Mais altos, mais rápidos, mais velhos: como o corpo dos melhores jogadores de futebol mudou nos últimos 50 anos

Dois gols históricos ocorridos na Copa do Mundo da Fifa de futebol masculino contam a história de uma transformação radical do futebol e do corpo dos seus atletas de elite.
Em 30 segundos tensos e espetaculares na Copa de 1970, no México, a seleção brasileira trabalhou a bola com oito jogadores, até o poderoso chute a gol do capitão e lateral-direito Carlos Alberto Torres (1944-2016).
O quarto gol da seleção contra a Itália na final de 1970 é considerado um dos maiores momentos da história das Copas.
Cinco décadas depois, uma manobra similar de sete passes da Argentina contra a França, na final de 2022 (convertida em gol pelo ponta-direita Ángel Di Maria), levou apenas 12 segundos.
O gol de 1970 “não teria ocorrido nos dias de hoje”, explica o professor Orlando Laitano, da Universidade da Flórida, nos Estados Unidos. Ele é um dos principais especialistas em fisiologia do exercício.
Se aquela seleção brasileira pudesse viajar no tempo, sua jogada provavelmente seria interceptada pelos adversários modernos. E “o desequilíbrio maior não seria o talento, mas a fisiologia“, segundo Laitano.
‘Uma batalha por cada centímetro’
Laitano trabalhou com a seleção brasileira durante a Copa do Mundo de 2014, no Brasil. Ele afirma que os jogadores de futebol modernos são biologicamente diferentes dos seus predecessores.
O professor explica que a evolução dos exercícios, da medicina e da forma de disputa das partidas fez com que o futebol de elite se tornasse uma batalha por cada centímetro de espaço no campo de jogo.
“Por isso, os jogadores modernos precisam ser mais rápidos e mais fortes”, segundo ele.
Os dados das últimas cinco décadas mostram que os principais jogadores passaram a ser mais altos e magros, segundo pesquisadores da Universidade de Wolverhampton, no Reino Unido.
Eles compararam informações de milhares de jogadores da principal divisão de futebol da Inglaterra, entre os anos 1970 e 2020 (a Primeira Divisão até 1992 e a Premiere League nos anos seguintes, que reúne atualmente grande parte dos jogadores de elite de todo o mundo).
A altura média dos jogadores aumentou em mais de 4 cm entre 1973 e 2013. Esta tendência prosseguiu na década seguinte entre os goleiros e zagueiros, mas a altura média dos meio-campistas e atacantes sofreu uma pequena redução.
Os pesquisadores também concluíram que os jogadores da principal divisão inglesa “estão ficando mais angulares e ectomorfos”. Isso significa que eles tendem a ser cada vez mais altos e magros, com estrutura leve e membros longos.
Esta tendência é indicada pelo aumento das avaliações em uma medida conhecida como Recíproco do Índice Ponderal (RIP), que mede a altura em relação ao peso, de forma a destacar a magreza.
Os autores do estudo indicam que as mudanças de tipo corporal se devem aos campos melhores e ao aumento da carga de trabalho exigida dos jogadores atuais.
Nos anos 1970, os campos ingleses costumavam ficar muito lamacentos no meio do inverno “e os jogadores precisavam ser muito musculosos para jogar bem”, segundo o professor emérito Alan Nevill, um dos autores do estudo.
Mas, agora, os campos são melhores e “você tem esses jogadores mais leves e magros, que podem manter seu desempenho por períodos mais longos, preservando energia”.
Os especialistas também afirmam que os jogadores consomem grande parte dessa energia para correr.
Correndo (muito mais) para vencer
Diversos estudos calculam que os jogadores raramente quebravam a barreira dos 30 km/h nos anos 1970 e 1980. Mas, na Copa do Mundo de 2022, no Catar, pelo menos 10 deles correram a mais de 35 km/h.
Mais do que isso, os jogadores, agora, precisam atingir sua velocidade máxima em mais ocasiões durante cada partida.
“Se você observar os atacantes do século passado, eles conseguiam andar na maior parte do jogo e explodir apenas em alguns lances para, talvez, marcar um gol. Isso não existe mais”, explica o professor de fisiologia do exercício Jens Bangsbo, da Universidade de Copenhague, na Dinamarca.
