Vice de Eduardo Paes administra empresa de irmão condenado por fraude

A advogada Jane Reis (MDB), escolhida como pré-candidata a vice-governadora na chapa encabeçada por Eduardo Paes (PSD), é sócia-administradora da empresa que controla propriedades do irmão, o ex-deputado Washington Reis (MDB), condenado por corrupção envolvendo fraude em transação imobiliária.
Ele foi acusado de participar do pagamento de R$ 150 mil a um tabelião para elaborar “diversas escrituras imobiliárias fraudulentas”. A acusação do Ministério Público afirma que o crime foi antecedido de atuação de grileiros com “suporte político e intimidatório” do ex-deputado, atualmente presidente do MDB-RJ. De acordo com a investigação, houve também uso de procuração assinada por uma pessoa que já havia morrido.
Na terça-feira (30), a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão num inquérito em que Washington e Jane são investigados. A polícia apura a atuação da advogada em possível crime de lavagem de dinheiro por meio de transações imobiliárias da WR Participações, empresa que tem o irmão como sócio majoritário.
Washington disse à Folha que a condenação, em primeira instância, foi totalmente descabida e que não houve “nada de errado” de sua parte.
A reportagem procurou Jane por meio da assessoria de imprensa do MDB-RJ desde quarta-feira (1º), mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem. Na terça, após a operação da PF, a advogada disse, em nota, que “não é citada na investigação e permanece à disposição das autoridades”.
Jane é advogada e foi indicada por Washington Reis como vice porque o ex-deputado não pode concorrer, em razão de uma condenação por crime ambiental no STF (Supremo Tribunal Federal).
A família, aliada do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), controla a política de Duque de Caxias, segundo colégio eleitoral do estado e que já teve Washington como prefeito. Atualmente, o município é administrado pelo sobrinho do ex-deputado. O grupo é visto como um ativo para auxiliar a campanha do ex-prefeito na Baixada Fluminense.
A denúncia por corrupção contra Washington foi oferecida pelo Ministério Público em 2019. “Esses imóveis pertenciam a pessoas humildes que foram enganadas pelos denunciados, ou simplesmente tiveram suas terras tomadas pela ação de grileiros, contando com o suporte político e intimidatório do denunciado Washington Reis”, afirmou o órgão.
A investigação apontou que a fraude teria como objetivo registrar a compra de um imóvel em Belford Roxo em nome da empresa Olimpus Empreendimentos Imobiliários, do qual um dos sócios é a WR Participações, firma em que o ex-deputado detém 98% das cotas.
A tentativa de registro da escritura ocorreu, segundo a Promotoria, a partir de uma procuração concedida pela proprietária do terreno, uma chinesa que já havia morrido na data da assinatura do documento. O tabelião recebeu R$ 150 mil para regularizar o terreno.
Em sua decisão, o juiz André Coelho, da 1ª Vara Criminal de Duque de Caxias, afirmou que o depósito realizado constituiu “vantagem indevida destinada a influenciar funcionário público na prática de ato de ofício”.
Washington foi condenado a três anos e sete meses de reclusão. Ele já recorreu da sentença, proferida em dezembro.
Jane não foi alvo da denúncia. A advogada foi mencionada apenas no interrogatório do irmão.
Washington disse que ela é uma das sócias da empresa, mas que depende de sua anuência para tomar as decisões, “pois é investidor e tem visão empresarial”. Ela é dona dos 2% restantes da WR Participações, sendo a administradora da sociedade.
O principal bem da WR Participações é um conjunto de seis terrenos contíguos de 600 mil metros quadrados em Belford Roxo. Eles foram adquiridos em 2016 junto à mesma pessoa envolvida, e também condenada, na ação por fraude em cartório.
A empresa também realizou uma transação cujas características são suspeitas de lavagem de dinheiro, de acordo com critérios do Coaf. Em setembro de 2013, ela adquiriu um terreno em Duque de Caxias por R$ 120 mil. Sete meses depois, a área foi revendida por R$ 1,3 milhão.
Além do lucro de 983% obtido em sete meses, chama a atenção o fato de o mesmo imóvel ter sido avaliado em R$ 994 mil pelo governo do estado em 2011 num processo de desapropriação posteriormente arquivado. A cotação é oito vezes o valor pago pela WR dois anos depois.
Também foi a atividade imobiliária que gerou a condenação do ex-deputado no STF por crime ambiental. Ele foi acusado pelo Ministério Público Federal de causar dano numa área de preservação ambiental de 2003 a 2006, para criar um loteamento clandestino. Segundo as investigações, Washington usou o cargo de prefeito para manter os atos ilegais. Ele foi condenado a sete anos de prisão pelo Supremo, mas ainda tem recursos pendentes.
Condenação foi totalmente descabida, diz ex-deputado
Washington Reis disse na terça que sua condenação foi “totalmente descabida”. “Está em primeira instância e não tem nada a ver. A empresa do vendedor que vendeu que pagou o cartório lá. Foi tudo por dentro. Mas por causa de briga de família fazendo denuncismo. Não tem nada de errado da nossa parte.”
A Folha enviou novos questionamentos para o ex-deputado na quarta, por meio da assessoria de imprensa do MDB-RJ. Pediu para que ele comentasse a acusação da Promotoria sobre a atuação de grileiros e uma suposta atuação intimidatória de sua parte. Não houve resposta até a publicação desta reportagem.
À Justiça ele disse que conhecia todos os proprietários de terra na região e classificou como mentira as alegações de expulsão violenta de moradores das áreas. Ele também afirmou que não participou do pagamento do tabelião, realizado pelo vendedor da área.
A reportagem também pediu à assessoria de imprensa do MDB-RJ um posicionamento de Jane sobre sua atuação na WR Participações e a condenação do irmão num caso envolvendo a empresa. Não houve resposta.
Folha de São Paulo



