Saúde

Vai encontrar um familiar com Alzheimer neste Natal? Interaja com ele

Nestas festas de fim de ano, muitos de nós vamos encontrar familiares que têm algum tipo de demência, como o Alzheimer. Além da perda de memória, especialmente para fatos recentes, pessoas nessa condição também apresentam dificuldade para acompanhar as conversas e podem ficar confusas em ambientes com muito barulho. Por isso, sem saber como agir, muitas vezes amigos e parentes acabam isolando esse familiar. Mas isso é um erro.

A melhor estratégia é interagir, falando sempre de forma clara e nunca muito rapidamente. Dizer o seu nome e o parentesco também é importante, explica Thais Bento Lima da Silva, gerontóloga do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento do HC-FMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e docente do curso de bacharelado em gerontologia da EACH-USP (Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo).

“É essencial acolher o indivíduo com demência e auxiliá-lo com pistas e informações que possam direcioná-lo para a realidade. Relembrar qual é o papel social que cada um exerce na família, sempre cumprimentar dizendo o nome e o vínculo que apresenta. Em um quadro demencial, como na doença de Alzheimer, informações relacionadas aos nomes de familiares podem estar prejudicadas, e isso pode deixar a pessoa constrangida e desanimada para iniciar e manter conversas nos eventos sociais”, diz.

Outro aspecto importante, ressalta a gerontóloga, é informar onde o evento está acontecendo para evitar desorientação. “Se não for na casa da pessoa com demência, muitas vezes poderá haver alterações comportamentais decorrentes do estranhamento da mudança de ambiente”, afirma.

Minha conversa com Thais começou após eu receber uma mensagem da colega Cláudia Collucci, repórter especial da Folha. Na Redação, ela me encaminhou o vídeo que compartilho abaixo, uma propaganda de Natal da Chevrolet, que mostra uma neta interagindo com a avó, aparentemente com Alzheimer.

Apesar de se tratar de uma peça publicitária, Cláudia já começou me avisando: “Você vai se emocionar”. Depois dos 5 minutos de comercial, virei para ela com os olhos cheios de lágrimas e respondi: “É lindo”.

Mas, claro, como o ímpeto de jornalista fala mais alto, na hora pensei: Faz sentido? E enviei o vídeo para a Thais.

O vídeo está com legendas em inglês, mas mesmo quem não entende a língua consegue compreender o contexto. Em um encontro de Natal em família, uma avó está sentada sozinha em uma poltrona. Com o olhar perdido, ela não responde às tentativas de interação das crianças. Até que uma neta mais velha ouve o avô dizendo que ela tem “dias bons e dias ruins”. Então a neta se aproxima e diz: “Vamos fazer com que hoje seja um dia bom”.

Ela leva a avó para dar uma volta no antigo Chevrolet Suburban da família, coloca a música “Sunshine on My Shoulders”, do cantor americano John Denver, e vai mostrando os lugares pelo caminho: a casa onde a avó nasceu, o colégio em que estudou, o cinema que elas frequentavam… Até que as memórias vão voltando, elas cantam juntas e a avó fica mais consciente no momento presente.

Sobre a minha pergunta para a Thais, se essa estratégia pode mesmo funcionar, a resposta é sim.

“A estratégia utilizada pela neta é muito utilizada na área de estimulação e reabilitação cognitiva. É chamada terapia de reminiscência e trata-se de uma abordagem terapêutica centrada na pessoa, valorizando a sua dimensão humana e a sua trajetória de vida, mobilizando os recursos cognitivos que ainda estão preservados. Dessa maneira, ao tentar resgatar memórias vividas em longo prazo, que normalmente permanecem intactas, a terapia de reminiscência contribui para a redução da experiência de falha da memória”, conta.

Thais explica que os estudos científicos da área de reabilitação cognitiva destacam que é possível resgatar memórias por meio de imagens associadas a eventos do passado, trazendo aquilo que se conserva na memória.

Uma maneira de trazer essas lembranças de volta é mostrando fotografias antigas, objetos que tenham um significado especial ou escutando músicas que a pessoa gosta.

“Na prática clínica, observamos que ao trabalharmos com recursos que envolvem a história de vida do indivíduo, conseguimos estabelecer conexões mais sólidas e ao mesmo tempo proporcionamos tranquilidade e acolhimento, pois a pessoa se sente reconhecida naquele diálogo em que a sua vida está sendo discutida”, afirma.

É como se, ao resgatar lembranças vividas nas pessoas que têm Alzheimer, construíssemos um fio condutor para que ela consiga se conectar com a sua realidade, com o seu eu, e com quem ela é no mundo, observa Thais.

“Também é importante destacar que nos estágios da doença de Alzheimer, a memória autobiográfica é um dos últimos tipos de memória a serem prejudicados. Quando se pensa em recursos de estimulação para potencializar a qualidade de vida, acaba sendo uma habilidade cognitiva que apresenta boa resposta e boa conexão entre passado e presente para a pessoa com doença de Alzheimer”, diz.

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Informação

Folha de São Paulo

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