Política

47% das mulheres chefes de família dizem votar em Lula; 27%, em Flávio, diz Datafolha

No alto de uma colina na Granja Werneck, na periferia de Belo Horizonte, o pessoal trabalhava duro no fim de agosto nas obras de um centro comunitário na ocupação Vitória. A cada instante, a mineira Cenir Aparecida da Silva era chamada a deliberar sobre os detalhes da construção.

Cenir é mestre de obras. Dos seus 58 anos, passou os últimos 28 em canteiros. “Comecei quando minha filha mais nova tinha três meses”. Ela é mãe de quatro filhos, todos já formados, e avó de seis netos. Sempre foi mãe solo, por escolha, e hoje mora sozinha.

Ao longo da carreira, ela conseguiu se impor num ambiente de predomínio masculino. Não foi fácil. Já levantou a voz para silenciar um que falava que iria “traçá-la”. Em outra ocasião, foi apalpada nos seios. “Dei na cara dele na hora. Ficou resolvido.”

Cenir mantém o bom humor diante dos desafios que as mulheres enfrentam no mercado de trabalho: jornadas duplas ou triplas somando trabalho remunerado com cuidados com os filhos e a casa, misoginia, salários menores, maior risco ao desemprego e à informalidade.

A Folha percorreu diferentes cidades do país para conversar com mulheres de classes, raças e religiões diversas para a série Voto das Mulheres. Isso porque as mulheres são maioria do eleitorado e maioria entre eleitores indecisos, o que torna o voto delas central num pleito competitivo.

Para a série, foram ouvidas apenas mulheres que são chefes de família. Em 2012, o país tinha 21 milhões de mulheres nessa situação (35% dos lares). De lá para cá esse número mais do que dobrou: chegamos a 42,1 milhões, de acordo com dados da Pnad, atualizados para a Folha pela pesquisadora Janaína Feijó, da FGV.

Esses dados de 2026 indicam que 52,4% das casas têm uma mulher como referência financeira —negras e com baixa escolaridade têm maior representatividade nesse grupo. Foi a partir de 2022, último ano do governo Jair Bolsonaro (PL), que a proporção de mulheres referência da casa superou a dos homens.

“A gente observa que aquele arranjo tradicional familiar foi perdendo espaço no cenário brasileiro”, diz Janaína Feijó, da FGV. “Há uma evolução na percepção de que cada arranjo familiar decide o que é melhor para si.”

Lula (PT) tem vantagem sobre Flávio Bolsonaro (PL) no eleitorado feminino, segundo pesquisa Datafolha mais recente. Entre elas, ele tem nove pontos percentuais à frente do segundo colocado. Entre os homens, Flávio tem dois pontos a mais do que Lula.

Dados inéditos do instituto mostram que a vantagem do petista é maior especialmente entre mulheres chefes de família: Lula marca 47% das intenções de voto nessa parte do eleitorado, contra 27% de Flávio —a margem de erro para as chefes de família (30% da amostra) é de quatro pontos percentuais, para mais ou para menos.

Cenir vai votar em Lula (PT). “Sempre fui mais PT por causa da maneira que lidam com as pessoas”. Ao se referir a Flávio, diz que ele representa o “machismo e a arrogância”.

Apesar de serem maioria da população, mulheres têm menor participação no mercado de trabalho. A proporção daquelas ocupadas é de 53,5%, contra 73% dos homens, segundo o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher de 2026, do governo federal.

No segundo trimestre deste ano, a taxa de desemprego entre as mulheres era 1,8 ponto maior do que a dos homens —já foi de 3,6 pontos em 2018 e passou para 4 em 2022. Homens ainda têm rendimento salarial médio 25% maior. Os dados são da Pnad.

Apesar desses indicadores, as mulheres são mais escolarizadas. Enquanto 19% das eleitoras chegaram ao ensino superior, o percentual é 14% entre os homens.

