Política

6 vieses que alimentam percepções erradas

A verdade e a percepção foram sempre irmãs desavindas. De vez em quando alinham e entendem-se, mas a maior parte das vezes cada uma anda para seu lado. Tendemos, individualmente e como sociedade, a enganar-nos e a iludir-nos. Apesar das evidências nos contrariarem, insistimos em estar errados sobre muita coisa.

A forma como percepcionamos o mundo é, muitas vezes, bastante distante do que mostram os fatos, os números, os estudos e os especialistas. Isso tem impactos enormes nas nossas vidas pessoais e também na vida coletiva. Grande parte do trabalho de comunicação dos políticos explora este hiato, seja para amplificar ilusões ou para tirar proveito delas.

No limite, esta dissonância vale ouro. “O sujeito ideal para um governo totalitário é indivíduo para quem a distinção entre fato e ficção e entre verdadeiro e falso deixou de existir”, explicou Hannah Arendt em “As Origens do Totalitarismo”.

Porque é que isto continua a acontecer, se o ser humano conseguiu ter tanta informação facilmente ao seu dispor? Vale a pena ir ao passado, à nossa natureza biológica, para entender as razões profundas do poder das percepções.

Como mamíferos, estamos desenhados com um lobo pré-frontal, o “diretor-executivo” da mente, pequeno, enquanto a glândula que segrega a adrenalina, o nosso sistema de alarme, é bastante grande. Os mecanismos de defesa primitivos foram vitais durante milênios para a reação de “luta ou fuga”. Hoje continuam a ajudar-nos, claro, mas também nos causam problemas. Alimentam um sistema gerador de ilusões.

O investigador social Bobby Duffy trabalhou sobre este tema num magnífico livro chamado “Os Perigos da Percepção”. Nele descreve que somos receptores do que nos dizem os meios de comunicação social, as redes sociais e os políticos, mas o modo como pensamos está toldado por muitos atalhos mentais errôneos.

São pelo menos seis os vieses que, nos dias de hoje, são determinantes para deformar a nossa visão da realidade:

1. Viés da superioridade ilusória: Tendemos a achar que somos superiores ao cidadão médio nas características positivas, como a inteligência, talento para a condução ou capacidade de liderança.

2. Viés da negatividade: Os nossos cérebros lidam de modo diferente com potenciais ameaças e informação negativa e armazenam-na em locais de mais fácil acesso.

3. Viés da retrospeção idílica: O passado tende a ser recordado como melhor do que o presente. Rever as coisas através de uns óculos cor-de-rosa contribui para a nossa sensação de bem-estar e de auto estima.

4. Viés da história cativante: Recordamos boas histórias muito mais facilmente do que informações e estatísticas enfadonhas.

5. Viés da confirmação: Somos atraídos pelas histórias que reforçam as nossas ideias feitas e as nossas crenças preconcebidas, e tendemos a desvalorizar as que as contrariam.

6. Viés do efeito ilusório da verdade: A mera repetição de uma informação falsa aumenta a sua credibilidade. Há falsidades que, ditas vezes sem conta, são notoriamente inamovíveis.

Não conseguimos mudar o desenho do nosso cérebro. Mas podemos, pelo menos, saber como ele funciona para não nos deixarmos enganar ou manipular tão facilmente. Seja nas redes sociais, por pessoas à nossa volta ou pelos políticos.


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Folha de São Paulo

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