Turismo no México cresce com Copa e restrições de Donald Trump

Os cinco países mais visitados do mundo são, por diversas métricas: França, Espanha, Estados Unidos, Itália e Turquia.
O país em sexto lugar, o México, já é uma potência turística em crescimento constante. Agora, espera que o futebol —e um pouco do efeito Trump— possa ajudá-lo a entrar nesse grupo de elite.
“Estabelecemos uma meta muito ambiciosa”, disse a presidente Claudia Sheinbaum no início deste ano sobre o objetivo para seu mandato de seis anos, que termina em 2030.
A maior Copa do Mundo da história está sendo cossediada por Estados Unidos, Canadá e México, que receberá seu último jogo neste domingo (5), entre sua seleção nacional e a Inglaterra, na Cidade do México.
Antes do torneio, autoridades e organizadores mexicanos estimaram que 5,5 milhões de pessoas visitariam o país durante as seis semanas de competição, gerando bilhões de dólares em atividade econômica.
Alguns críticos questionaram esses números, mas o México, já relativamente mais aberto ao turismo, facilitou a entrada de cidadãos de certos países com a Copa do Mundo em mente. O raciocínio é: se você não pode ir aos Estados Unidos por causa das políticas de imigração mais rígidas do presidente Donald Trump, venha para cá.
“O México mantém sua posição de ser um país amigável para o mundo”, disse Gabriela Cuevas, representante do governo mexicano para a Copa do Mundo
Desde que Trump assumiu o cargo em janeiro de 2025, seu governo dificultou as viagens aos Estados Unidos, com novas taxas elevadas, obstáculos para vistos e linguagem agressiva em relação a certos países.
As viagens aos Estados Unidos caíram cerca de 6% no ano passado, uma perda de 4 milhões de visitantes estrangeiros, para 68 milhões. Foi o único país entre os seis mais visitados a registrar queda, segundo dados de uma organização de turismo da ONU.
O México, porém, atingiu novos patamares. No ano passado, o país de mais de 130 milhões de habitantes recebeu um recorde de 48 milhões de turistas com pernoite, um salto de 6% e mais do que seu recorde pré-pandemia de 45 milhões em 2019.
O turismo foi um dos pontos positivos em uma economia mexicana que ultimamente tem patinado com seus próprios problemas de crescimento, um orçamento inchado e a pressão tarifária de Trump.
E quando os Estados Unidos impuseram restrições à seleção iraniana, o México permitiu que ela estabelecesse sua base em Tijuana, perto da fronteira.
“Você vai para onde é bem tratado”, disse Josefina Rodríguez Zamora, ministra do Turismo do México, observando que seu país registrou um aumento de 9% de visitantes canadenses, que parecem estar boicotando viagens aos Estados Unidos em meio às tensões com o governo Trump.
Pela primeira vez, a rota internacional mais movimentada para o México não foi de uma cidade americana, mas do Canadá. No ano passado, o voo Toronto-Cancún ultrapassou Dallas-Cancún no primeiro lugar, e os voos de Montreal para Cancún aumentaram significativamente.
O governo mexicano também tentou posicionar o país como destino para a América Latina durante a Copa do Mundo. A Colômbia, com 54 milhões de habitantes, representa o terceiro mercado turístico mais importante do México.
Durante a fase de grupos, a seleção colombiana jogou duas de suas três partidas no México. Pouco antes do torneio, Rodríguez Zamora disse que o México simplificou seu processo de entrada para colombianos, e a taxa de rejeição caiu de 8% para 2%.
No jogo entre Colômbia e Uzbequistão na Cidade do México, quase todas as 81 mil pessoas no estádio torciam pela Colômbia. E embora alguns tenham vindo dos Estados Unidos e do Canadá, vários disseram ao New York Times que viajaram diretamente da Colômbia.
Erika Leon, 47 anos, e Orlando Pérez, 57, amigos que trabalham no setor bancário em Bogotá, disseram que temiam enfrentar problemas que outros colombianos descreveram antes da Copa do Mundo, como deportação ou horas de interrogatório. Mas Erika disse que a entrada foi fácil. “Todos foram simpáticos.”
Nenhum dos dois tinha visto americano, nem qualquer desejo de obter um. Ambos disseram preferir visitar o México em vez dos Estados Unidos, onde o governo Trump dificultou a obtenção ou renovação de vistos de turista e imigrante de vários países, chegando a exigir pagamentos de fiança de até US$ 15 mil de alguns visitantes para garantir que não ultrapassem o prazo de seus vistos.
A Casa Branca disse que Trump está focado em garantir que a Copa do Mundo seja “uma experiência incrível para todos os torcedores e visitantes”, mas também “a mais segura e protegida da história”.
Ahmed Ben Dahmen, de 32 anos, tunisiano que trabalha com tecnologia da informação em Montreal, foi a Monterrey, no México, para ver sua seleção jogar as duas primeiras partidas e boicotou a terceira, nos Estados Unidos.
“Se o presidente Trump não quer ver tunisianos ou colombianos, não vamos”, disse ele, acrescentando que estava “feliz” em gastar seu dinheiro no México.
Para facilitar as viagens ao México e subir nos rankings globais, Rodríguez Zamora disse que o governo tem trabalhado para digitalizar mais o processo de solicitação de visto.
Em fevereiro, o México restabeleceu um processo de visto eletrônico para brasileiros que permite aos visitantes que chegam de avião solicitar online com antecedência, em contraste com os Estados Unidos, que exigem visto físico.
Ela disse esperar que os latino-americanos cujas seleções estão jogando nos Estados Unidos se reúnam nas grandes e animadas festas para assistir aos jogos em todo o México.
“Eles vão nos visitar antes de visitar os Estados Unidos”, disse ministra do Turismo do México. “O mercado latino-americano está esperando para viver uma festa, e vai encontrar essa festa em nosso país.”
UMA OUTRA VISÃO
Nem todos compartilham seu otimismo. Enrique de la Madrid, ex-ministro do Turismo do México e membro de um partido político de oposição, chamou a Copa do Mundo de “uma oportunidade extraordinária”, mas um evento único.
Ele observou que o antecessor de Sheinbaum dissolveu um importante conselho de marketing turístico. Falou também que os visitantes estrangeiros que chegam ao México de avião —que gastam mais do que os que cruzam a fronteira terrestre— caíram ligeiramente no ano passado. E que várias cidades-sede da Copa do Mundo já reduziram suas expectativas para números de hotéis e visitantes.
Para deslocar a Itália ou a Turquia da lista dos cinco primeiros, disse ele, o México precisaria atrair 12 milhões de visitantes a mais por ano. “Não vamos alcançar o quinto lugar a menos que invistamos o dinheiro e a estratégia que outros países investem.”
Esporte / Folha de São Paulo



