Política

Crente de verdade vota em quem?

O PT reuniu seu núcleo evangélico em Brasília e organiza uma aproximação desse eleitorado com Lula por meio de temas como violência contra a mulher, fim da escala 6×1 e regulação das bets. Flávio Bolsonaro, ainda em vantagem entre evangélicos, tenta ampliar essa base com fé, família, liberdade religiosa e defesa contra as ameaças aos valores cristãos. Seus acenos combinam presença em igrejas, falar em guerra espiritual e um discurso de segurança focado na redução da maioridade penal.

Essa disputa está posta porque os evangélicos são socialmente diversos, com demandas diferentes, mas há uma década votam de forma concentrada à direita. Neste lado, os políticos pegam atalho na identidade, afinal, crente de verdade defende “a família” e vota contra a esquerda. Na tentativa de explorar a diversidade social e, em escala muito menor, parte da esquerda gospel reproduz a lógica: crente de verdade é quem vota contra a direita em nome da justiça social.

Contudo, na cabeça do eleitor essa estratégia deveria encontrar um limite em Romanos 1:17: “O justo viverá pela fé”. A frase que marcou Lutero lembra que a salvação não vem de obras ou credenciais políticas, mas da fé em Cristo. Se nenhum voto torna alguém mais cristão, nenhuma ideologia deveria servir de carimbo de vida espiritual.

Ao mesmo tempo que o voto não salva ninguém, também não está acima de julgamento, uma vez que as escolhas eleitorais não são igualmente positivas. As propostas e conduta dos candidatos devem ser avaliadas por seus resultados, já que podem proteger ou prejudicar pessoas independentemente das intenções declaradas. Ou seja, a conversa precisa sair da identidade de grupo e entrar no terreno das consequências.

Mas há empecilhos: por um lado, grande parte da direita já aprendeu que muitos evangélicos se mobilizam quando ouvem certas palavras: família, segurança, comunismo, liberdade. São preocupações legítimas, mas pouco se traduzem em soluções para além da reação às propostas da esquerda. Ora, quem pede voto precisa dizer o que pretende fazer sobre creche, renda, segurança pública, etc., e não deveria bastar posar em culto ou receber apoio de pastor famoso.

Já à esquerda, às vezes, as lideranças não entendem os valores e com frequência enxergam a fé como atraso. Então, chega o ano eleitoral e redescobrem que evangélicos também pegam ônibus, trabalham, criam filhos, cuidam de idosos e fazem trabalho social onde o Estado não chega. Essa mudança de atitude, quando convém eleitoralmente, não passa despercebida e tem seus custos.

Ainda assim, a carta dos evangélicos do PT tem um mérito: tenta explicitar uma agenda. Ao conectar políticas do governo Lula, como fim da escala 6×1, Minha Casa Minha Vida e acesso à justiça, à sua leitura do texto bíblico, mostra-se que, quando o voto não está garantido, a política precisa se esforçar um pouco mais.

Se família e proteção dos oprimidos são valores inegociáveis, é preciso olhar para onde esses valores são feridos na prática: escola que não ensina, a violência dentro de casa, apostas e endividamento são alguns exemplos.

Só 27% dos estudantes chegaram ao nível mínimo em matemática e 50% em leitura, segundo o Pisa 2022. Registramos 87.545 casos de estupro em 2024, em sua maioria contra menores de 14 anos e dentro de casa. Além disso, 25,2 milhões de brasileiros apostaram em plataformas autorizadas em 2025, que faturaram R$ 37 bilhões, segundo o Ministério da Fazenda. Em abril de 2026, 29,7% das famílias tinham contas em atraso, segundo a CNC.

Mas debater causas, custos e soluções é menos chamativo e rende menos cortes para as redes. Não existe voto capaz de eliminar todos os impasses e problemas da política, o mínimo é ter consciência sobre qual promessa justificou a escolha e cobrá-la depois. Sem essa cobrança, o voto evangélico fica barato demais: basta acenar com pertencimento.


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Folha de São Paulo

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