Eleições 2026: No mundo de Lula, a retórica está em rota de colisão com a realidade

Lula viajou nove mil quilômetros até Évian-les-Bains, na fronteira da França com a Suíça, com a expectativa de conversar com Donald Trump sobre tarifas comerciais, crime organizado e terrorismo. Deu errado. Nem se cumprimentaram. A reunião acaba hoje.
Lula já havia dito que não pretendia deixar a campanha eleitoral para participar da cúpula do G7. Mas aí surgiu “um tal de Marco Rubio”, como ele se refere ao secretário de Estado dos EUA. No mês passado, Rubio decidiu classificar duas máfias brasileiras (PCC e Comando Vermelho) como organizações terroristas.
Na prática, o secretário vinculou essa decisão a um pedido de Flávio Bolsonaro, candidato do Partido Liberal à presidência, que acabara de ser recebido por Trump na Casa Branca. Foi quando Lula mudou de ideia e resolveu ir à reunião do G7, onde Trump estaria.
A frustração derivou numa agenda diplomática rarefeita e em discursos cautelosos, com dosagem crítica calculada para não provocar atritos com o presidente dos Estados Unidos.
Por isso, escolheu o suspeito de sempre, o neoliberalismo que “agravou a desigualdade econômica e a crise política que hoje assolam as democracias”. Ressaltou: “A extrema concentração de riqueza decorre de décadas de políticas pró-bilionários.”
Não se pode dizer que Lula é um neoliberal ou que o PT seja um reduto do liberalismo. Eles governam o país há 16 anos deste primeiro quarto de século, período em que a desigualdade brasileira avançou, como mostram os dados governamentais.
Um exemplo de “políticas pró-bilionários”, talvez, seja o dos subsídios estatais aos “campeões nacionais”. Essa política produziu, entre outros, os bilionários irmãos Batista. Um deles, Joesley, ajudou Lula a se encontrar com Trump na Casa Branca, em maio.
Sem incomodar Trump no G7, Lula tentou parecer incisivo: “Agora, o protecionismo e o unilateralismo ressurgem como respostas falaciosas para a complexidade dos nossos problemas.”
Ele tem razão na essência, mas a economia brasileira segue sendo uma das mais fechadas. O protecionismo é cláusula pétrea na política, nos negócios e na administração pública. Para comparação, o Brasil cobra uma tarifa média (12,4%) sobre importações em geral, que é muito maior do que a tarifa média genérica (2,7%) dos Estados Unidos.
No mundo de Lula, a retórica está em rota de colisão com a realidade.
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