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Camisas de seleções são arma eleitoral de populistas na América Latina em meio à Copa

Algo incomum para um candidato à presidência, o colombiano Abelardo de la Espriella tem sua própria linha de moda. No site do elegante populista, é possível comprar um blazer xadrez lilás, lenços de bolso paisley ou tênis que custam mais de R$ 600.

Mas na preparação para a eleição deste domingo em meio à Copa do Mundo, o direitista radical de la Espriella tem aparecido com apenas uma roupa: a camisa amarela vibrante da seleção colombiana de futebol.

Favorito para vencer a presidência, ele deu uma entrevista à mídia local no início desta semana em sua casa, cercado por arte moderna cara, vestindo a camisa amarela. Em seu comício de encerramento, quando subiu ao palco com o uniforme de futebol, a maior parte da multidão estava vestida da mesma forma.

Com a eleição acontecendo durante o Mundial, de la Espriella enfureceu opositores de esquerda com seus esforços para fundir seu nacionalismo militarista com a onda de apoio à seleção nacional. Sua camisa está estampada com um dos slogans de sua campanha: “Firme por la Patria” ou “Firme pela pátria”.

O Brasil, também em meio a uma campanha eleitoral, enfrenta uma disputa semelhante pela camisa da seleção. Nos últimos anos, o ex-presidente Jair Bolsonaro adotou o famoso uniforme amarelo e verde como farda de seu movimento de extrema direita.

Luiz Inácio Lula da Silva, que está concorrendo a um quarto mandato, lançou um contra-ataque esta semana para reconquistar as cores. O veterano esquerdista divulgou um anúncio online em que critica o governo Trump em meio a uma enxurrada de apoiadores vestindo camisas do Brasil. Em outra publicação, no Instagram, ele vestiu o uniforme da seleção.

À medida que a política em ambos os países se tornou mais polarizada na última década, os candidatos estão se agarrando a um dos poucos símbolos potentes que ainda unem as pessoas. Na era dos smartphones, a Copa do Mundo é uma experiência rara e genuinamente coletiva.

Para os populistas de direita que estão sacudindo a política da região, as camisas de futebol também são um atalho fácil para narrativas no estilo Maga —de que a esquerda é antipatriótica, obcecada com minorias e fraca na defesa da nação.

Em ambos os países, o uniforme de futebol desempenha um papel desproporcional na identidade nacional.

No Brasil, a camisa amarela com gola verde se tornou uma das imagens definidoras do país com o triunfo de Pelé e companheiros na Copa do Mundo de 1970, a primeira a ser televisionada em cores.

Para a Colômbia, o uniforme amarelo com detalhes em vermelho e azul, criado por um ex-designer da Dior, ganhou status icônico no início dos anos 1990, quando uma geração de ouro de jogadores capturou a imaginação nacional durante um período de intensa violência política.

De la Espriella começou a usar a camisa de futebol pouco antes do primeiro turno da votação em 31 de maio e pediu aos apoiadores que vestissem o uniforme no dia da eleição. A demonstração de patriotismo se alinhou com uma campanha que promete uma política de “mão firme” contra traficantes de drogas, enquanto ele acusa o rival de esquerda Iván Cepeda de ser leniente com o crime organizado.

“O país está cansado dessa insegurança, dessa violência”, disse José Manuel Restrepo, seu candidato a vice, ao FT. “Tivemos um governo que não fez absolutamente nada contra esses grupos criminosos, que foi fraco diante do crime.”

Cepeda, filho de um líder comunista que geralmente usa camisas sem colarinho que lembram Mao Tsé-tung, inicialmente pediu à federação colombiana de futebol que interviesse. Em determinado momento, um juiz em Bogotá decidiu que era “impróprio” de la Espriella usar a camisa de futebol em um contexto político —decisão que ele disse que ignoraria. Outro magistrado derrubou a decisão.

No entanto, Cepeda mudou de estratégia. Muitos de seus seguidores passaram a usar a camisa e, em um evento de campanha na semana passada com torcedores de vários times de futebol, ele recebeu uma camisa da seleção. “Não seja ladrão, não roube nossa camisa”, disse ele.

De la Espriella conquistou o apoio de vários jogadores de futebol proeminentes, incluindo Faustino Asprilla, um dos heróis do time dos anos 1990. O candidato conseguiu vincular sua imagem à camisa apesar de aparentemente ter pouco interesse pelo esporte.

De acordo com uma biografia do escritor colombiano Ángel Becassino, “Abelardo detesta futebol, nunca foi a um estádio assistir a uma partida e não está nem aí com o que acontece em uma Copa do Mundo.”

Durante a última eleição brasileira em 2022, a associação de Jair Bolsonaro com a camisa amarela era tão forte que alguns opositores chegaram a propor mudar o uniforme da seleção.

No entanto, uma proposta de adotar um uniforme antigo branco e azul foi amplamente criticada: aquela camisa havia sido abandonada depois que o Brasil perdeu inesperadamente a final da Copa do Mundo de 1950 no Rio de Janeiro para o Uruguai, um evento ainda considerado um trauma nacional.

Lula não está correndo riscos este ano. A nova campanha publicitária chamada “Lula joga pelo Brasil” mistura imagens do uniforme de futebol com alegações sobre as conquistas de seu governo.

No início deste ano, ele disse que a esquerda precisava garantir que as cores nacionais não fossem tomadas “por nenhum fascista”.

Seu adversário mais próximo é Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente, que chama o uniforme de futebol de “a camisa do Bolsonaro”. “Lula só usa o verde e amarelo durante eleições e Copa do Mundo”, disse o Bolsonaro mais jovem no Instagram. “Nós usamos a camisa a vida inteira.”


Esporte / Folha de São Paulo

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