Esporte

A Copa do Mundo e o passe eficiente – 18/06/2026 – Coluna FolhaStats

“Como Chris Richards, dos EUA, fez história na Copa do Mundo com uma noite perfeita”, noticiou o USA Today após o jogo dos EUA contra o Paraguai. O jornal se referia a uma estatística: o zagueiro tinha acertado 100% de seus 84 passes. Algo que não ocorria na Copa desde 1966.

A porcentagem de passes corretos dos jogadores é algo que há um tempo as transmissões de TV destacam, geralmente seguida por um silêncio dos comentaristas e locutores. Faz sentido. Sozinho, o número diz pouco.

Quando em posse de bola, zagueiros devem normalmente entregá-la aos que executam passes mais arriscados. Assim, se arriscam pouco. E o número que parece representar um dom esconde apenas um fato: sabendo da sua limitação, o zagueiro pouco se expõe ao erro. Dos 84 passes do americano, 74 foram para trás ou para o lado. Ou seja, a “noite perfeita” do USA Today é simplesmente a de quem insiste em zero a zero.

Para identificar um bom passador, essa métrica não funciona. A alternativa mais usual é a do número de assistências (passes que levam ao gol no lance seguinte). O problema é que o desfecho depende de quem chutou, não só de quem passou. Um bom passe desperdiçado por um chute ruim não vira assistência, e um passe ruim pode acabar em gol graças a um bom arremate. Soma-se a isso o fato de a assistência creditar apenas o passe final, ignorando os passes anteriores, muitas vezes mais decisivos. Por último, gol é um evento raro: contar assistências significa desprezar boa parte do jogo.

Para contornar essa dificuldade, estudiosos do jogo se apoiam na métrica que utiliza o xT, sigla em inglês para “expected threat” (ameaça esperada). Ela parte da ideia de que nem todo lugar do campo vale o mesmo. Uma bola na entrada da área adversária tem chance maior de virar gol nos lances seguintes do que uma bola no campo de defesa.

Sabendo o valor xT de cada local do campo, pode-se responder se um passe levou a bola para uma região com maior ou menor probabilidade de virar gol.

O passe do meia Brahim Díaz no gol de Marrocos contra o Brasil é um bom exemplo: a bola estava no meio de campo (baixo xT) e ele a colocou próxima à meia-lua (alto xT) para o atacante Saibari arrematar.

Voltando ao zagueiro Chris Richards, dos 84 passes que ele deu no jogo contra o Paraguai, somente quatro (5%) levaram a uma melhora na posição do time. Para comparação, dos 102 passes feitos pelo zagueiro suíço Manuel Akanji na partida contra o Qatar, 22 (21%) aumentaram a chance de gol da equipe.

Não por acaso, os zagueiros não são os melhores nessa métrica. São os meias aparecem aqui, a exemplo do alemão Toni Kroos contra a Suécia na Copa de 2018, com 53 de 128 passes incrementando a chance de gol.

Mas somar o perigo gerado ainda favorece quem tenta mais passes arriscados, independentemente da proporção de acerto.

O ajuste se faz ao dividir o que um jogador entregou pelo perigo total que tentou criar com seus passes certos e errados. Quem entregou acima do que o próprio risco prometia é o raro: Tadić (2018), Griezmann, De Bruyne (2022) e Neymar (2018). No extremo oposto, de pouca ousadia e pouco perigo, uma multidão de zagueiros, Chris Richards entre eles.

E isso não faz dele um bom ou um mau passador, mas, sim, um jogador sensato.


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Esporte / Folha de São Paulo

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