Saúde

Você é mais livre quando entende que não tem que ser o melhor, diz psiquiatra

Depois de ter sido chamado para dar palestra em um evento sobre “alta performance para a vida”, o psiquiatra Daniel Martins de Barros decidiu escrever um livro para questionar o desgaste gerado pela cultura de buscar ser melhor que os outros.

“Quando você entende que não ‘tem que’ (ser o melhor), você se torna mais livre”, diz Barros, professor colaborador da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e médico do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas.

Ter a opção de não buscar ser o melhor no que se faz não é privilégio de parte da população? Barros considera que não.

“Se não, estaríamos dizendo que a liberdade é um privilégio, que parte da população deveria ser impedida de escolher ser feliz com menos, por exemplo.”

Mas isso vale para todos, na prática? Um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), por exemplo, apontou que funcionárias tinham, em média, 14% menos probabilidade de serem promovidas do que os seus colegas homens, mesmo com desempenho superior e menos propensas a pedir demissão.

Se pessoas com menos privilégios decidirem não competir pelos melhores postos, o mercado de trabalho e a política não continuariam com baixa diversidade, dominados por homens, brancos, heterossexuais?

Barros reconhece que “uma pessoa que tem menos privilégios evidentemente vai ter que se esforçar mais para alcançar alguma coisa que a pessoa com mais privilégios alcança com menos esforço”, mas reforça que seu ponto passa pelo sofrimento causado pelo que chama de lógica perversa da competição desenfreada.

“Se ela fica presa na lógica de que só o pódio é que tem valor, isso aumenta ainda mais o sofrimento, o desgaste. Porque por mais que você se esforce, pódio só tem para um. E aí o que acontece quando você não chega no pódio? Você entende que não tem valor”, diz o autor de “Viver é melhor sem ter que ser o melhor” (Sextante, 2023).

Leia a seguir os principais trechos da entrevista, editada por concisão e clareza.

Por que ‘Viver é melhor sem ter que ser o melhor’?

Porque é uma vida mais livre. O ‘ter que’ é uma imposição, é dada de fora. Quando você entende que não ‘tem que’, você se torna mais livre. Aí você pode até querer ser o melhor mas porque você quer, e não porque tem alguém mandando.

Quais são os efeitos no indivíduo da cultura de buscar ser o melhor no que se faz?

A cultura em que estamos imersos não é de ‘faça o seu melhor’ apenas. No fundo, é uma cultura de ‘seja melhor que os outros’. Você tem que ser o campeão. E isso é muito desgastante, porque não dá para todo mundo ser campeão em tudo. Na maioria das vezes, vamos ficar na média. Então você coloca uma imposição irreal nas pessoas.

É claro que não se chegou a isso por acaso. A ideia por trás é: se estimularmos essa competição e premiarmos o melhor, vai todo mundo dar mais de si e vamos construir uma sociedade melhor, alcançar coisas maiores e melhores. Quando pensamos coletivamente, como sociedade, a maioria das pessoas não vai dar o máximo de si, não vai fazer coisas mais brilhantes, mas vai sofrer com essa imposição e com o desgaste de estar buscando alguma coisa que é inalcançável. Isso tem bastante a ver com nosso cansaço.

Muitas vezes, a busca pela excelência ocorre em atividades que são hobbies…

O gatilho para esse livro foi um evento sobre alta performance para a vida, para o qual fui chamado para falar. Não era para o trabalho —era sobre como usar o sistema de alta performance nos relacionamentos, na vida pessoal. Pensei: ‘para onde estamos indo?’

Essa coisa da alta performance, de ser o melhor, vem dessa lógica da produtividade. Mas isso vai contagiando a sociedade de um jeito que de repente você tem que ser marido de alta performance, mãe de alta performance, filho de alta performance. Não faz sentido.

Eu fazia natação e pedi para minha professora para fazer musculação. Aí ela disse: ‘qual é o seu objetivo aqui na musculação?’. Eu falei: ‘meu objetivo é adiar a morte’. Aí eu fui correr também, adorei correr e disse: ‘como você já sabe, meu objetivo é ficar saudável, não quero fazer maratona, correr rápido ou correr montanha’. Não tenho essa de tudo ser movido por objetivo ou por grandes realizações.

Ao mesmo tempo, você discute o que podem ser as consequências de não viver buscando a excelência. Sem isso, onde estariam as grandes descobertas da ciência, as obras fantásticas em várias áreas da arte?Também quero a cura das doenças, também quero as obras de arte. Tem valor na medalha de ouro, na nona sinfonia. Só que não é o único valor, não é a única coisa que deve ser prezada pela sociedade.

Vai ter gente que vai dizer: já entendi que viver é melhor sem ter que ser o melhor, mas não ‘tenho que’ ser, eu ‘quero ser’, quero dar o sangue, abrir mão de tudo, me sacrificar em função dessa descoberta. Mas isso não pode ser uma obrigação. Daí que vem meu raciocínio de que é uma lógica tortuosa que transforma ‘medíocre’ em ofensa.

