Futebol cresce nos EUA, mas Copa mobiliza mais imigrantes do que americanos

Quando a bola rolar na sexta-feira (12) para o primeiro jogo nos Estados Unidos da Copa do Mundo, o país volta a ser o anfitrião para o maior evento esportivo do planeta desde que sediou o Mundial pela primeira vez, em 1994. A abertura e o segundo jogo, na quinta (11), ocorrem no México e no Canadá, também anfitriões.
Embora os EUA sejam o principal anfitrião do torneio —onde 78 das 104 partidas acontecem— a maioria dos americanos não pretende acompanhar os jogos. Levantamento do Pew Research Center mostra que 66% dos adultos dizem ser pouco ou nada propensos a seguir a competição. Apenas 28% afirmam que devem acompanhar o Mundial de alguma forma.
O interesse é significativamente maior entre imigrantes. Segundo a pesquisa, 54% dos estrangeiros que vivem nos Estados Unidos pretendem acompanhar a Copa, mais que o dobro dos 23% registrados entre americanos nascidos no país.
Os números ajudam a explicar uma das características mais peculiares de uma Copa em território americano: boa parte da paixão pelo torneio vem justamente das comunidades de imigrantes que ajudaram a formar o país.
O engenheiro estrutural Eric Zuidema, 37, brasileiro que vive nos EUA desde os 10 anos, diz que o futebol ainda disputa espaço com uma oferta muito mais ampla de modalidades esportivas do que aquela encontrada no Brasil.
“Nos Estados Unidos você tem futebol americano, basquete, beisebol e várias outras opções. No Brasil, praticamente tudo gira em torno do futebol. Isso acaba reduzindo um pouco o nível de fanatismo que a gente vê”, afirma ele, que vive próximo de Miami, na Flórida.
Ainda assim, ele percebe uma mudança gradual nas últimas duas décadas. “Sempre acompanhei futebol e vejo meus amigos americanos prestando cada vez mais atenção ao esporte.”
Apesar das preocupações envolvendo imigração e custos de viagem, o governo Trump insiste que o interesse internacional segue elevado. Segundo Andrew Giuliani, diretor da força-tarefa da Casa Branca para a Copa, a FIFA já ultrapassou a marca de 6 milhões de ingressos vendidos.
“Queremos que as pessoas venham para os Estados Unidos e aproveitem esta Copa do Mundo, ao mesmo tempo em que garantimos que o país permaneça seguro”, afirmou. Apesar das promessas, os EUA já começam a registrar controvérsias com casos de árbitros e torcedores barrados, interrogatórios extensos de jogadores e restrições de acesso às vésperas da Copa.
O contraste com a Copa de 1994 aparece também na infraestrutura de segurança. Segundo Giuliani, esta será a primeira Copa do Mundo realizada em território americano sob o aparato de proteção desenvolvido após os atentados de 11 de Setembro.
“Voltando ao 11 de Setembro, aquilo realmente mudou o mundo. Nunca sediamos uma Copa do Mundo ou uma Olimpíada com todas as medidas de segurança criadas após o 11 de Setembro”, disse. Os torcedores encontrarão múltiplos perímetros de segurança, verificações sucessivas de ingressos e restrições ao uso de drones nos arredores dos estádios.
Se em 1994 o futebol ainda ocupava um espaço periférico na cultura esportiva americana, a modalidade cresceu significativamente nas últimas três décadas. Giuliani cita a expansão do esporte no país e a presença de estrelas internacionais como Lionel Messi na liga americana como evidências dessa transformação.
O engenheiro de software Kevin Matthews, 30, vê essa mudança na própria trajetória. Fã de basquete e beisebol durante a infância, ele passou a acompanhar futebol apenas na vida adulta, durante a pandemia.
“Nem sempre gostei de futebol. Durante a pandemia comecei a acompanhar mais e hoje sigo o esporte de perto”, afirma. “A seleção americana começou a ter campanhas melhores nas Copas e isso fez as pessoas acreditarem mais que o país pode competir.” Em 2022 e 2014, por exemplo, os EUA chegaram até as oitavas de final do torneio.
Mesmo com o crescimento da modalidade, o ambiente ainda está distante daquele encontrado em países tradicionalmente apaixonados pelo esporte. Zuidema lembra das ruas decoradas, dos álbuns de figurinhas e da expectativa que cercava os Mundiais durante sua infância no Brasil.
“No meu escritório estão organizando bolões e falando sobre colocar os jogos na televisão durante o expediente. O pessoal está empolgado, mas não passa muito disso”, diz.
Para Jonathan Hanson, cientista político e professor da Universidade de Michigan, a competição ocorre em um momento particularmente delicado para a imagem internacional dos EUA.
Embora as grandes operações migratórias que marcaram os primeiros meses do governo Donald Trump tenham perdido intensidade, Hanson avalia que a questão continua afetando a percepção do país às vésperas do torneio. Ele cita casos recentes de profissionais ligados à Copa que tiveram dificuldades para entrar nos EUA e acredita que novos episódios semelhantes ainda devem surgir.
“As questões migratórias ainda estão presentes e estão criando uma mancha para os Estados Unidos como país anfitrião deste grande evento”, afirmou.
O professor também chama atenção para um elemento que considera incomum na história recente dos grandes eventos esportivos: o fato de o país anfitrião estar envolvido em conflitos militares enquanto recebe seleções estrangeiras.
“Isso é um pouco diferente quando você tem um país que está efetivamente em guerra com outro que está enviando uma das equipes para competir”, disse, em referência à participação do Irã no torneio e ao atual contexto de tensões no Oriente Médio. “Isso me faz pensar em como o resto do mundo percebe os EUA neste momento”, afirmou.
Hanson diz que o clima era muito diferente em 1994. “Havia um sentimento de entusiasmo em relação àquilo. Notavelmente, não existia todo esse drama político”, recordou.
Matthews vê na Copa uma oportunidade rara de encontro entre pessoas de diferentes países em um momento que ele define como “estranho” para os EUA.
“Vai trazer muita gente de países diferentes e todas estarão juntas nos jogos. Acho que isso pode unir as pessoas em um nível mais humano, de pessoa para pessoa”, afirma.
Esporte / Folha de São Paulo



