Saúde

Permitências Cabo Verde já tem, agora só precisa de mais oportunidades

Quando os tubarões azuis entrarem em campo contra Messi e seus hermanos, torcerei como a maioria dos brasileiros, unidos em querer ver um time africano ganhar de qualquer europeu ou descendente. Mas com uma diferença: agora conheço na pele a triste e dura realidade do país, com suas oportunidades minguadas, após passar uma semana em Praia, a capital, na ilha de Santiago, dando aulas para aspirantes a pós-graduação em Portugal.

Minha mãe tenta contemporizar e pede que eu assista ao documentário “Mindelo Linda” antes de escrever esta coluna com minhas impressões pessimistas do país. Mas das belezas naturais e do povo sorridente apesar dos pesares e hospitaleiro com os estrangeiros eu já sei –quer dizer, desde que os estrangeiros não sejam os vizinhos continentais senegaleses, em condições ainda piores, em busca de oportunidades já escassas de trabalho.

O problema é que Cabo Verde tem escassez brutal de oportunidades à vida humana. A palavra está fresca e viva na minha mente enquanto dou aulas sobre o que é a vida (complexidade auto-organizada às custas de energia e matéria transferidas no metabolismo), comportamento (qualquer ação observável), sistema nervoso (um sistema de distribuição de sinais elétricos) e como a combinação de permitências e oportunidades levou à formação de cérebros cheios de neurônios.

É “permitência” mesmo, Redação: minha tradução para o termo “affordance”, que cooptei em inglês para descrever as propriedades intrínsecas de um sistema que lhe conferem novas possibilidades. Em Cabo Verde, explico aos alunos que a ausência de parede celular que define células animais é uma permitência à formação de neurônios, que por sua vez formam um sistema nervoso, ele mesmo uma permitência à integração rápida mesmo de animais grandes, ainda que a vida, mesmo grande, não precise de um. Da mesma forma, animais não precisam de um sistema respiratório, mas, quando ele existe, ele é uma permitência à formação de tantos neurônios quanto o oxigênio disponível permitir, e o resultado é um cérebro, do qual, de novo, a vida não precisa –mas, quando existe, um cérebro é uma permitência ao comportamento flexível e inteligente.

Meus alunos anotam, vão ao dicionário, e pedem confirmação, pois não encontram a palavra. São diligentes, inquisitivos, aplicados, cheios de vontade e iniciativa, e animadíssimos: enquanto nos EUA preciso de truques para incitar participação, os alunos africanos (pois vêm de vários países) respondem todos ao mesmo tempo às minhas perguntas. Eles têm todas as permitências que definem cientistas.

O que não têm são oportunidades, e sem elas, permitências não servem de nada. A oportunidade mais essencial à vida é energia, e fora dos dois meses de chuva, o solo das pequeninas ilhas de Cabo Verde, seco e duro, só deixa plantações crescerem no fundo dos vales. Eles têm banana, mamão, cenoura, e pouco mais. Na ilha de Santiago, a vida fora de Praia beira o miserável, com galinhas e cabras largadas à própria sorte, soltas ao redor das casinhas. Os mercadinhos têm nomes em chinês, como o investimento que construiu o novo campus, mas até isso é incerto, como o esqueleto de uma construção que não foi adiante é prova.

O que é certo é que, com suas permitências, os tubarões azuis, cheios de vontade, conquistaram a oportunidade de jogar na Copa, então agora sou Cabo Verde desde criancinha.

Referência

Herculano-Houzel S (2026). Brain evolution through novel affordances: a new story of the rise of behavioral flexibility, that is, intelligence, in animals. In Kaas JH, Herculano-Houzel S (eds), Evolution of the Nervous System, 3rd edition, Volume I (Herculano-Houzel S, ed.). Elsevier, London.


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Informação

Folha de São Paulo

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