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Guto Miguel vence Antonius e é campeão do juvenil de Roland Garros

Luis Augusto Queiroz Miguel, o Guto Miguel, é campeão. O goiano de 17 anos derrotou o americano Michael Antonius, 16, por 6/3 e 6/4 na quadra Simonne-Mathieu neste sábado (6), em 1h15, e se tornou o primeiro brasileiro a vencer o título de simples juvenil em Roland Garros. Antes dele, Edison Mandarino (1959), Thomaz Koch (1962 e 1963) e Luís Felipe Tavares (1967) tinham chegado à decisão em Paris. Nenhum levou o troféu.

Com o forehand como arma principal e dropshots que desestabilizavam o ritmo do adversário, o brasileiro dominou fisicamente e taticamente–jogou, desde o primeiro game, como quem já pertence ao circuito profissional.

No primeiro set, Guto quebrou o serviço de Antonius duas vezes e construiu uma vantagem que não devolveu. O americano salvou quatro set points antes de o brasileiro fechar em 6/3. A quadra, que começara com metade das arquibancadas ocupadas, foi enchendo à medida que o jogo avançava. Com cerca de 70% de capacidade no segundo set, a maioria da torcida era brasileira–e se fez ouvir. “Olé olé olé, Guto Guto!”, ecoou pela Simonne-Mathieu.

No segundo set, o roteiro se repetiu. Guto voltou da troca de lados com a mesma intensidade, quebrou novamente e abriu 5/2. Antonius reagiu, devolveu a quebra e chegou a 5/4. Mas o brasileiro sustentou a vantagem, desperdiçou um match point, e fechou no seguinte. Agressivo, rápido e com múltiplas opções durante os pontos, Guto lembrava o espanhol Carlos Alcaraz: aquela combinação de energia física, inteligência tática e repertório amplo que não deixa o adversário se adaptar.

Com o título, Guto se torna o quarto brasileiro campeão de simples juvenil de Grand Slam, após Tiago Fernandes (Australian Open de 2010), Thiago Wild (US Open de 2018) e João Fonseca (US Open de 2023). Também consolida a liderança do ranking juvenil da Federação Internacional de Tênis (ITF), que será oficializada na atualização desta segunda-feira (8).

Aos 17 anos recém-completados, com ranking ATP em 829º em simples e 177º em duplas, Guto já esboça a transição para o profissional. O título em Paris chega no momento certo–e da forma mais eloquente possível.

Ao receber o troféu, Guto se emocionou ao dedicar o prêmio a Kike Granjeiro, um de seus técnicos, que o acompanhou durante o torneio apesar de ter perdido um irmão há duas semanas.

De Goianésia a Paris: Guto Miguel faz história

Guto Miguel nasceu numa família de tenistas. O pai joga; o irmão mais velho também. O tênis era o idioma da casa em que o caçula, que todos chamam de Guto, cresceu, em Goiânia, onde nasceu em 26 de fevereiro de 2009. Dezessete anos depois, ele é o número 1 do ranking mundial da categoria juvenil.

A história começa em Goianésia, cidade do interior goiano onde a família morava quando Guto deu os primeiros passos no esporte. Foi ali que ele começou a jogar, aos cinco anos, batendo bolinha num paredão. O pai ensinava. O irmão Luís Felipe, cinco anos mais velho, treinava ao lado.

Quando o talento ficou evidente, veio a decisão difícil. Aos 14 anos, Guto deixou Goiânia sozinho para se profissionalizar em Brasília, onde passou oito meses morando em casas de família antes de os pais decidirem se mudar definitivamente para a capital. A aposta foi feita pelos dois lados: a família largou a cidade natal, e o menino apostou numa carreira que ainda não tinha nada garantido.

Em Brasília, passou a treinar com a dupla que o acompanha até hoje: Santos Dumont Guimarães, 57, e Kike Granjeiro. Para Guimarães, a chegada à final em Paris não é surpresa. “Já esperava. A gente trabalha há muito tempo para isso. O desenvolvimento dele foi absurdo, subiu muito rápido. Acho que tudo estava no tempo de acontecer”, disse à Folha.

O salto, de fato, foi rápido. Em 2024, com 15 anos, Guto classificou-se para Roland Garros juvenil pela primeira vez. Em 2025, chegou à semifinal do US Open juvenil e venceu o J500 de Mérida —tornando-se o primeiro brasileiro a levantar um troféu nessa categoria desde Orlando Luz, em 2015. Também acumulou tempo de quadra ao lado de Holger Rune, ex-top 5 do mundo, e passou uma semana no centro de treinamento de Rafael Nadal na Espanha.

Em 2026, o ritmo acelerou. Venceu o J300 de Traralgon, na Austrália, em simples e duplas. Chegou às quartas do Australian Open juvenil. Começou a transição para o circuito profissional com títulos em duplas no Challenger, ao lado do irmão Luís Felipe e de outros parceiros. Em fevereiro, recebeu um convite para disputar o Rio Open —ATP 500, o maior torneio da América do Sul. Perdeu na estreia, mas não deixou de impressionar. Tinha a mesma idade de João Fonseca quando o carioca estreou no mesmo torneio, em 2023.

Fonseca, aliás, é uma referência declarada. Os dois treinaram juntos no Brasil. Agora, com Fonseca, que chegou às quartas de Roland Garros no masculino profissional, e Guto na final juvenil, o tênis brasileiro ocupa dois andares do mesmo torneio ao mesmo tempo.

Para Guimarães, o que sustenta a ascensão são três qualidades. “O Guto é muito forte fisicamente, com golpes muito potentes, e tem leitura de jogo. Essas três coisas ele faz muito bem”, afirmou. Fora da quadra, o técnico descreve outro retrato. “É uma pessoa alegre, descontraída, gente boa. Gosta de brincar. Um garoto legal.”


Esporte / Folha de São Paulo

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