Saúde

Pais transformam maternidade em estética de marca pessoal nas redes

Ser um futuro pai ou mãe é se deparar com uma série interminável de decisões: leite materno ou fórmula? O bebê deve dormir no nosso quarto ou no dele? Que tipo de carrinho devemos comprar?

Agora, além de todas as considerações práticas que envolvem a preparação para um recém-nascido, há uma que é um pouco mais filosófica: que tipo de pai ou mãe eu quero ser na internet?

Em um mundo em que alguns bebês têm perfis no Instagram antes mesmo de nascer, decidir como você quer se retratar como pai ou mãe online se tornou, para alguns, quase tão importante quanto criar os próprios filhos.

No TikTok, criadores de conteúdo têm cunhado termos para suas diferentes abordagens, transformando a maternidade em mais uma estética a ser trabalhada como marca pessoal, ao mesmo tempo em que se dão uma válvula de escape criativa da rotina maçante da parentalidade.

Uma “butter mom” (mãe manteiga, em português), por exemplo, rejeita a cultura de dietas e busca criar uma vida vibrante, com estilo anos 90, para seus filhos, completa com brinquedos analógicos e cores primárias. Uma “cozy mom” (mãe aconchegante, em português) pode combinar conjuntos de suéter com seu recém-nascido e priorizar brincadeiras práticas.

Destiny Carrion, mãe de 26 anos com duas filhas, posta vídeos em sua página do TikTok que representam sua estética de criação, que ela descreveu como “fantasiosa”.

“Acho benéfico para as mães, especialmente as de primeira viagem, conduzir essa jornada com uma estética em mente”, diz Carrion, que mora em Las Vegas. “É fácil se perder no mundo de consultas ao pediatra, horários de dormir, jogos de futebol. Em algum momento você pode perder seu estilo e entrar no piloto automático, deixando a magia da maternidade se apagar um pouco.”

Carrion diz que encontrou muita inspiração de estética parental no TikTok, cuja página de conteúdos recomendados está repleta de conteúdo que divulga estilos como “tuscan mom” (mãe toscana, em português) e “Clean Girl Mom” (mãe garota limpa, em português).

Talvez a mais conhecida seja a “sad beige mom” (mãe bege triste). Em 2022, Hayley DeRoche, escritora e bibliotecária, estava procurando online um conjunto de copinhos de empilhar para comprar para o chá de bebê de uma amiga quando notou algo estranho.

“Eram todos em tons de bege e incrivelmente monocromáticos”, diz DeRoche. “Mas o que realmente me chamou a atenção foi que as imagens de marketing que os acompanhavam eram de crianças apenas olhando para os copinhos, sem alegria. Não havia risadas. Elas apenas ficavam encarando sombriamente.”

DeRoche supôs que as imagens tinham a intenção de sugerir a ideia de que “seu filho será sábio além da idade se brincar com esse brinquedo”, diz ela. “Mas eles apenas pareciam muito tristes.”

DeRoche decidiu criar uma conta no TikTok dedicada ao fenômeno, que ela batizou de “sad beige”, e começou a criar vídeos satirizando a estética. Seus vídeos viralizaram online, e ela os transformou em um livro, “Dress Your Baby in Sage and Taupe: A Handbook for the Sad Beige Parent” (Vista seu bebê de sálvia e taupe: um manual para pais bege tristes, em português).

Para DeRoche, que tem dois filhos, as estéticas parentais têm a ver com sinalizar classe social e crenças.

“É essencialmente uma sinalização de virtude de quem você é como pai ou mãe”, diz DeRoche.

Ela diz ter observado as formas como o marketing pode ser usado contra pais que estão desesperados para “fazer tudo certo”. Eles querem mostrar ao mundo “que você está comprando as coisas certas, assinando os currículos e métodos certos de criar uma criança”. Tudo isso está ligado à classe social.

Apesar de serem curadas para consumo digital, a maioria dessas tendências está unida por uma nostalgia de uma infância pré-internet. Abraçadas tanto por millennials que cresceram antes dos iPads quanto por pais da geração Z que nunca conheceram um mundo sem celulares, as estéticas parentais que se destacam online são, na maioria, aquelas que abraçam brincadeiras criativas ao ar livre e não são sobrecarregadas pelo conceito de tempo de tela.

Segundo DeRoche, no cerne do debate sobre estética parental também está um desejo de controle sobre algo —qualquer coisa!— relacionado à criação de um filho.

“Acho que a parentalidade coloca as pessoas em um lugar onde de repente você perde o controle”, diz ela. “Você pode ter toda a sua vida muito sob controle, e então esse bebê chega, e de repente você poderia ter lido 800 livros e ainda não sabe o que está fazendo.”

Para Kyle Chayka, redator da The New Yorker e pai de primeira viagem que descreveu sua estética parental como “bebê aveia”, também há algo aspiracional na forma como vestimos e apresentamos os bebês.

Embora os novos pais possam ter menos tempo para dedicar às suas próprias aparências pessoais, pelo menos podem vestir seus bebês com roupas limpas e minimalistas. Podem entregar a eles um conjunto de blocos bege de bom gosto em vez de largá-los na frente de uma tela.

“Os bebês são representantes dos nossos gostos pessoais, já que não podem tomar nenhuma decisão por si”, diz ele. “Então acho que os equipamos com as coisas às quais aspiramos, da mesma forma que as pessoas também enfeitam seus cachorros.”

Informação

Folha de São Paulo

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