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Trilha Transmantiqueira retoma planos de consolidação

A Transmantiqueira, trilha de longo curso que atravessa a serra da Mantiqueira no sentido oeste-leste, com um percurso de quase 1.200 quilômetros de extensão, poderia muito bem ser a versão brasileira de trilhas mundialmente famosas como o Caminho de Santiago, na Espanha, ou a Apalache, nos Estados Unidos. E se (ainda) não é, não será por falta de vontade de um grupo de abnegados voluntários que, desde 2017, se mobilizam aos trancos e barrancos para tornar realidade o sonho de atrair um número cada vez maior de caminhantes dispostos a conhecer mais de perto as belezas de um bioma rico e variado como poucos no planeta.

Cruzando mais de 40 municípios dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, a Transmantiqueira integra pelo menos 30 unidades de conservação e chegou a contar com 600 voluntários ao longo de seu trajeto, voltados para a demarcação, a sinalização e a conservação de cada um dos 20 setores em que se divide o percurso.

Depois da paralisação das atividades durante o período da pandemia de Covid-19, os trabalhos vêm sendo retomados lentamente e, segundo Milton Dimes, integrante da governança do setor 1, Cantareira, que começa em São Paulo, a grande novidade do ano sob o novo governo foi a parceria com o Ministério do Meio Ambiente, que contratou uma consultoria para ajudar no planejamento estratégico da trilha, bem como da Transespinhaço e do Caminho das Araucárias —que formam boa parte da Rede Brasileira de Trilhas de Longa Distância, administrada por Hugo de Castro.

“Eles fizeram um diagnóstico de que essas trilhas teriam um potencial grande de organização”, explica Dimes, “mas como são trilhas longas, complexas, exigem uma quantidade muito grande de pessoas envolvidas”. Teoricamente, em cada setor deveria haver pelo menos uma pessoa diretamente envolvida, o que no caso da Transmantiqueira isso significaria um grupo de 20 pessoas. “Mas nem todos os setores estão com representantes”, lamenta.

A partir da análise da consultoria contratada pelo ministério, com a ajuda de questionários distribuídos aos voluntários e gestores de unidades de conservação, Dimes acredita que pode ter uma sistematização mais objetiva do que já se tentou várias vezes nos últimos anos, “quantas vezes a gente já disse temos que fazer isso, aquilo, aquilo outro, mas não andou”. Então, com a ajuda dos consultores, a ATT (Associação da Transmantiqueira) espera ter um norte definido até março do próximo ano. “Vai ser feito em diversas etapas, e o planejamento vai definir o que atacar primeiro”, explica.

Entre os problemas que a implantação definitiva das trilhas de longa distância enfrenta, tanto Dimes como Castro e Dora Ribeiro, do setor Serras Verdes (que inclui áreas de Campos do Jordão, Monte Verde, Extrema, Lima Duarte e imediações), são unânimes em citar a resistência de proprietários de áreas particulares por onde as trilhas deveriam passar. Conquistar esses donos para a causa é um trabalho nem sempre bem recebido, com exceções como a Serra Fina. “Talvez seja o exemplo mais bem organizado, mais contundente”, conta Dimes.

Como o blog vem acompanhando, os proprietários das terras que dão acesso às trilhas da Serra Fina se organizaram em uma associação e regularam a travessia do que, antes, era uma terra de ninguém sujeita a vandalismos por parte de um volume de visitantes totalmente descontrolado. “As regras impostas pela associação”, explica Dimes, “tenta mitigar e evitar impactos, o que é positivo”.

“Um ponto que é importante ressaltar é que também assinamos um termo de cooperação com a Fundação Florestal de São Paulo”, ressalta Castro. “Fizemos um piloto de implementação conjunta no monumento natural da Mantiqueira Paulista, que foi muito bem sucedido, tanto que a Fundação quer replicar esse modelo para outras unidades, e esse é o modelo com que queremos trabalhar, queremos fazer parcerias, atuar junto com as instituições”, acrescenta.

Os integrantes da ATT (Associação Transmantiqueira) apostam que, uma vez formatado o produto da trilha, o Ministério do Turismo entre na promoção para atrair mais visitantes. Mas, para isso, Ribeiro pondera que é fundamental ter o produto todo empacotado, “tudo arrumadinho, mesmo que seja um produto que exige constante aprimoramento”. Entre as atividades que vão viabilizar esse empacotamento, ela cita a organização de oficinas de divulgação das avaliações da consultoria, previstas para o começo do ano que vem. Isso, explica, viabiliza uma maior mobilização, “e a expectativa é de conseguir mobilizar as pessoas já tendo o plano de trabalho, com as ações prioritárias”.

Entre os planos para o futuro da Transmantiqueira está a implantação de um passaporte que permitirá ao visitante marcar os pontos por onde passar. “Ele não precisará fazer todo o percurso de uma única vez, poderá ir fazendo trechos e marcar no passaporte, até completar o trajeto”, explica Ribeiro, inspirada no famoso Passaporte do Peregrino utilizado pelos trilheiros do Caminho de Santiago e que dá ao Ministério do Turismo da Espanha a noção mais precisa do volume de pessoas que percorrem a trilha anualmente.

“Mas neste momento estamos priorizando a sinalização”, aponta ela. “Porque se a gente não sinaliza, como vai implantar o passaporte, sem ter o caminho bem definido?”, questiona. Então, é hora de pegar a tinta e o estêncil e sair trilha afora marcando o percurso. Quem vamos?


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Folha de São Paulo

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