Tecnologia

Vale do Silício se divide sobre regulação de IA – 15/09/2026 – IA


San Francisco

| The New York Times
Foram necessárias apenas algumas horas no último final de semana para que figuras conhecidas do Vale do Silício reagissem aos apelos das principais empresas de inteligência artificial para desacelerar o desenvolvimento da tecnologia e regulamentá-la de forma mais rigorosa.

No sábado (12), Dario Amodei, CEO da Anthropic, afirmou que a IA estava avançando rápido demais para que os pesquisadores continuassem a desenvolvê-la com segurança. Ele propôs que auditores independentes monitorassem o trabalho de segurança dos laboratórios de IA e que órgãos reguladores permitissem que esses laboratórios atuassem em conjunto para coordenar padrões de segurança.

À esquerda, homem de perfil com óculos, terno azul e gravata vermelha fala gesticulando com a mão direita. À direita, homem com microfone de cabeça, terno azul e camisa branca fala com a mão esquerda próxima ao rosto.

Montagem de fotos do CEO da Anthropic, Dario Amodei (à esq.) e do CEO da OpenAI, Sam Altman (à dir.); empresas estão na dianteira da IA no mundo


Alex Wong e Jung Yeon-je – 25.jul.23 e 4.fev.25/AFP

Embora parecessem divergir sobre o que deveria ser feito a respeito, Sam Altman, CEO da OpenAI; Elon Musk, CEO da SpaceX; e Demis Hassabis, presidente do Google DeepMind, disseram concordar quanto à necessidade de um ritmo mais lento.

Outros líderes do setor de tecnologia, porém, questionaram as motivações de Amodei e se ele estaria exagerando os riscos da IA para dificultar a concorrência de outras empresas com as líderes do setor.

“Parem de fingir que a motivação para desacelerar é puramente altruísta”, afirmou David Sacks, assessor de tecnologia do presidente Donald Trump e ex-responsável da Casa Branca por IA e criptomoedas, em uma publicação nas redes sociais.

As críticas aos apelos por uma desaceleração refletiram uma profunda divisão: de um lado, os que acreditam que o governo deve fiscalizar a IA; de outro, os que consideram que a intervenção acabaria com a concorrência.

As preocupações com a segurança da IA ganharam mais atenção nas últimas semanas, à medida que surgiram detalhes sobre como uma IA da OpenAI, principal concorrente da Anthropic, agiu por conta própria e invadiu outra empresa.

Há alguns dias, um dos próprios funcionários de Amodei pediu demissão e iniciou uma campanha pública de pressão para chamar a atenção para os riscos da IA.

Vários líderes do setor de tecnologia, porém, incluindo alguns que têm assessorado o governo Trump em políticas para o setor, acreditam que essas preocupações são exageradas.

Sacks, crítico frequente de Amodei, questionou por que as empresas de tecnologia precisavam da intervenção do governo para desacelerar o desenvolvimento de suas IAs, quando nada as impedia de fazer exatamente isso —sobretudo enquanto perseguiam a meta ambiciosa de criar a chamada superinteligência, ou uma IA muito mais inteligente que os seres humanos.

“A maneira mais fácil de não criar uma superinteligência é vocês concordarem em não criá-la”, acrescentou. “Exigir a adoção do modelo regulatório de sua preferência como condição para isso parecerá uma chantagem contra o público e o sistema político.”

Satya Nadella, CEO da Microsoft, afirmou em uma publicação nas redes sociais no domingo que sua empresa apoiava propostas como a adoção de auditores independentes e “esforços mais amplos para desenvolver mecanismos que façam disso algo além de mera retórica”.

“Também precisamos acelerar e disseminar os benefícios da IA, para serem amplamente distribuídos entre países, comunidades e empresas”, disse Nadella. “O fundamental é que isso não pode ser controlado por um pequeno grupo de entidades, mas deve contar com ampla representatividade”, acrescentou.

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Há anos, as pessoas mais preocupadas com a segurança da IA costumam ser executivos e funcionários de laboratórios de IA, como a Anthropic. Eles afirmam com frequência que estão desenvolvendo IA porque o progresso é inevitável e porque são os mais capacitados para criá-la com segurança. Isso expôs esse grupo de desenvolvedores a críticas.

“Um pequeno grupo de empresas de IA do Vale do Silício, selecionadas e dominantes no mercado, deveria ter o direito de definir as regras e os padrões de segurança de uma tecnologia que marcará uma geração para o mundo inteiro?”, questionou Aidan Gomez, CEO da startup canadense de IA Cohere, no domingo.

“Esses oligopólios agora pedem que as regras de concorrência sejam flexibilizadas e que lhes seja permitido ditar as condições para os demais”, acrescentou no texto. “Um lobo em pele de cordeiro, um cartel, seja qual for o nome.”

Amodei sugeriu em seu ensaio que as empresas de IA aceitassem o escrutínio de seus produtos por “avaliadores integrados” de organizações terceirizadas. Os críticos, porém, questionaram se a Anthropic mantinha vínculos estreitos demais com duas organizações mencionadas por Amodei, as entidades sem fins lucrativos METR e Redwood Research.

“Se vamos regulamentar, não pode ser ninguém que eles conheçam, e eles não podem redigir as regras”, disse Bill Gurley, investidor de capital de risco e crítico ferrenho das principais empresas de IA.

Mesmo antes das declarações de Amodei, alguns no Vale do Silício já argumentavam que as preocupações dos laboratórios de IA com a segurança atendiam a interesses próprios.

Em uma conferência realizada em San Francisco na semana passada, Jensen Huang, CEO da Nvidia, afirmou que os laboratórios estavam enfatizando essas questões porque planejavam lançar produtos de cibersegurança.

“Que maneira melhor de criar demanda do que criar um problema? Quem não gostaria que seu mercado ficasse histérico com seu produto e formasse filas virando a esquina para comprá-lo?”, afirmou Huang.

No sábado, Clément Delangue, CEO da Hugging Face, empresa invadida pela tecnologia da OpenAI, afirmou em uma publicação nas redes sociais que a segurança da IA não seria “resolvida a portas fechadas por um pequeno grupo de laboratórios de ponta”.

A Nvidia concordou em comprar a Hugging Face no início deste mês por US$ 12,9 bilhões.

Vários parlamentares em Washington pareceram compreender as preocupações de Amodei. Mas, assim como muitos no Vale do Silício, eles parecem relutantes em apoiar a regulamentação.

“Se os desenvolvedores de IA quiserem desacelerar o desenvolvimento de seus produtos, são livres para fazê-lo”, afirmou o senador John Cornyn, republicano do Texas, em uma publicação nas redes sociais no domingo. “Uma coisa é certa: seus concorrentes não farão isso, incluindo os adversários de nosso país.”

Durante uma entrevista coletiva no domingo, na Irlanda, Trump afirmou que os Estados Unidos estavam “à frente da China em IA” e que queria “manter essa posição”.

“Podemos estabelecer salvaguardas, podemos fazer isto e aquilo, mas acho que há muitas forças negativas levantando essa questão”, disse Trump. “Elas estão falando de coisas que não vão acontecer, mas quem vencer na IA vence.”

Folha de São Paulo

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