Na última Eurocopa masculina, disputada em 2024, na Alemanha, os jogadores correram a 25 km/h ou mais cerca de 12 vezes por jogo, segundo a Uefa, o organismo que dirige o futebol na Europa.
Mas o número de arrancadas depende da posição. Os zagueiros-centrais e meio-campistas correram a todo vapor, em média, oito vezes por partida, enquanto os atacantes fizeram o mesmo 12 vezes e os laterais, 14.
Correr rápido é uma coisa, segundo Bangsbo, mas o mais importante é a capacidade de correr repetidas vezes.
“Basicamente, o futebol atual é questão de recuperação, a capacidade de se recuperar o mais rápido possível.” Bangsbo é ex-jogador de futebol profissional e um dos maiores especialistas em fisiologia e preparo físico futebolístico do mundo.
A aceleração do jogo, particularmente na última década, foi causada, em grande parte, pelo aumento do uso de táticas de alta pressão —tentativas rápidas e coordenadas de tomar a posse de bola dos zagueiros da equipe adversária, antes que eles consigam realizar o passe mais para a frente.
Mas o interessante é que o jogo não observou grandes aumentos das distâncias cobertas pelos jogadores.
Estudos indicam que, nos anos 1970, os jogadores andavam ou corriam, em média, 8,7 km por partida. Este número atingiu um pico de 11,4 km nos anos 1990, mas caiu desde então.
Na Copa do Mundo de 2022, os jogadores cobriram uma distância média de 10,6 km por jogo, segundo a Fifa. Mas esta distância variou entre as diferentes posições.
Os jogadores estão jogando demais?
Os dados também indicam que os jogadores de futebol de alto nível estão jogando com mais frequência.
Estudos demonstraram que o número de partidas disputadas pela maioria dos clubes espalhados pelo mundo é estável, em cerca de 42 por ano. Mas a sobrecarga pode ser muito maior para os atletas de elite.
O zagueiro holandês do Liverpool Virgil van Dijk, por exemplo, já disputou 65 partidas nesta temporada. Destas, 10 foram pela seleção nacional, antes da Copa do Mundo, segundo dados publicados pelo sindicato internacional dos jogadores de futebol, Fifpro.
A entidade declarou que os jogadores nunca foram tão exigidos e pediu proteções maiores em relação ao tempo de repouso e recuperação.
“O número de partidas disputadas certamente é uma questão relacionada ao risco de lesões”, segundo Bangsbo.
Um estudo encomendado pela Uefa e publicado em 2023 demonstrou o que a entidade descreve como aumento “preocupante” das lesões dos músculos da coxa ao longo das oito temporadas anteriores.
O estudo não determinou a causa, mas seus autores sugeriram possíveis fatores, como o aumento da intensidade do futebol de elite e a sobrecarga dos calendários de jogos.
“Atualmente, os jogadores trabalham no limite”, explica Laitano. “Sem tempo de recuperação adequado, o corpo desmorona.”
Veteranos em alta
Mas também existem boas notícias. Os avanços da ciência do esporte, incluindo regimes de treinamento, nutrição e recuperação, possibilitam que os jogadores de futebol se mantenham na elite por mais tempo.
Um exemplo é a idade média da Uefa Champions League, o torneio de clubes mais importante do mundo, que aumentou de 24,9 anos em 1992 para 26,5, em 2018.
As três últimas Copas do Mundo foram as mais “idosas” da história, segundo a Fifa.
A Copa de 2018, na Rússia, registrou a maior idade média dos jogadores da história do torneio: 27,9 anos.
Apenas sete jogadores com 35 anos ou mais participaram da Copa de 1990, na Itália. Mas 41 estiveram no torneio de 2022, segundo os dados compilados pelo economista e cientista de dados Joshua C. Fjetstul, da Universidade de Oslo, na Noruega.
Neste ano, a relação oficial da Fifa inclui 72 jogadores com 35 anos ou mais. E oito deles têm pelo menos 40 anos, mais do que todas as Copas anteriores, somadas.
“Os jogadores que cuidam de si e seguem os protocolos corretos de treinamento e recuperação têm muito mais possibilidade de jogar na elite por mais tempo do que antes”, conclui Orlando Laitano.
Gráficos de Caroline Souza e Daniel Arce-Lopez, da equipe de Jornalismo Visual da BBC.
Este texto foi publicado originalmente aqui.
Esporte / Folha de São Paulo



