Saúde

‘Um Banho de Vida’ retrata alcoolismo sem heroísmo nem glamour

“Um Banho de Vida”, comédia dramática francesa, acompanha um grupo de homens de meia-idade que, cada um à sua maneira, está meio perdido na vida.

Eles se encontram numa piscina municipal para praticar nado sincronizado, modalidade que parece ter sido inventada para tornar ainda mais evidente o constrangimento daqueles homens dentro dos próprios corpos. Entre eles está Bertrand, deprimido e sem trabalho, e, à frente do grupo, Amanda, uma professora que também tenta se reorganizar depois de uma história de alcoolismo e perdas.

Me reconheci nessa personagem, principalmente quando ela (há um pequeno spoiler em seguida) inventa o amor. Há uma coisa muito particular no alcoolismo, que é inventar histórias, ficar parada em uma estação do passado. A gente inventa para os outros, mas, sobretudo, inventa para si mesma. Cria uma versão mais suportável da vida. Um romance onde não existe romance, uma justificativa onde existe culpa, uma explicação onde existe simplesmente o estrago.

O filme não transforma a recuperação numa sequência de pequenas vitórias. Amanda tem inclusive uma recaída.

Não ouvimos uma trilha bonita indicando que tudo vai ficar bem. Existe vergonha. Existe medo. Existe a pergunta sobre o que aconteceu. Existe a necessidade de voltar para algum lugar onde você possa dizer: aconteceu. No caso de Amanda, ela foi substituída no trabalho por sua antiga colega de nado sincronizado. E, ao se recolher, Amanda volta para uma sala de AA (Alcoólicos Anônimos).

Essa cena me atingiu de um jeito que talvez seja difícil explicar para quem nunca precisou sentar numa sala dessas. Não há heroísmo ali. Não há glamour. Há uma mulher que bebeu de novo e que precisa voltar.

Voltar. Essa palavra talvez seja uma das mais importantes da recuperação.

Voltar para uma reunião. Voltar para casa. Voltar a conversar. Voltar a olhar para as pessoas que você feriu. Voltar a confiar em si. E, às vezes, voltar sabendo que algumas pessoas não vão voltar com você.

Ficar sóbria não obriga ninguém a nos perdoar. Você pode reconhecer o erro, pedir desculpas, reparar o que for possível e, ainda assim, perder uma pessoa. Essa é uma das coisas mais difíceis de aceitar quando a gente para de beber: a sobriedade não muda o passado. Ele continua lá.

É por isso que gosto tanto de “Um Banho de Vida”. O filme não fala apenas de alcoolismo. Fala de pessoas que chegaram a um ponto em que não sabem muito bem o que fazer com a própria vida. Os homens da piscina também carregam seus fracassos. Estão desempregados, deprimidos, separados, frustrados, envelhecendo. Não sabem exatamente para onde ir. Mas se encontram em um lugar em que nenhum deles jamais imaginaria estar: no nado sincronizado.

A princípio, é uma situação engraçada. Homens de meia-idade tentando executar coreografias dentro d’água. Só que, aos poucos, aquilo deixa de ser uma piada. Juntos, eles começam a pertencer a alguma coisa.

Talvez seja essa a parte que mais me toca como alcoólatra em recuperação: pertencimento.


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Informação

Folha de São Paulo

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