Um mês após mortes, Glória Menezes e Laura Cardoso deixam lição sobre envelhecimento: ‘Isso é extraordinário’

As trajetórias de Glória Menezes e Laura Cardoso ganharam um novo significado após a despedida das duas atrizes, que morreram com menos de 24 horas de diferença. Laura Cardoso morreu na noite de 17 de agosto, aos 98 anos, em São Paulo. No dia seguinte, 18 de agosto, Glória Menezes morreu aos 91 anos, no Rio de Janeiro. As duas construíram carreiras de várias décadas na televisão, no teatro e no cinema.
Cerca de um mês depois das perdas, o legado deixado pelas artistas também abre espaço para uma discussão sobre envelhecimento saudável, longevidade, saúde mental, autonomia e propósito de vida.
Em entrevista à CARAS Brasil, a médica Roberta França, especialista em longevidade consciente e saúde mental, explica por que envelhecer com qualidade não está relacionado apenas ao número de anos vividos, mas também à maneira como cada pessoa permanece conectada à própria história.
Para a geriatra, ter um propósito ao longo da vida pode ajudar a preservar não apenas o bem estar emocional, mas também a identidade e o sentimento de pertencimento.
O que o propósito representa durante o envelhecimento?
Segundo Roberta França, falar sobre longevidade exige olhar para além da idade cronológica. Para ela, o mais importante é entender como a pessoa vive os anos que conquistou e quais motivos continuam dando sentido à sua existência.
“Quando falamos em longevidade, precisamos parar para pensar não apenas em quantos anos uma pessoa vive, mas também em como ela vive esses anos e como continua encontrando sentido na vida. Isso é muito importante. Isso é propósito.”
A especialista ressalta que propósito não significa obrigatoriamente continuar trabalhando até uma idade avançada. A ideia está relacionada a manter atividades, relações, interesses e motivos para seguir participando da vida.
“E, quando falamos em propósito, não significa necessariamente continuar trabalhando até uma idade extremamente avançada. Propósito é ter razões para levantar da cama, sentir-se necessário e pertencente, fazer planos, participar, aprender, criar, cuidar de alguém, pertencer a um grupo e, principalmente, continuar tendo algo que nos conecte à vida real.”
Esse envolvimento também pode ter reflexos na saúde mental durante o envelhecimento, já que manter interesses e relações ajuda a preservar a identidade e o sentimento de pertencimento.
“Isso tem um impacto enorme na saúde mental. Quando uma pessoa mantém interesses, vínculos e projetos, ela continua exercitando não apenas as funções cognitivas, mas também preserva sua identidade e o sentimento de pertencimento, que é absolutamente necessário.”
A médica ainda chama atenção para uma diferença importante entre simplesmente viver mais e ter qualidade de vida na velhice.
“Eu costumo dizer que envelhecer bem não é simplesmente continuar vivo. Precisamos continuar participando da própria vida, sendo agentes propulsores da nossa própria existência. E talvez essa seja uma das grandes questões da longevidade.”
Envelhecer não significa perder a própria identidade
A trajetória de Glória Menezes e Laura Cardoso também permite observar como duas artistas permaneceram ligadas à própria identidade profissional e cultural durante décadas.
Laura Cardoso construiu uma trajetória de mais de oito décadas no rádio, teatro, cinema e televisão. Glória Menezes, por sua vez, teve uma carreira de mais de seis décadas e participou de mais de 40 produções televisivas, além de trabalhos no teatro e no cinema.
As duas chegaram à maturidade carregando uma história profissional reconhecida pelo público. Para Roberta França, esse aspecto ajuda a compreender que envelhecimento saudável também envolve a preservação da autonomia e da identidade.
“Não basta termos muitos anos pela frente, vivermos 70, 80 ou 100 anos, se, ao longo do caminho, retirarmos das pessoas tudo aquilo que fazia com que elas se reconhecessem e fossem felizes. Isso não faz o menor sentido.”
A especialista explica que a sociedade precisa rever a ideia de que envelhecer necessariamente significa se afastar dos espaços de participação: “Precisamos construir e discutir exatamente o contrário. Envelhecer deveria significar adaptar-se àquilo que for necessário sem apagar quem você realmente é.”
Ela acrescenta que limitações naturais do processo de envelhecimento não precisam significar o abandono da autonomia.
“Talvez uma pessoa já não consiga realizar determinada atividade da mesma maneira, mas isso não significa que ela não possa mais fazê-la, participar, escolher ou pertencer.”
Quais hábitos ajudam no envelhecimento saudável?
De acordo com a geriatra, não existe um único hábito capaz de garantir uma velhice saudável. O processo envolve diferentes aspectos da vida, desde os cuidados com o corpo até a manutenção de relações sociais e estímulos cognitivos.
“Com certeza, não existe uma fórmula mágica, tampouco um único hábito capaz de garantir um envelhecimento saudável. Isso não é real. A longevidade, como costumo dizer, é um projeto de vida. É uma construção feita diariamente, que envolve corpo, cérebro, saúde mental e relações humanas.”
