Saúde

Mocktail de magnésio para dormir melhor faz sucesso nas redes, mas eficácia é limitada

A febre dos mocktails de magnésio como rotina de higiene do sono —como o Sleepy Girl Mocktail, feito com suco de cereja azeda— viralizou nas redes sociais, mas especialistas recomendam cautela antes de aderir à moda.

Estudos recentes mostram que, embora o magnésio ajude a “relaxar” o sistema nervoso, os benefícios variam conforme o tipo e a quantidade da substância. De acordo com o psiquiatra Marcus Renato Castro Ribeiro, do Iamspe (Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual de São Paulo), a indicação de magnésio existe, mas é baseada em suplementação controlada e com doses específicas de produtos com boa absorção.

A médica Verônica El Afiouni, endocrinologista da plataforma INKI, explica que os mocktails de magnésio são bebidas com fórmulas que, geralmente, combinam magnésio quelato, bisglicinato ou L-treonato com outros ingredientes calmantes como L-teanina, triptofano ou inositol.

“O magnésio tem base biológica sólida para atuar no sono. Ele ativa o GABA [ácido gama-aminobutírico], que bloqueia receptores que deixam o cérebro em estado de alerta”, diz El Afiouni.

Ela destaca, porém, que os estudos ainda são inconclusivos. “O benefício mais claro parece ser em pessoas que já tem deficiência desse mineral, o que não é incomum no Brasil. Para quem tem níveis normais, o efeito pode ser mais discreto ou nem existir.”

A médica diz ainda que outros produtos, como melatonina, trazem evidências mais fortes para tratar insônia inicial (a dificuldade para pegar no sono), jetlag e alterações gerais de ritmo circadiano.

Para o neurologista Lucio Huebra, médico do sono e integrante do Conselho Administrativo da Academia Brasileira do Sono, o consumo da bebida deve ser encarado apenas como “recreativo”, parte de um ritual de relaxamento noturno com benefícios comportamentais, nunca medicamentoso, e sempre feito de 30 a 60 minutos antes de dormir para ter algum impacto.

“Existe uma discussão de que algumas frutas usadas nesses coquetéis, por conter melatonina, também poderiam ter efeito adicional no relaxamento e indução do sono. Porém, a evidência maior é de que a baixa quantidade desse hormônio nos alimentos tem pouco efeito”, diz o neurologista.

Ribeiro, do Iamspe, ressalta que o magnésio tem mecanismos biológicos de ação plausíveis, mas a automedicação é arriscada. “Ele freia a excitabilidade neuronal, favorece neurotransmissores inibitórios e pode elevar melatonina e reduzir cortisol, mas pacientes chegam ao consultório já suplementando o mineral por conta própria”, diz ele, que atribui grande parte disso a “vídeos no TikTok com milhões de visualizações”.

A substância só deve ser consumida com prescrição médica, uma vez que o magnésio provoca efeitos fisiológicos reais, especialmente em pacientes com doença renal, miastenia gravis, que fazem uso de medicamentos como digoxina ou diuréticos e também gestantes.

“A fronteira entre bem-estar e automedicação é tênue, e atravessá-la sem orientação tem consequências. Os estudos mostram resultados promissores, mas modestos”, acrescenta o psiquiatra.

Quem usa antibiótico ou bisfosfonato para osteoporose ou medicamento para pressão também deve conversar com um médico.

“O que a ciência aponta é que corrigir a deficiência do magnésio faz diferença. Para quem tem sono ruim, o primeiro passo é sempre uma avaliação médica. O magnésio pode ser um aliado, mas raramente é uma solução completa”, diz El Afiouni.

De acordo com Ribeiro, resultados significativos com magnésio para tratamento de depressão e ansiedade, obtidos a partir de um estudo de 2017 nos Estados Unidos, foram atindidos com pelo menos 248 mg diários de cloreto de magnésio —e em condições monitoradas. “O que chega nas prateleiras como mocktail ou suplemento da moda frequentemente não informa com clareza a dose real de magnésio elementar, nem a forma química utilizada.”

E não basta só aumentar a dose, ele diz, pois a quantidade ingerida eleva proporcionalmente os possíveis efeitos colaterais, como diarreia e desidratação. “Insônia, ansiedade e depressão são condições que merecem diagnóstico e acompanhamento profissional. Um mocktail não trata transtorno do sono. Ele pode, no máximo, fazer parte de um conjunto de hábitos saudáveis”, afirma Ribeiro.

Os especialistas afirmam que quem sofre com problemas do sono deve começar com mudanças de hábito mais profundas, sobretudo na rotina antes de dormir e nas atividades diárias que interferem no descanso noturno, combatendo sedentarismo e estresse.

Noites pontuais mal dormidas podem causar fadiga, sonolência, desatenção, irritabilidade, dor de cabeça e tontura. “Já as consequências a longo prazo são relacionadas com o metabolismo, havendo maior risco de obesidade, diabetes, dislipidemia, hipertensão arterial e risco cardiovascular, aumentando a ocorrência de infarto e derrame ou AVC”, diz Huebra.

Várias noites mal dormidas ao longo de anos podem levar ainda a “processo de declínio cognitivo, prejuízo de memória ou mesmo acelerar um processo de demência em pessoas suscetíveis”, alerta o neurologista. Outro problema é o uso excessivo de telas, que prejudicam o início do sono e estimulam o emocional e a função cognitiva.

“Todos os aparelhos eletrônicos emitem luz azul, ativando o núcleo cerebral, supraquiasmático, que funciona como nosso relógio biológico interno. Essa informação é interpretada como se ainda fosse dia, momento de estar acordado”, conta Huebra.

O impacto do uso de celulares e tablets é tamanho que, para Ribeiro, a privação crônica de sono tornou-se um problema de saúde pública subestimado, aumentando o risco de depressão, ansiedade, doenças cardiovasculares e neurodegenerativas.

“Compromete o julgamento e a regulação emocional e desregula hormônios do estresse. Não é exagero dizer que dormir mal cronicamente é uma agressão sistemática ao organismo. E nenhum suplemento corrige o dano causado por horas de rolagem [na tela do celular] antes de dormir”, afirma Ribeiro.

Informação

Folha de São Paulo

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