Ilusão de liberdade na economia do vício

Quando beneficiário de Bolsa Família, endividado, aposta em bets na ansiedade de saldar sua dívida, ele é livre? E quando aluno não consegue acompanhar a aula porque o magnetismo da tela o chama ao infinito? Ou quando o jovem jura que o vape refrescante é só hábito recreativo, mas entra em pânico quando o dispositivo descarrega? Esforços de regulação são sempre paternalistas e restritivos de liberdade? Ou o contrário?
A soberania do indivíduo é uma peça de ficção bem-sucedida na sociedade contemporânea. Sob o manto da “liberdade de escolha”, mercados operam uma mutação radical: a estrutura cognitiva e emocional do sujeito é capturada para a venda de bens. A palavra liberdade, aqui, oferece verniz ideológico para exploração de vulnerabilidades biológicas e sociais. Um crime perfeito.
Essa arquitetura da servidão abrange ao menos cinco engrenagens. A cada campo econômico corresponde uma ilusão de autonomia da vontade.
Na economia do medo e do ódio, o pânico moral se tornou vetor de monetização. As plataformas digitais descobriram que o engajamento máximo deriva do conflito, e estruturam algoritmos que premiam o extremismo. O cidadão acredita exercer liberdade de expressão quando é combustível involuntário de um modelo de negócios que converte o ódio em tráfego e o medo em receita.
Na economia da atenção, a dispersão do foco inviabiliza a reflexão densa e lenta. O brasileiro figura entre os povos que mais consomem horas em redes sociais. A distração gera uma democracia com déficit de atenção. Atrofia-se a capacidade de fiscalização e argumentação democrática. Os espasmos de engajamento superficial se confundem com acesso à informação.
A economia da exaustão do 6×1 criou mecanismos inéditos de autoexploração. O empreendedorismo de subsistência é vendido como autonomia. O sujeito exausto celebra a ausência de chefe e a flexibilidade de horários, sem perceber no que se transformou. O esgotamento é o preço voluntário da busca de sucesso.
Na economia da inteligência terceirizada, a “promptificação” do raciocínio transfere o esforço analítico e textual para a plataforma. Ao delegar a linguagem e o pensamento crítico, o indivíduo abre mão da própria ferramenta de emancipação, confundindo a velocidade do algoritmo com a profundidade do próprio pensamento.
Na economia do vício, temos a ilusão da satisfação. A engenharia da dependência química e financeira opera sob o álibi da responsabilidade individual. Dados do Banco Central revelam que as apostas online movimentam dezenas de bilhões de reais no sistema financeiro, catalisadas pela instantaneidade do Pix. Capturam renda e comprometem orçamento doméstico de famílias pobres.
Há exemplo importante hoje no STF. Ação judicial da CNI contesta a competência normativa da Anvisa para proibir aditivos de aroma e sabor em cigarros. O argumento da indústria invoca “livre iniciativa” e “direito de escolha” do consumidor para mascarar e blindar o design do vício e da iniciação de jovens. Ignora que o desejo foi desenhado no nível neuroquímico para neutralizar sua capacidade de recusa.
Importante é parecermos livres. Mesmo que nosso impulso decisório seja moldado por vício químico, ódio, distração e exaustão.
Paulo Leminski provocou: “Distraídos, venceremos”. Era brincadeira. Viciados, distraídos, exaustos e embrutecidos, seremos vencidos.
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Folha de São Paulo



