Saúde

“Um quebra-cabeça de 500 peças”, diz brasileiro de transplante histórico

Cresci conversando sobre medicina. Sempre tive vontade de trabalhar na área. Meu pai também é nefrologista — e um apaixonado por inovação e pesquisa. Então, depois de me formar na Universidade Federal do Paraná, vim para os Estados Unidos fazer a minha especialização. Estava considerando nefrologia mesmo, mas passei pelo transplante e fiquei maravilhado. Era uma especialidade em que você via, da noite para o dia, os pacientes que estavam sofrendo em diálise recebendo um rim novo e, depois, indo para casa. Uma melhora inigualável. Nessas subáreas da medicina, também adorei conhecer a imunologia, porque, com o conhecimento sobre o sistema imune, é possível revolucionar alguns tratamentos, como o do câncer.

Bom, eu estava muito exposto à pesquisa e fiquei interessado em saber como manipular a imunidade para aprimorar o campo dos transplantes. Primeiro, a ideia era desenvolver melhores drogas para evitar a rejeição de órgãos. Segundo, trabalhar para diminuir ou criar maneiras de superar a escassez de órgãos para transplante. Estava envolvido em mais de vinte projetos no laboratório e trabalhando com mais de dezoito pessoas. Metade brasileiros, estudantes e médicos que estão fazendo residência aqui.

Nos últimos três anos, os resultados de xenotransplantes, os transplantes entre espécies diferentes, começaram a ter bons resultados em primatas não humanos devido à combinação entre novas drogas imunossupressoras e o acesso aos porquinhos corretos. Mas a grandiosidade de ter sucesso nesse procedimento em um humano não era algo em que eu e a equipe estávamos pensando. Foi feito um trabalho similar a outros estudos e avisamos ao Massachusetts General Hospital que não queríamos cobertura da mídia, para não estragar a concentração do time.

Foi um processo muito longo, mais de um ano para a seleção do paciente, até receber o consentimento da agência reguladora americana, a FDA. Eram mais de vinte páginas de riscos conhecidos e desconhecidos ao transplantar o rim de um porco para um ser humano. Foi bem intenso no último mês. Uma vez que o paciente foi identificado, mandamos um protocolo para a FDA e, durante quatro semanas, dedicamos 90% do nosso tempo ao projeto.

O dia da cirurgia, 16 de março, foi escolhido em um fim de semana para não ter pessoas ao redor. A retirada do órgão ocorreu em outra localidade e a cirurgia se passou como a gente tinha imaginado. Quando o rim do porco é preparado para o transplante, ele fica pálido, amarelo, e o órgão tem que apresentar um tom de vinho. Ao conectá-lo à artéria e à veia do paciente, o sangue começou a entrar e ele mudou de cor. Imediatamente, começamos a ver urina sendo produzida pelo rim. Todo mundo começou a bater palmas. Foi um momento emocionante.

Era uma cirurgia complicada, porque o paciente tem diabetes e doença vascular. Foi como montar um quebra-cabeça de 500 peças. Ele voltou para casa e já passou a parte mais difícil, mas, claro, há incertezas. Mesmo assim, vamos monitorá-lo com atenção para obter o maior conhecimento possível e fazer um estudo com mais pacientes.

No fundo, gostaria que a notícia do transplante ajudasse a aumentar a prevenção da doença renal. Ela costuma ser diagnosticada tardiamente e o transplante é o tratamento terminal, quando o órgão não funciona mais. O que aconteceu foi uma explosão. Sabia que o que estava fazendo era significativo, porque pode revolucionar o tratamento das pessoas com insuficiência renal. Estou cauteloso, mas espero que se torne um tratamento aceito no futuro como uma alternativa aos pacientes que não encontram um doador humano.

Leonardo Riella em depoimento dado a Paula Felix

Publicado em VEJA de 12 de abril de 2024, edição nº 2888

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