Economia

Onda rosa está acabando? Vitória na Colômbia fortalece guinada na América Latina

A vitória de Abelardo de la Espriella, conhecido como “El Tigre”, na eleição presidencial colombiana deste domingo (21) amplia um movimento que vem se consolidando o avanço de lideranças conservadoras na América Latina em reação ao desgaste de governos de esquerda e à insatisfação da população com economia e segurança pública.

Para o cientista político e sócio da Real Time Big Data, Bruno Soller, o resultado colombiano vai além da simples alternância de poder. Na avaliação dele, a eleição reforça o enfraquecimento da chamada “onda rosa” — ciclo de governos progressistas que marcou a política latino-americana na última década — e evidencia uma transformação mais profunda no comportamento eleitoral da região.

“Mais até do que o fim, ou pelo menos uma mudança de mão do movimento rosa para o movimento azul escuro, o que é importante é que a gente tem tido um centro cada vez mais diminuto na América Latina”, afirmou.

Segundo Soller, o fenômeno não representa apenas o crescimento da direita tradicional, mas de uma direita mais assertiva e confrontadora, inspirada em lideranças como o presidente argentino Javier Milei e o salvadorenho Nayib Bukele.

“A gente está tendo sempre uma sobreposição à direita, mas de uma direita mais afirmativa do que a direita tradicional”, disse.

Economia e segurança explicam mudança

Na avaliação do cientista político, dois fatores ajudam a explicar por que candidaturas conservadoras vêm ganhando espaço em diferentes países da região.

“O que tem feito com que essa direita mais afirmativa saia vitoriosa nos lugares? Eu acho que são dois grandes movimentos. Primeiro, uma esquerda que não tem dado respostas na economia. E segundo, um grande caos na segurança pública.”

Segundo ele, a perda de poder de compra causada pela inflação e a sensação crescente de insegurança abriram espaço para candidatos que prometem enfrentamento mais duro contra organizações criminosas.

“Você tem tido um problema gravíssimo de segurança pública em todos esses países. E daí a direita vem com um discurso de mão de ferro, com um discurso de enfrentamento mais duro às organizações criminosas.”

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A vitória de De la Espriella ocorre justamente após uma campanha marcada por críticas à política de “paz total” implementada pelo presidente Gustavo Petro, primeiro líder de esquerda da história da Colômbia. A estratégia buscava negociar simultaneamente com grupos armados e dissidências guerrilheiras, mas enfrentou resistência diante do aumento recente da violência.

Colômbia se junta a mudança regional

Para Soller, a eleição colombiana se soma a uma sequência de movimentos políticos observados recentemente na região.

Ele cita o fortalecimento do fujimorismo no Peru, a reeleição de Daniel Noboa no Equador, a vitória da direita no Chile e a ascensão de Milei na Argentina como exemplos de um cenário cada vez mais desfavorável para governos progressistas.

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“Então, a volta do fujimorismo no Peru, agora o De la Espriella na Colômbia, o Noboa no Equador e o Kast no Chile mostram esse movimento.”

O único contraponto relevante, segundo ele, está hoje no México.

“No México, a esquerda tem conseguido, principalmente por conta dos programas sociais, atenuar um pouco da sensação da insegurança pública”, afirmou.

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Para o analista, a presidente mexicana Claudia Sheinbaum lidera atualmente o governo de esquerda mais bem avaliado da América Latina.

“O restante não está bem avaliado”, resumiu.

E o Brasil?

Apesar do avanço conservador em outros países da região, Soller avalia que o cenário brasileiro possui diferenças importantes.

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Segundo ele, a direita brasileira já teve a oportunidade de governar e também não conseguiu apresentar respostas consideradas satisfatórias para os dois temas que hoje impulsionam candidatos conservadores no continente.

“Quando a gente faz um paralelo com o Brasil, qual é o problema? A direita teve um experimento no Brasil e essa direita também não respondeu a essas duas questões.”

O cientista político argumenta que o governo Jair Bolsonaro enfrentou dificuldades econômicas durante a pandemia e também não entregou a transformação esperada por parte do eleitorado na área da segurança pública.

“Havia uma expectativa de que o bolsonarismo fosse enfrentar com mãos firmes o que representava a criminalidade no Brasil, e isso também não aconteceu.”

Ainda assim, ele ressalta que a percepção de piora na segurança durante o governo Lula mantém o tema vivo no debate político nacional.

Na avaliação de Soller, a eleição colombiana reforça uma tendência que pode influenciar diretamente as disputas presidenciais de 2026: a segurança pública e o custo de vida seguem sendo os temas capazes de reorganizar o eleitorado latino-americano.

“Uma esquerda que não consegue entregar na economia e que também não consegue dar respostas na segurança pública tem permitido que essa onda azul escura tenha crescido na América Latina.”

Infomoney

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