Saúde

UFRN recupera jurema em artigo sobre uso seguro de DMT inalada

O Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (ICe-UFRN) encaçapou mais um artigo na disputada sinuca da pesquisa psicodélica global: o primeiro estudo clínico com dimetiltriptamina (DMT) inalada por humanos. E, para melhorar, DMT extraída de uma planta tão comum na caatinga quanto pouco conhecida no restante do país e do mundo.

A jurema-preta (Mimosa tenuiflora) é uma árvore de porte médio que viceja no sertão nordestino. Muitos a conhecem só como madeira boa para fazer carvão vegetal e mourões, embora valha muito mais que isso: ela está no fulcro de religiões de matriz ameríndio-africana também elas ignoradas pela maior parte dos brasileiros.

Quem fora do Nordeste tem noção do que seja Catimbó, sobre o qual escreveram Mario de Andrade e Luís da Câmara Cascudo? Ou, mais recentemente, de terreiros de Jurema Sagrada?

Poucos. Desta parte, só nos últimos dias de 2021 ouvi falar da planta com DMT e das práticas rituais com ela, ainda vivas ou ressuscitadas no semi-árido.

Foi um dos melhores presentes já recebidos de Natal, em duplo sentido: da festa cristã e da capital potiguar. Chegou pelas mãos de Dráulio de Barros Araújo, físico e neurocientista do ICe-UFRN que orquestrou o estudo publicado dia 22 de dezembro no periódico European Neuropsychopharmacology, do qual este jornalista participou como voluntário da fase piloto.

O relato da experiência apareceu no caderno Ilustríssima da Folha em 22 de julho de 2022, uma de três partes da grande reportagem “A Ressurreição da Jurema”. As outras duas podem ser encontradas sob os títulos “Cientistas investigam efeito antidepressivo de psicodélico” e “Cultos com alucinógeno da jurema florescem no Nordeste”.

O artigo da semana passada é o primeiro produto do Projeto Dunas, apelidado no laboratório de Araújo e cia. como “DMT de A a Z”. Sua primeira fase envolveu uma parceria com a empresa Biomind, sediada no Reino Unido. O projeto tem por objetivo explorar formas alternativas, no caso a inalação, de administrar DMT para tratar depressão.

O grupo de Araújo, Fernanda Palhano-Fontes e Nicole Galvão-Coelho na UFRN já tinha sido pioneiro, em 2018, com outro teste envolvendo o efeito antidepressivo robusto da dimetiltriptamina, no caso a DMT contida na ayahuasca. Foi o primeiro estudo duplo cego controlado por placebo do gênero, e pôs a ciência psicodélica brasileira em lugar destacado no panorama mundial.

No entanto, o chá também conhecido como daime ou hoasca apresenta inconvenientes para uso clínico. As concentrações de várias substâncias psicoativas são variáveis, conforme o preparo, e o efeito prolongado pode durar várias horas, o que encareceria possíveis tratamentos, tornando-o quase impraticável para uso amplo no SUS, por exemplo.

No presente artigo a equipe se limita a relatar, com base na experiência de 27 voluntários saudáveis (sem depressão), que a DMT pura inalada se mostrou segura e desencadeou efeito psicodélico proporcional a todas as dosagens testadas. A “viagem” propiciada pela inalação é imediata (segundos) e curta (cerca de 10 minutos), o que a faria bem mais promissora para tratamento ambulatorial.

“Nosso estudo é pioneiro na investigação dos efeitos da DMT administrada por via inalada, marcando um avanço significativo na pesquisa psicodélica”, assinala o psiquiatra Marcelo Falchi-Carvalho, primeiro autor do trabalho. “Optamos por uma abordagem menos invasiva e mais acessível, abrindo novos caminhos para o uso terapêutico de psicodélicos.”

“Está muito claro para nós que a DMT pela via inalada exerce um efeito sobre o humor, e ele parece ser positivo, com itens medidos como afeto, excitação, conforto e satisfação.”

Para Fernanda Palhano-Fontes, que supervisionou o trabalho, a investigação de vias não invasivas é o grande diferencial do grupo. Ela informa que mais artigos virão: “Estamos escrevendo um paper com resultados preliminares de seis pacientes com avaliação do efeito antidepressivo até um mês após a sessão de dosagem”. Dados bem animadores, diz.

Todos os participantes do experimento receberam duas aplicações de DMT, sendo a primeira uma quantidade pequena para testar a aceitação da droga inalada pelo voluntário ou voluntária. A segunda era uma dose cheia, que variou de 20 mg a 60 mg.

Em paralelo, a pessoa passava por um eletroencefalograma e preenchia vários questionários e escalas padronizadas sobre a experiência. Enquanto isso, uma enfermeira coletava sangue e saliva para análises que estão em andamento, a cargo de Nicole Galvão-Coelho, e devem gerar novas publicações.

Ninguém sofreu efeitos adversos graves. Só houve alguns classificados como leves: dor de cabeça, palpitação, frio, sudorese, náusea etc., todos passageiros. Em 14 ocasiões os voluntários também deram risadas, anota a meticulosa tabela 2 do artigo. No meu caso, hilaridade só na primeira dose, não na segunda, como narrado na reportagem de 2022.

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AVISO AOS NAVEGANTES – Psicodélicos ainda são terapias experimentais e, certamente, não constituem panaceia para todos os transtornos psíquicos, nem devem ser objeto de automedicação. Fale com seu terapeuta ou médico antes de se aventurar na área.

Sobre a tendência de legalização do uso terapêutico e adulto de psicodélicos nos EUA, veja a reportagem “Cogumelos Livres” na edição de dezembro de 2022 na revista Piauí.

Para saber mais sobre a história e novos desenvolvimentos da ciência nessa área, inclusive no Brasil, procure meu livro “Psiconautas – Viagens com a Ciência Psicodélica Brasileira”.


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Informação

Folha de São Paulo

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