

O site, do Instituto Vita Alere, mapeia serviços públicos de saúde mental disponíveis em todo território nacional, além de serviços de acolhimento e atendimento gratuitos, além de ações voluntárias realizadas por ONGs e instituições filantrópicas, entre outros. Também oferece cartilhas com orientações em saúde mental.

Informação

Folha de São Paulo

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