Terapia musical gratuita ajuda na reabilitação de pacientes com demência nos EUA

No início dos seus 60 anos, Rob Kaufman sofreu uma emergência médica que o fez desmaiar e bater a cabeça em um piso de madeira, resultando em uma lesão cerebral traumática.
Ele foi colocado em coma induzido e permaneceu na unidade de terapia intensiva por cerca de um mês, segundo sua esposa, Ellen Kaufman. Em seguida, passou por nove semanas de extensa reabilitação, incluindo terapia da fala, e hoje apresenta perda significativa de memória de curto prazo.
A musicoterapia se mostrou inestimável na reabilitação do ex-músico de estúdio, que afirma ter tocado com nomes como Jimi Hendrix.
Hoje, os Kaufman frequentam regularmente um programa de concertos em Manhattan, em Nova York (EUA), voltado para pessoas que apresentam sintomas de demência.
Recentemente, o casal participou de uma apresentação comemorativa do décimo aniversário do programa, que contou com a participação do Quarteto de Cordas Calidore.
A apresentação encerrou a temporada diante de uma plateia lotada de cerca de cem pessoas.
Uma espectadora fechou os olhos e simulou reger a orquestra enquanto os artistas tocavam Mozart, enquanto outra batucava no braço de sua cuidadora como se estivesse tocando teclas de piano.
O Lincoln Center, famoso complexo artístico localizado no Upper West Side de Nova York, iniciou essa programação devido a uma necessidade, afirma Hoffner, diretora de acessibilidade da instituição.
“Estávamos ouvindo cada vez mais de nossos assinantes da Filarmônica e da Sociedade de Música de Câmara que eles não estavam renovando suas assinaturas devido à demência, já que seus familiares haviam sido afetados”, diz Hoffner à AFP.
“Era um público que realmente nos apoiava havia, em alguns casos, décadas. Sentimos a responsabilidade de preencher essa lacuna”, afirma.
Demência é um termo abrangente para sintomas debilitantes que podem resultar em perda de memória e prejudicar os movimentos e a vida cotidiana.
A doença de Alzheimer responde pela maioria dos casos, mas uma variedade de fatores de risco e condições pode desencadeá-la.
Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), em 2021, cerca de 57 milhões de pessoas viviam com demência no mundo, com aproximadamente 10 milhões de novos casos a cada ano. A condição é progressiva e não tem cura.
Os casos estão aumentando em parte porque a geração dos Baby Boomers (pessoas nascidas durante o aumento populacional após a Segunda Guerra Mundial) alcançou a terceira idade e, em geral, está vivendo mais do que as gerações anteriores.
Isso significa que essas pessoas estão experimentando mais doenças crônicas e problemas de saúde que podem acompanhar a velhice.
Entre eles está a demência, diz Emily Finkelstein, especialista em geriatria do centro médico New York-Presbyterian.
E, especialmente nos Estados Unidos, com seu sistema de saúde caro e complexo, faltam estruturas sociais mais amplas para cuidar dessa crescente população de pessoas com demência, diz a médica à AFP. “É um problema enorme.”
Finkelstein aponta para a ampla quantidade de dados que comprovam o valor das terapias por meio da arte, da música e da dança para pessoas com comprometimento cognitivo.
Mas, nos Estados Unidos, esses programas são de difícil acesso para muitas pessoas.
“Não temos um programa nacional de saúde. É muito mais complicado estruturar e expandir esse tipo de programa, embora saibamos que eles são benéficos”, afirma Finkelstein.
Envelhecer em casa
No Lincoln Center, a programação voltada para pessoas com demência e seus cuidadores é gratuita.
Uma organização sem fins lucrativos de apoio a cuidadores de pacientes com Alzheimer treinou os funcionários sobre a melhor forma de acolher o público e desenvolver apresentações acessíveis realizadas por artistas de nível internacional.
“Você verá pessoas de mãos dadas, verá pessoas batendo o pé no ritmo, verá pessoas participando vocalmente da música”, diz Hoffner.
Os concertos são menos formais e mais descontraídos do que as apresentações tradicionais de música clássica e são seguidos por oficinas conduzidas por musicoterapeutas e educadores artísticos para estimular a participação e o envolvimento criativo dos participantes.
Hoffner diz que parte do objetivo é oferecer recursos para que os idosos possam “envelhecer em casa” apesar de viverem em uma cidade notoriamente caótica.
Para Rob Kaufman, 73, ex-professor de matemática e ciências, os concertos proporcionaram uma forma de, como diz sua esposa, “sair da própria bolha”.
“Todos nós somos diferentes de quase todas as outras pessoas lá fora, então, quando estamos em uma comunidade como esta, podemos ser diferentes, e todos aceitam isso”, diz ele.
Ellen Kaufman diz que, quando começou a lidar com a nova realidade do marido, havia menos programas disponíveis.
“Significa muito para nós ter isso. Para todos aqui, não é fácil. Vejo o que minhas amigas estão enfrentando. Elas estão vendo seus maridos mudarem. Mas fazem isso junto com eles, saem com eles e fazem parte disso”, afirma.
Informação
Folha de São Paulo



