Avalanche de crises sobre o bolsonarismo impactou sua capacidade de pautar debate, avalia cientista político

A condenação do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) por tentativa de influenciar o Judiciário durante o julgamento da trama golpista e a manutenção da prisão preventiva do pai e do primo do banqueiro Daniel Vorcaro por parte do Supremo Tribunal Federal (STF) tensionam ainda mais o cenário para a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Somado a isso, uma arma de fogo de propriedade do ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar, foi pega com um militar em uma blitz da Polícia Militar em Brasília (DF). Caso o ex-mandatário perca o benefício de cumprir a pena em casa e tenha que voltar para a cadeia, haverá um enfraquecimento nas articulações para viabilizar a corrida do filho mais velho dele ao Palácio do Planalto.
Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o cientista político Rudá Ricci considera que esses últimos acontecimentos provam que a pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro está em queda livre. “O próprio Jair Bolsonaro, a partir da apreensão dessa arma de fogo de sua propriedade, está à beira de perder a prisão domiciliar e voltar para a sala restrita onde permanecia antes de ela ser concedida. Com isso, ficaria muito mais limitado em seus contatos com a própria família, advogados e políticos, ainda que de forma indireta. Também não poderia mais contar com o retorno de Eduardo. Ao mesmo tempo, a situação de Flávio se torna cada vez mais complicada, com uma campanha em franco declínio. Diante desse cenário, já é possível começar a delinear uma crise mais ampla que, de certa maneira, representa uma crise da própria família Bolsonaro e de sua liderança. Se isso realmente ocorrer, mostrará uma ascensão e uma queda muito rápidas”, avalia.
Sobre a revisão criminal que, desde maio, os advogados de Bolsonaro estão pleiteando, Ricci considera mais uma tentativa de desviar o foco e destaca a tática reiterada do bolsonarismo de criar “cortinas de fumaça”. “O que tem de característica justamente nessa extrema direita liderada pelo bolsonarismo é a capacidade de resiliência e de contra-ataque que eles geram”, explica. “Sempre em uma situação muito ruim, eles criam um diversionismo, ou seja, um tema que não tem nada a ver com aquilo que está sendo discutido, e mudam a pauta nacional, criam um contra-ataque. Eles são assim”, aponta. Contudo, dessa vez, segundo o analista, a manobra não deve surtir o efeito esperado. “A avalanche parece que os pegou pelo pé.”
Diante desse cenário que se desenha, Rudá Ricci considera que, se as eleições fossem hoje, o presidente Lula teria grandes chances de vencer em primeiro turno. “Nada garante que, depois das convenções partidárias em julho, agosto e setembro, essa situação continue. Mas, nesse momento, é o mais próximo que o Lula chegou nessa pré-campanha eleitoral de indicar a possibilidade de vitória no primeiro turno”, avalia.
Os impactos da crise no seio da família Bolsonaro podem se alastrar para as alianças que vislumbravam candidaturas ao Congresso Nacional. Ricci cita o afastamento de partidos como o Progressistas e União Brasil, e de figuras políticas como o ex-governador e presidenciável Ronaldo Caiado (MDB).
O quadro, portanto, pode ser favorável a alavancar candidaturas progressistas ao Senado, às assembleias e à Câmara. “A leitura da cúpula tradicional do PT é de que nunca houve uma situação tão favorável nos últimos anos como agora para a eleição de senadores do campo progressista e também para a Câmara de Deputados. Eles estão refazendo os cálculos, porque a situação é muito boa. Eles não falam de ter metade do Congresso, mas de aumentar significativamente a representação na Câmara, inclusive do PT e do campo progressista. Eles falam também no Senado. Eles citam Minas Gerais com Marilia Campos, o Rio Grande do Sul com a Manoela Dávila, São Paulo com a Marina [Silva] e talvez a [Simone] Tebet”, menciona.
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