Porque medíocre é o que tá na média. Por que estar na média é feio se todo mundo está aqui? Como a gente valoriza exclusivamente a vitória —a única coisa que tem valor é o lugar mais alto do pódio—, se você não está no lugar mais alto do pódio, você não tem valor, logo você é medíocre e logo você é ruim.

Temos alergia à média.

É um privilégio de parte da população ter a opção de não buscar ser o/a melhor?

De forma nenhuma. Essa sensação vem de confundirmos caprichar, fazer bem feito, fazer o nosso melhor, com a competição desenfreada de termos que ser melhores que os outros. São coisas separadas. Se não, estaríamos dizendo que a liberdade é um privilégio, que parte da população deveria ser impedida de escolher ser feliz com menos, por exemplo.

Um estudo do MIT, por exemplo, apontou que funcionárias tinham, em média, 14% menos probabilidade de serem promovidas do que os seus colegas homens mesmo com desempenho superior e menos propensas a pedir demissão. Se pessoas com menos privilégios decidirem não competir pelos melhores postos, não continuaríamos com um mercado de trabalho e uma política dominados por homens, brancos, heterossexuais?

Essa pergunta pressupõe que a promoção é o valor a ser alcançado, percebe? Quando meu ponto é lembrarmos que existem outros valores além da promoção. Ganhar mais pode não ser mais importante do que passar mais tempo com o filho, por exemplo, independente da faixa salarial que estejamos discutindo.

Não defendo que as pessoas deixem de competir, só acredito que elas não devam fazer isso de forma automática, irrefletida, adotando um valor que pode não ser o delas. Acho que dignifica o ser humano saber que a promoção não é necessariamente mais valiosa do que saúde, família etc. Pode ser sua escolha, mas deve ser uma escolha livre.

E quando pensamos no dia a dia, uma pessoa que não vem de uma família que tem dinheiro, que não seja um homem branco, que sente que precisa trabalhar mais para se destacar… É um luxo poder não buscar a excelência?

A ideia do Aurea Mediocritas —cito no livro o lema árcade que foi resgatado da filosofia grega— não é um apelo ao ‘tanto faz’. Não é uma licença para fazer de qualquer jeito. São duas coisas separadas —e é tão misturado na nossa cabeça que às vezes achamos que é a mesma coisa. Tem um aspecto que é: ‘vou fazer meu melhor, vou caprichar, porque isso é recompensador, porque isso faz do mundo um lugar melhor, faz eu me sentir realizado’. Você não está sendo negligente, só não está entrando na lógica competitiva de ‘vou fazer isso porque quero ganhar dos outros, porque preciso ser melhor que ele’.

Existia um sistema que muitas empresas usavam, que caiu em desuso, que é o seguinte: você colocar os funcionários anualmente em percentil, aí os 25% melhores vão ser promovidos e os 25% piores vão ser demitidos. Nessa lógica, você mata a cooperação em um departamento, porque não basta você fazer o seu melhor —se você não for melhor que o outro, vai ser punido. Então começaram a haver boicotes aos colegas. Acho que essa não é a lógica.

Tem que fazer bem feito, só que você não (deve) ficar preso por uma lógica perversa, porque uma pessoa que tem menos privilégios evidentemente vai ter que se esforçar mais para alcançar alguma coisa que a pessoa com mais privilégios alcança com menos esforço. Mas se ela fica presa na lógica de que só o pódio é que tem valor, isso aumenta ainda mais o sofrimento, o desgaste. Porque por mais que você se esforce, pódio só tem para um. E aí o que acontece quando você não chega no pódio? Você entende que não tem valor.

Você questiona sobre o que as pessoas abrem mão para conseguir ser o melhor…

Se eu pudesse resumir em um recado, não é nem o de não ter que ser melhor que os outros —você pode querer e pode ser legítima sua busca. A minha provocação é se isso é o que você quer. Porque essa coisa de ser o melhor é uma coisa que te falaram que você quer e você nem parou para pensar.

Quem disse que você não pode ter uma carreira menos ascendente e preferir passar tempo com os filhos ou ficar na praia? Quem disse que todo mundo precisa ganhar mais dinheiro? No fundo, a pergunta é: o que você quer? E por que isso é tão provocativo? Porque a sociedade é construída para não pararmos e pensarmos nessas coisas.

Ser bom o suficiente é se acomodar?

É. Não se satisfazer com um bom o suficiente é viver insatisfeito, porque sempre pode ser melhor. Sempre você vai poder achar um parceiro que talvez achasse mais bonito, mais inteligente. Sempre pode achar um emprego que talvez você ganhasse mais e trabalhasse menos. Sempre pode encontrar uma cidade mais amigável. Não tem fim. Nossa imaginação é tão rica que independente de onde esteja, com quem esteja, você sempre consegue criar um cenário mental que seria melhor. E se você vive atrás disso, não se acomoda, nunca chega lá e nunca se satisfaz.

Tem pesquisas que mostram que as pessoas que querem sempre mais, sempre o melhor, são pessoas que gastam mais tempo e energia atrás de opções que, no fundo, lhes trazem menos satisfação. Quanto mais opções você tem, menos satisfeito você fica. O melhor possível não existe, é uma busca fútil.

Informação

Folha de São Paulo

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