Como os não monogâmicos vão celebrar o Dia dos Namorados – 11/06/2026 – Equilíbrio

O Dia dos Namorados do servidor público Vinícius Eigi, 25, vai durar 48 horas neste ano. Nesta sexta-feira (12), dia oficial da comemoração, o namorado Ariel Lemos, 28, vai cozinhar para ele em casa. Com o outro namorado, Artur Rovere, 28, ele vai a um restaurante no sábado (13).
Vinícius mantém relações não monogâmicas. Namora Artur, que é advogado, há cerca de dois anos. Ariel apareceu mais recentemente. Médico residente em psiquiatria, ele está com Vinícius há cerca de um mês e meio.
O servidor público, que também é astrólogo e tarólogo no tempo livre, conta que em datas comemorativas costuma conciliar as agendas sem dificuldade. Diz que o Dia dos Namorados não ocupa um lugar tão central nas suas relações, mas aproveita a data para celebrar com quem ama. “Normalmente passo o dia com uma pessoa e comemoro com outra em outro momento, mas isso varia bastante. Nunca tive uma regra do tipo: este ano será com um, no próximo, será com outro.”
Para Vinícius, também não haveria problema em fazer uma celebração coletiva. “Imagino tranquilamente uma comemoração com o Ariel e o Artur juntos.”
Nas relações não monogâmicas, não há exclusividade entre os envolvidos, cada parceiro pode se relacionar com outras pessoas simultaneamente. Artur também tem outro namorado, e Ariel pode se envolver com outras pessoas se quiser. O mesmo vale para os demais entrevistados desta reportagem.
A ausência de um roteiro sobre como os vínculos devem funcionar, inclusive em datas comemorativas, é um dos pontos que diferencia a não monogamia de uma relação monogâmica, segundo a socióloga Marília Moschkovich, professora da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisadora do tema.
“Na monogamia, as pessoas aprendem desde cedo o que devem fazer em uma relação. Existe um roteiro social bastante consolidado. Quando alguém opta pela não monogamia, precisa construir muitos desses acordos por conta própria”, afirma Marília, que tem 39 anos e também é adepta da não monogamia.
Para a psicanalista e pesquisadora de relacionamentos Carol Tilkian, colunista da Folha, enquanto relacionamentos monogâmicos costumam se apoiar em acordos tácitos, outros modelos de relação exigem que expectativas, limites e desejos sejam discutidos de forma mais explícita.
“Na não monogamia, os acordos não são dados. Eles precisam ser construídos em cada vínculo”, afirma. Para ela, isso é algo que os casais monogâmicos poderiam também aprender: conversar mais sobre a relação sem que isso seja interpretado como sinal de crise.
A professora de pole dance Thaís Anselmo, 39, conta que mora com um parceiro há 15 anos e namora outro há quase um ano. Para ela, o Dia dos Namorados, uma data “comercial”, costuma passar batido. Neste ano, vai acompanhar uma amiga ao médico e não estará com nenhum dos companheiros nesta sexta-feira.
“Nunca tive esse problema de organizar a agenda para uma data específica. O Dia dos Namorados vira uma desculpa para fazer uma coisa legal juntos, mas não necessariamente no dia”, afirma.
Em ocasiões mais importantes para ela, a solução muitas vezes não é dividir a agenda, mas juntar todos os envolvidos. Foi assim no Natal do ano passado, quando reuniu os próprios pais, o companheiro de longa data, a namorada do companheiro, e o namorado mais recente. “Todo mundo estava ali junto.”
Thaís conta que já viveu relações monogâmicas e era bastante ciumenta. Diz que o ciúme continua existindo, mas que a forma de lidar com o sentimento mudou. “Dentro de uma relação não monogâmica a gente precisa trabalhar bastante para entender de onde vem esse ciúme, o que é, por que está sentindo isso.”
Tilkian lembra que a não monogamia não elimina sentimentos que podem ser mais atrelados aos monogâmicos, como ciúme, insegurança, comparação e frustração.
“Não é porque a relação é aberta que os dilemas são inexistentes”, afirma. “Muitas vezes eu vejo pessoas em relações não monogâmicas se sentindo culpadas porque estão com ciúme. Como escolheram esse modelo de relacionamento, acreditam que não deveriam sentir esse tipo de coisa.”
De acordo com a psicanalista, o caminho para lidar com o ciúme passa por reconhecê-lo e conversar sobre ele com o parceiro ou parceira. Ela defende que os casais possam falar abertamente, sem tratar as próprias inseguranças como falhas pessoais ou ideológicas. E ressalta que os acordos devem ser construídos e renegociados de forma constante.
Namorado de Marília Moschkovich há quase quatro anos, o pós-doutorando Douglas Aquino, 39, também namora a técnica de enfermagem Ana Santos, 32, que conheceu há pouco mais de um ano. Ele diz que o ciúme é algo natural, mas que algumas situações impõem desafios maiores, como quando alguma das parceiras conhece alguém novo.
“No início é quando eu fico mais inseguro. Você não sabe o que vai acontecer, como aquela relação vai se desenvolver”, diz ele, que observa um padrão oposto nas companheiras. “Quanto mais a relação avança, mais pode aparecer a insegurança. Quando a pessoa começa a passar mais tempo com alguém, a sair mais, a criar um vínculo mais sério.”
Douglas conta que costuma negociar as datas comemorativas com as namoradas. Para celebrar o próprio aniversário, por exemplo, passou um fim de semana com Ana, que assim como ele mora em São Carlos, no interior de São Paulo, e no seguinte se juntou a Marília, que vive na capital paulista. Para este Dia dos Namorados, o arranjo será parecido.
“A gente vai conversando e se organizando. Não existe uma regra fixa. Neste ano vou passar o dia com a Ana e, no próximo fim de semana, comemoro com a Marília.”
Informação
Folha de São Paulo