A professora Ana Fava, da UFABC (Universidade Federal do ABC), avalia que as desigualdades de gênero no mercado de trabalho passam pela ideia de que determinadas profissões não são para mulheres, pelas dificuldades de promoção nas empresas e pela crença de que a maternidade é prejudicial ao desempenho.

Fava explica que, em países com menor desigualdade de gênero, há melhor equidade nos cuidados e tarefas. “A política também tem papel importante na mudança cultural”, diz.

Cenir diz nunca ter percebido que recebia salário menor que os colegas. Ela fica com os olhos marejados quando fala da alegria de ver o que antes era tijolo e cimento virar um prédio bonito, o lar de alguém. O sonho dela passa por isso: uma casa simples e aconchegante, paredes brancas e janelão aberto, ao lado de um lago cercado de verde num local seguro.

Quase um terço dos lares comandados por mulheres são de casadas com filhos. É o caso da pernambucana Jacqueline Menezes, 44, que sustenta a família com a venda de empadões, bolos e doces, em Olinda, na região metropolitana de Recife.

Mãe de três filhos, Jack não para. Enquanto conta sua história, calcula ingredientes, fala dos planos para novos fornos, refrigeradores e expansão da equipe.

Ela já foi beneficiária do Bolsa Família. Há cerca de quatro anos, deixou o programa. Conseguiu abrir uma pequena loja, mas fechou por causa dos custos. “É muito imposto”, diz. “Não temos apoio ao empreendedor, muito menos às empreendedoras.”

Seu sonho é conseguir abrir uma nova loja. Já tem no celular a paleta preferida de cores, o verde e o rosa, e o jeitinho que tudo deve ser.

Uma amiga também empreendedora a apresentou a Renan Santos (Missão), e ela se empolgou. “Eu tento olhar o que eles estão oferecendo pra gente que é empreendedor”, diz. Em um eventual segundo turno sem Renan, Lula não é opção. “Já votei nele e não vi nada. Continua a mesma coisa ou pior.”

Jack trabalha ao menos 12 horas por dia. No almoço, leva a filha mais nova à escola. “Graças a Deus meu trabalho está tendo muita procura”, diz.

Na cidade de Flores da Cunha, na Serra Gaúcha, Janaína Massarotto, 38, abriu em 2018 uma vinícola com a ajuda da família, já na quarta geração na produção de vinho. Dedica-se integral e apaixonadamente à empresa, a primeira vinícola comandada por uma enóloga.

Casada, está de licença-maternidade há dois meses. Fala com lágrimas nos olhos sobre a culpa de lidar com a maternidade e abrir mão do dia a dia dos negócios. “Já chorei várias vezes porque precisei me ausentar da coisa que eu vivia 24 horas”, diz.

Janaína acredita ter uma boa divisão das tarefas com o marido, mas sabe que essa culpa pesa mais sobre ela. “Não adianta, o filho é da mãe. Sou eu que amamento.”

Ainda continua em dúvida sobre seu voto, mas diz que, no seu ambiente de negócios, a direita está melhor posicionada. “O que vai definir o meu voto é quem vai dar melhores incentivos dentro do que trabalho.”

O sonho dela passa pelo empreendimento da família: uma grande cava com características modernas e muitos barris para envelhecer os vinhos que elabora.

Moradora de Contagem (MG), Renata Nunes, 52, formou-se em pedagogia pelo ProUni, mas mudou de área para receber mais. Já acumulou dois empregos, mas uma promoção em uma empresa de segurança permitiu-lhe conviver mais com a família.

Separada, é mãe de cinco filhos e tem três netos. Vai votar mais uma vez em Lula. “Muita coisa melhorou em relação à educação, ao acesso ao mínimo, à vacinação”, diz.

Instada sobre seu sonho, imagina uma cidade com muito verde e com pessoas tocando violão na calçada e convivendo sem medo.

Folha de São Paulo

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