Entre os cuidados importantes, Roberta destaca a atividade física, o sono, a alimentação e o acompanhamento médico. Também estão entre as recomendações evitar o cigarro e o consumo excessivo de álcool, além de controlar condições de saúde que possam surgir ao longo dos anos.
“A atividade física é fundamental, porque preserva a força muscular, o equilíbrio e a capacidade funcional. Também precisamos cuidar do sono e da alimentação, controlar doenças que eventualmente possam surgir, como hipertensão e diabetes, evitar o cigarro e o excesso de álcool e manter um acompanhamento médico adequado. É importante buscar entender como está a nossa saúde física e não esperar que um sintoma apareça para perceber que precisamos de ajuda.”
Para a médica, entretanto, cuidar do corpo é apenas uma parte da construção da longevidade saudável.
Cérebro também precisa ser estimulado na velhice
O envelhecimento envolve ainda a necessidade de manter o cérebro ativo. Aprender, conversar, tomar decisões e participar de atividades sociais são exemplos citados pela especialista como formas de estimular as funções cognitivas.
“Mas existe uma parte dessa conversa que muitas vezes acabamos esquecendo: o cérebro também precisa de vida, precisa ser estimulado. Aprender coisas novas, conversar, conviver, tomar decisões, resolver problemas, ter responsabilidades, manter a curiosidade pela vida e participar socialmente são formas importantíssimas de estimulação cognitiva.”
Nesse sentido, os vínculos sociais também ocupam um papel importante no processo de envelhecimento com qualidade.
“E os vínculos talvez sejam uma das partes mais importantes dessa história. Nós somos seres sociais, não nascemos para viver sozinhos. Ter pessoas com quem conversar, compartilhar histórias e experiências, pedir ajuda e também sentir que podemos ajudar alguém faz parte de um envelhecimento saudável.”
Autonomia é parte essencial da longevidade
Ao falar sobre envelhecimento, Roberta França defende que a avaliação da saúde de uma pessoa idosa não deve ficar restrita aos exames médicos.
“Por isso, quando penso em longevidade, gosto de ir muito além da pergunta: “Como estão os seus exames?”. Acho que existem perguntas igualmente importantes: Como está a sua funcionalidade? Como você está vivendo com a idade que tem? Como estão os seus vínculos? Quem está sentado com você à mesa? Você continua tomando suas próprias decisões? Continua fazendo planos? Continua tendo sonhos? Continua tendo autonomia sobre a sua vida?”
Para a geriatra, essas questões ajudam a ampliar a compreensão sobre o que significa envelhecer bem. “Porque viver mais é importante, mas continuar sendo protagonista da própria história é absolutamente fundamental.”
O legado de Glória Menezes e Laura Cardoso
Glória Menezes e Laura Cardoso atravessaram diferentes fases da televisão brasileira e permaneceram como referências da dramaturgia nacional. As duas, inclusive, trabalharam juntas em diferentes momentos da carreira, desde os primeiros anos da televisão até produções posteriores. Entre os trabalhos compartilhados estão Um Lugar ao Sol, Há Sempre o Amanhã, Rainha da Sucata e Senhora do Destino.
Para Roberta França, observar a trajetória das duas artistas também permite refletir sobre a importância de preservar a identidade durante o processo de envelhecimento.
“Diante de tudo o que falamos até aqui, quando pensamos na trajetória de Glória Menezes e de Laura Cardoso, fica uma reflexão muito bonita sobre aquilo que eu, Roberta, considero absolutamente essencial no envelhecimento: nós não precisamos deixar de ser quem somos simplesmente porque envelhecemos”
A médica reforça que a passagem do tempo não precisa apagar a história construída por cada pessoa.
“Elas são mulheres que atravessaram décadas exercendo sua arte, construindo relações, deixando marcas e mantendo uma identidade que não desapareceu com o passar dos anos. Muito pelo contrário. Elas foram capazes de mostrar que a idade é apenas um número.”
A especialista ainda chama atenção para o risco de associar a velhice automaticamente à retirada da vida social.
“Isso é muito importante porque ainda vivemos em uma sociedade que frequentemente associa o envelhecimento à retirada: a pessoa se retira dos palcos, do trabalho, das responsabilidades, da tomada de decisões sobre a própria vida e dos espaços sociais. Muitas vezes, retiram até mesmo a sua voz. E isso é algo muito sério.”
Ao completar cerca de um mês das mortes de Laura Cardoso e Glória Menezes, a reflexão sobre o envelhecimento ganha força justamente a partir das histórias que elas deixaram. Mais do que a idade alcançada, suas trajetórias mostram a dimensão de uma vida construída por trabalho, vínculos, escolhas e participação cultural.
“Glória e Laura atravessaram gerações e permaneceram reconhecidas por tudo aquilo que construíram. O legado delas nos lembra que uma vida longa não é feita apenas dos anos que acumulamos, mas também das histórias, dos vínculos e do significado que conseguimos colocar nessa trajetória.”
E, para Roberta, esse é um dos principais significados da longevidade consciente:
“E essa é uma das imagens mais bonitas que eu tenho da longevidade consciente: chegar à velhice e ainda ser reconhecido pela própria história, sabendo que você continua pertencendo a ela. Isso é legado. Isso é extraordinário.”
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